Que país é esse?

Associado: Naércio Aquino Menezes Filho
Valor Econômico
25/04/2017
As opiniões aqui expressas são as do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Após um breve período de crescimento nos anos 2000, estamos passando por uma das piores crises da nossa história. A taxa de desemprego continua aumentando, escândalos de corrupção abundam com detalhes impressionantes, o gasto público também aumenta sem parar, a nossa produtividade é a mesma de 1980, a qualidade da educação ao fim do ciclo básico está estagnada, a gestão das nossas empresas industriais é muita atrasada e as cadeias estão superlotadas com jovens aprendendo a roubar cada vez mais. Onde foi que erramos?

O Brasil perdeu seu dinamismo nos anos 80. Desde então perdemos as condições de crescer de forma sustentada. A queda da inflação com o Plano Real nos anos 90 não foi suficiente para deslanchar um período de crescimento econômico com inovações e aumento de produtividade. O crescimento nos anos 2000 foi uma exceção à regra. Dado que não conseguimos crescer com aumento de inovações e produtividade, a saída nesse período foi crescer com base em setores intensivos em mão de obra não qualificada, como comércio e serviços pessoais, empregando os trabalhadores que tinham ficado desempregados pelo ciclo econômico anterior.

O forte aumento no valor do salário mínimo nos anos 2000 provocou um aumento do consumo dos trabalhadores menos qualificados e um círculo virtuoso para esses trabalhadores. Eles passaram a consumir mais produtos que empregam eles mesmos, tais como alimentação fora de casa, cabeleireiros e festas de crianças. Ao mesmo tempo, a transição demográfica diminuiu o número de jovens no Brasil, que passaram a ficar mais tempo na escola, chegando ao ensino médio. Assim, o próprio mercado de trabalho sancionou os aumentos do salário mínimo.

Mas como não houve aumento de produtividade, o crescimento dos salários nos setores de comércio e serviços foi repassado para os preços, o que provocou inflação persistente nesses setores, que só declinou agora, com a brutal recessão por que estamos passando. Esse processo inflacionário, aliado aos erros de política econômica do governo Dilma e à Operação Lava-Jato, paralisaram o país.

Desta forma, a não ser que tenhamos mais um choque que aumente a demanda por trabalhadores não qualificados, será muito difícil crescermos de forma sustentada no longo prazo. Isso ocorre por quatro razões: não investimos adequadamente nas nossas crianças; falta dinamismo para boa parte dos nossos empresários; as corporações no setor público resistem a todas as mudanças e não temos políticos para liderar o país.

Vale notar que esses problemas existem há muito tempo, não é algo que ocorreu somente a partir do segundo mandato do governo Lula. Os erros de política econômica no período recente somente agravaram a situação.

Uma das únicas notícias recentes boas é que a Operação Lava-Jato deverá diminuir a corrupção no país, provocando uma mudança institucional relevante, na medida em que políticos e grandes empresários ficarão com mais receio de roubar o contribuinte. Isso é condição necessária para o crescimento, mas não suficiente.

Todos os anos o país perde milhares de jovens para a informalidade e a criminalidade. Nós devíamos estar investindo muito mais em programas como o Bolsa Família, Saúde da Família e Criança Feliz. Vários estudos mostram que cada real investido no desenvolvimento infantil poupa vários reais no futuro com pagamento de seguro desemprego, construção de cadeias, programas de qualificação profissional e despesas com saúde. Para possibilitarmos esse investimento teríamos que aumentar a eficiência da gestão pública e aumentar impostos para as camadas mais privilegiadas da população.

Entretanto, a PEC do teto, aliada à resistência de setores corporativistas do funcionalismo público a reformas que aumentem a equidade, como a da previdência, fará com que sobre cada vez menos recursos para serem aplicados no desenvolvimento infantil.

Além disso, o lobby do setor empresarial faz com que o país continue fechado ao comércio internacional e longe dos grandes acordos de livre comércio. Isso tem implicações importantes, pois um dos fatores que mais aumenta a produtividade das empresas é o acesso a insumos importados de alta qualidade. Entretanto, ao invés de investir em P&D, grande parte dos nossos empresários industriais importa produtos prontos da China para revender por aqui. A China é responsável por um quarto de todas as exportações de produtos manufaturados no mundo.

Uma boa reforma trabalhista é necessária, mas não será suficiente para aumentar a produtividade. Só a competição provocada por forte abertura comercial faria com que melhores práticas gerenciais fossem implementadas, que empresas ineficientes fossem eliminadas e que novas ideias prosperassem. Mas quem tem coragem de abrir a economia ou aumentar impostos sobre os mais ricos?

Em suma, pode ser que cresçamos um pouco nos próximos anos, empregando os trabalhadores que ficaram desempregados no ciclo atual, mas isso vai durar pouco. Quem quer que vá nos conduzir a partir de 2019 precisará aliar ajuste fiscal, opção pelo social e busca por eficiência nos setores público e privado. Equilíbrio fiscal é pré-condição para crescimento de longo prazo e deve ser perseguido com afinco no governo federal, estados e municípios. Mas também é essencial investir mais nas nossas crianças e jovens, mesmo às custas de aumentos de impostos. Por fim, temos que vencer o corporativismo e a ineficiência que prevalecem em grande parte do nosso funcionalismo público e também no setor privado. E precisamos de algum político limpo para liderar todo esse processo. Não será fácil.