Brasil visto de fora, o país do futuro

Associado: Mário Magalhães Carvalho Mesquita
Valor Econômico
22/03/2017
As opiniões aqui expressas são as do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Há razoável consenso, entre os investidores internacionais, que a combinação de um banco central americano muito gradualista, e um crescimento estável na China tende a favorecer os mercados emergentes em geral, e o Brasil em particular. Nesse ambiente, os fundos internacionais voltados aos mercados emergentes, em especial aqueles focados em instrumentos de renda fixa, têm obtido captações relevantes, o que já tem impactado o comportamento de certos mercados brasileiros.

No entanto, olhando além do curtíssimo prazo, a impressão que se extrai de contatos prolongados com investidores e analistas do exterior é que a velha (e incômoda) piada – o Brasil é o país do futuro, e sempre será – continua, lamentavelmente, válida. Pelo menos esta é a percepção que recolhi nas últimas seis semanas que passei em périplos pelos EUA, Inglaterra, Ásia e Oriente Médio. Vale resumir as opiniões dos investidores e tentar imaginar como eles reagiriam a determinados desenvolvimentos no país.

Em primeiro lugar, os investidores parecem preocupados com a política. Em sua opinião, o governo atual adotou políticas corretas nas áreas fiscal e monetária, e também, ainda que em estágio mais embrionário, na agenda microeconômica. Mas a atual configuração de preços de ativos reflete a opinião, ainda dominante, de que, em linhas gerais, esta linha de política econômica não será alterada após as eleições de 2018. Um retorno às políticas populistas, com ênfase no controle de preços, pouco apreço pela responsabilidade fiscal e viés para o dirigismo estatal na alocação de capital, não parece, a julgar pela opinião dos investidores internacionais, ser muito consistente com o risco país abaixo de 500 bps, Selic em um dígito, ou taxa de câmbio muito abaixo de R$ 4.

Já os opositores mais radicais da reforma da previdência, por exemplo, acusam as autoridades que administram uma dívida pública que vai superar 74% do PIB este ano de ter excessivo respeito pelos credores (que, evidentemente, são a grande maioria dos poupadores brasileiros). Nenhum observador minimamente atento do Brasil esquece que, sem uma forte correção de curso, para a qual a reforma da previdência é condição necessária, a dívida pública brasileira encontra-se em trajetória insustentável – ou, de outra forma, trajetória que, na ausência de um efetivo ajuste fiscal, só pode ser tornada sustentável por meio de uma forte aceleração inflacionária (a dominância fiscal) ou algum mecanismo compulsório de apropriação da poupança privada pelo Estado.

Olhando a agenda atual, a hipótese de trabalho dos gestores internacionais de recursos é que, se não for aprovada na íntegra, a reforma da previdência não será desfigurada pelo Congresso. Em termos quantitativos, se o governo espera poupar 1,6% do PIB até 2025 com a reforma, um resultado, no Congresso, que leve a economias esperadas muito abaixo disso tenderia, todo o resto sendo constante, a gerar correção no preço dos ativos brasileiros.

Aqui e ali começam a surgir questões sobre o apreçamento de nossa moeda, e alguns investidores a consideram sobrevalorizada. O contraponto, factual, é que a moeda tem flutuado com pouca intervenção do banco central e tem sido favorecida pelo desempenho quase que exuberante do preço de alguns produtos exportados e dos
termos de intercâmbio, contra o que há pouco o que as autoridades podem fazer.

Ainda que concordando com a direção geral das políticas macroeconômicas, alguns investidores defendem um ajuste fiscal mais rápido, o que é difícil em ambiente de recuperação incipiente, e expressam dúvidas quanto às perspectivas de flexibilização monetária mais profunda diante das altas de taxas de juros esperadas nos EUA, minimizando a contribuição do regime de câmbio flutuante para cortar as amarras da política monetária brasileira.

De forma interessante, na Ásia, onde a influência da China se mostra mais presente, há a preocupação quanto à vulnerabilidade da atual configuração de preços de ativos aos movimentos de preços de matérias primas, que, por sua vez, são bastante sensíveis ao que se passa na segunda maior economia do mundo. Nesse contexto, surgem questões sobre o que estaria sendo feito para tornar a economia mais resiliente frente às flutuações nos preços de matérias primas e, ainda mais importante, para elevar o seu crescimento potencial acima dos pobres 2% que parecem ser o consenso – sendo que há uma respeitável minoria que trabalha com taxas de crescimento potenciais ainda menores. A agenda microeconômica do governo é percebida como um bom início, mas até que a economia comece, de fato, a crescer, vai ser difícil afastar por completo um certo ceticismo em relação às possibilidades de concretização do “futuro” a que me referi no início.

As correntes investigações sobre corrupção causam espanto pela extensão dos problemas em nosso tecido econômico, mas são vistas como dores do crescimento, que refletem o amadurecimento da sociedade civil e, ponto caro aos investidores estrangeiros (e também locais), a independência dos poderes. Há alguns, contudo, que parecem temer um dano mais generalizado à imagem das empresas brasileiras.

Em linhas gerais, a despeito do noticiário por vezes negativo, há uma sensação positiva quanto ao país e seus ativos derivada da sincronia entre condições externas tidas como bem favoráveis e políticas econômicas domésticas mais racionais. Mas há também bastante cautela quanto a extrapolações indevidas a partir da conjuntura.

O curto prazo pode ser benigno, caso as reformas caminhem a contento, mas a economia política do país, com uma cultura que parece ser avessa a atribuir resultados ao esforço individual, dando peso excessivo aos poderes e deveres do Estado, não parece ainda, aos olhos dos investidores, reunir as características necessárias para um salto adiante. Para os investidores, vale surfar eventuais ondas, mas o futuro que o Brasil promete ainda vai tardar a chegar, enquanto este não se libertar do vício em incentivos, bolsas e subsídios, às custas do erário, que permeia nossa sociedade.