Valor Econômico


A crise atual está tendo efeitos sociais importantes. A taxa de desemprego atingiu mais de 12% esse ano, deixando mais de 12 milhões de pessoas sem emprego. Como essa crise se compara com períodos de baixo crescimento no passado recente? O que há de diferente no comportamento do mercado de trabalho hoje em dia? Quais são as perspectivas para o futuro próximo?

O período compreendido entre 1996 e 2003 pode servir de comparação para o que vem pela frente, apesar da situação atual ser bem pior do que naquela época. Naquele período de sete anos o país ficou estagnado em termos de bem-estar, já que o PIB per capita em 2003 foi praticamente igual ao de 1996. Também houve queda de salários e aumento de desemprego.

É claro que hoje em dia a situação é bem pior. Houve queda brutal do PIB em 2015 e 2016 e o PIB per capita em 2016 foi quase 10% menor do que em 2013. Supondo um crescimento próximo a zero em 2017, o PIB terá que crescer 2% ao ano até 2025 para que o PIB per capita retorne ao nível de 2013. Esse é o tamanho do estrago que foi feito pelas políticas econômicas equivocadas (nova matriz econômica) do governo Dilma.

Porém, examinar com atenção o desempenho do mercado de trabalho no período de baixo crescimento anterior pode nos dar dicas sobre o que pode acontecer no mercado de trabalho no futuro próximo. As figuras abaixo, por exemplo, comparam o comportamento da taxa de desemprego e do salário médio nos dois períodos, usando dados da Pnad tradicional e da Pnad continua (adaptada para ficar mais comparável com a Pnad tradicional), sempre no 3º trimestre de cada ano.

Os dados mostram que no período de baixo crescimento anterior a taxa de desemprego subiu rapidamente, mesmo antes do início da recessão, atingindo 10% em 1999 e permanecendo num nível muito elevado até 2003. O ponto importante a ressaltar aqui é que, apesar da economia ter crescido bastante em 2000 e novamente em 2002, a taxa de desemprego não se reduziu naquela época, tendo permanecido elevada até 2005. Na crise atual, o desemprego começa a se elevar em 2015, ultrapassa rapidamente a taxa alcançada na recessão anterior e não dá sinais de estabilização. Assim, a tese de que a taxa de desemprego começará a diminuir já no curto prazo parece bastante otimista. Vale notar que o desemprego ao longo do ciclo está mais relacionado com o comportamento das taxas de admissões do que com as demissões.

Já o comportamento do salário médio foi bastante diferente na crise atual. Na figura o salário nos dois períodos está normalizado para ser igual ao 100 no início da recessão. Podemos notar que no período anterior o salário declinou 8% no início da recessão, permaneceu estagnado por 3 anos e caiu novamente 6% entre 2001 e 2003. Já na crise atual, o salário caiu apenas 2% nos dois anos após o início da crise, mesmo com uma queda de 7,4% no PIB. Além disso, os dados mais recentes mostram que o salário médio tem se estabilizado nos últimos trimestres.

Em termos de bem-estar, o salário domiciliar per capita (que leva em conta o salário e o desemprego de todos os membros do domicílio) tem caído menos nessa crise do que na anterior, mesmo levando em conta o forte aumento do desemprego. Isso ocorre porque a maior parte dos novos desempregados são jovens, que contribuem menos para a renda familiar. Além disso, o programa Bolsa-Família e as aposentadorias atreladas ao salário mínimo arrefecem os efeitos da crise. Vale notar que os lucros devem ter sido bem mais afetados pela crise atual, uma vez que a renda per capita do país caiu 9% nos últimos dois anos e os salários caíram bem menos.

Outro ponto importante da crise atual é que ela está afetando particularmente os domicílios chefiados pelos mais jovens, o que pode ter impacto importante na criminalidade futura. Estudo recente mostra que jovens que se formam em períodos recessivos tem uma probabilidade maior de seguirem uma carreira criminosa no futuro, tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos¹.

Em suma, a crise atual é bem mais severa do que as anteriores e tem afetado bem mais o desemprego do que os salários. Tendo em vista o que aconteceu no período anterior de baixo crescimento, em que o desemprego permaneceu elevado por muito tempo após o início da recessão, mesmo após pequenos surtos de crescimento, parece que a taxa de desemprego pode demorar bastante ainda para começar a declinar.

1- “Crime scars: recessions and the making of career criminals” (Bell, Bindler and Machin).

As opiniões aqui expressas são as do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.