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Conversa com um leitor sobre juros

Folha

Na semana passada, argumentei que o excesso de crescimento do gasto primário sobre o crescimento da economia tem estado associado aos juros. Se esse excesso aumenta, os juros também se elevam. Quando isso não ocorreu, entre 2012 e 2014, a coisa não correu bem.

A relação de juros com a política fiscal é desconfortável, pois envolve todos nós. Para reduzir os juros, temos de diminuir a taxa de crescimento do salário mínimo, dos pisos constitucionais em saúde e educação, e assim sucessivamente. Toda a sociedade é responsável pelos juros elevados.

O leitor João Vergílio Gallerani Cuter fez o seguinte comentário:

“Vocês são economistas, vocês se entendam. Aqui da minha poltrona, só posso achar que uma teoria que tem como consequência recomendar à autoridade monetária que leve os juros básicos da economia de meu país para 10% não pode estar correta. Eu preferiria uma explicação mostrando que, em alguma medida, há uma extorsão praticada pelo mercado. Ou me paga isso, ou corro para o dólar, ou saio do país. O Banco Central aplica a fórmula (a teoria) que o mercado impõe como condição para ficar”.

O raciocínio não é absurdo e, até onde entendo, o ministro Fernando Haddad já argumentou nessa direção. Adicionalmente, gera algum conforto, pois localiza em um grupo bem menor de pessoas a responsabilidade pelos juros elevados. No entanto, há várias dificuldades com esse raciocínio.

Primeiro, se fosse verdade que um mecanismo de chantagem e, evidentemente, de coordenação entre os poupadores mantivesse os juros em níveis artificialmente elevados, deveríamos observar recessão econômica e forte elevação da taxa de desemprego.

Segundo, há um número muito elevado de poupadores que aplicam suas poupanças financeiras em países emergentes, além dos próprios poupadores brasileiros, que podem também aplicar seus recursos fora do Brasil. Não há nenhum mecanismo de coordenação entre essas centenas de milhares de investidores.

É verdade que em países emergentes, e, especialmente no Brasil, os juros são tão elevados que um investidor que se endivida em dólar para aplicar recursos por aqui em reais quase sempre ganha quando transforma seus reais em dólares no final. Isto é, o diferencial de juros por aqui na média mais do que compensa a desvalorização do câmbio que ocorre no período. No entanto, há uma percepção de risco —que está associada à percepção de que pode haver uma desvalorização súbita e abrupta do câmbio— que impede que mais recursos entrem. Tudo sugere que a melhora fiscal é a condição para que essa percepção de risco melhore.

Em recente entrevista na CNN, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, argumentou que a surpresa inflacionária recente se deve à guerra no Irã. Não é verdade que toda a revisão para maior que houve na previsão de inflação para 2026 seja consequência da guerra. No início do ano, eu pensava que a inflação seria em 2026 de 4,1%; hoje, penso que será de 4,9%. Da revisão de 0,8 ponto percentual, 0,5 ponto deve-se à guerra e 0,3 ponto à maior inflação de serviços.

Ocorre que um extenso pacote de medidas fiscais e parafiscais —diversas delas não esperadas no início do ano— adicionou R$ 140 bilhões à demanda agregada em 2026 em comparação ao ano passado. A surpresa para maior na atividade econômica, a partir de uma situação de pleno emprego, explica o 0,3 ponto percentual a mais de revisão da inflação que não se deveu à guerra. O espaço para redução da Selic neste ano é menor do que se imaginava.

Terceiro, há inúmeros outros países com conta de capital aberta que recebem investimentos de residentes e não residentes. Por que os investidores somente chantageiam o Tesouro do Brasil, não o dos demais países?

É verdade que em países emergentes, e, especialmente no Brasil, os juros são tão elevados que um investidor que se endivida em dólar para aplicar recursos por aqui em reais quase sempre ganha quando transforma seus reais em dólares no final. Isto é, o diferencial de juros por aqui na média mais do que compensa a desvalorização do câmbio que ocorre no período. No entanto, há uma percepção de risco —que está associada à percepção de que pode haver uma desvalorização súbita e abrupta do câmbio— que impede que mais recursos entrem. Tudo sugere que a melhora fiscal é a condição para que essa percepção de risco melhore.

Em recente entrevista na CNN, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, argumentou que a surpresa inflacionária recente se deve à guerra no Irã. Não é verdade que toda a revisão para maior que houve na previsão de inflação para 2026 seja consequência da guerra. No início do ano, eu pensava que a inflação seria em 2026 de 4,1%; hoje, penso que será de 4,9%. Da revisão de 0,8 ponto percentual, 0,5 ponto deve-se à guerra e 0,3 ponto à maior inflação de serviços.

Ocorre que um extenso pacote de medidas fiscais e parafiscais —diversas delas não esperadas no início do ano— adicionou R$ 140 bilhões à demanda agregada em 2026 em comparação ao ano passado. A surpresa para maior na atividade econômica, a partir de uma situação de pleno emprego, explica o 0,3 ponto percentual a mais de revisão da inflação que não se deveu à guerra. O espaço para redução da Selic neste ano é menor do que se imaginava.

Link da publicação: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/samuelpessoa/2026/05/conversa-com-um-leitor-sobre-juros.shtml

As opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Sobre o autor

Samuel Pessôa