Uma comparação das mortes por covid-19 no Brasil e nos EUA com países europeus mostra a diferença que faz ter governos confiáveis e líderes capazes

Nos países com governos confiáveis, que oferecem serviços públicos de boa qualidade, e cujos líderes foram capazes de se comunicar bem e mostrar os caminhos a serem trilhados durante o enfrentamento da pandemia, ocorreu menor número de mortes e as economias voltaram a funcionar mais rapidamente. Países com governos disfuncionais, sociedades polarizadas e lideranças fracas deixaram seus cidadãos e economias vulneráveis. É dessa forma que Francis Fukuyama explica resultados tão divergentes no enfrentamento da pandemia. A análise das diferenças entre o que ocorreu nos países mais afetados pelo novo coronavírus na Europa continental — Itália, França, Espanha e Alemanha — com relação aos mais afetados nas Américas — Estados Unidos e Brasil — confirma e ilustra a proposição de Fukuyama.

Na Europa continental, o surto epidêmico foi contido, e as regras de distanciamento social vêm sendo progressivamente aliviadas, amparadas por amplos programas de testagem e rastreamento, que identificam e isolam novos focos de contágio. Os resultados são eloquentes, mesmo quando olhamos para os países mais afetados: a média diária de mortes pela covid-19 em 14 de julho está em torno de 22 e 12 na França e Itália, respectivamente, perto de quatro na Alemanha, e abaixo de duas pessoas na Espanha (dados de 13 de julho). O total acumulado de mortes atingiu 35 mil na Itália, 30 mil na França, 28 mil na Espanha, 9 mil na Alemanha.

Já nas Américas, onde o novo coronavírus chegou depois, a situação é muito diferente. Desde o fim de maio, o Brasil lidera o número de mortes diárias pela covid-19 no mundo, com a média móvel de sete dias oscilando em torno de 1.000 mortes, ainda sem sinais de desaceleração. Mais de 70 mil vidas já foram perdidas desde o início da pandemia, podendo chegar a 90 mil no fim do mês, conforme projeções do Covid19Analytics. São números inferiores apenas aos observados nos Estados Unidos, que somam perto de 130 mil mortes. Lá, a curva de novas mortes diárias atingiu o pico no meio de abril (2,1 mil), com o mínimo tendo ocorrido no início de julho (490), a partir de quando voltou a subir, registrando nos últimos dias 680 mortes diárias. A ajuda fiscal de US$ 2,4 trilhões, e a extraordinária injeção de recursos através do Federal Reserve (banco central dos EUA) atestam que só dinheiro não é suficiente para controlar o contágio e o número de mortes numa pandemia.

Um exercício contrafactual ajuda a entender as diferenças entre o que ocorreu dos dois lados do Atlântico. De acordo com os cálculos e o gráfico acima, feitos por Marcelo Gazzano, a quem agradeço, observamos que, se a curva de mortes no Brasil tivesse seguido exatamente o padrão médio dos países europeus analisados (linha verde), contabilizaríamos, ao fim do ciclo de contágio, 25 mil mortes, ou seja, teríamos ao todo apenas um terço das mortes ocorridas até agora, e que sabemos que vão aumentar. Caso o pico da nossa curva tivesse ocorrido quando as mortes chegaram a 1.000 por dia, seguindo daí em diante a desaceleração observada nos países europeus (linha laranja) chegaríamos a um total de 55 mil mortes ao final do ciclo, ou seja, 25% a menos do que os 73 mil já atingidos, quando nossa curva ainda nem se desacelerou. Ao contrário, há sinais de que esse nosso anômalo platô (linha azul), gerado pela sobreposição de diferentes padrões de contágio e mortes observadas nas diversas regiões, pode persistir e a desaceleração pode ser lenta. Afinal, estamos há dois meses sem ministro da Saúde, e desde a saída de Luiz Henrique Mandetta, há três meses, não há nada que sequer se assemelhe a um plano para enfrentar a pandemia no país. Os resultados desses exercícios advertem que a nossa história e a dos Estados Unidos poderiam ter sido diferentes, muitas vidas poderiam ter sido poupadas se tivéssemos nos governos líderes preocupados com o bem comum.

Apontadas as consequências, vale olhar rapidamente para as diferenças observadas na maneira como um mesmo vírus foi enfrentado nos dois lados do Atlântico. Nos países europeus mencionados acima, e em muitos outros, os governos ouviram aos cientistas e rapidamente traçaram planos de distanciamento social para poupar vidas, ao lado de programas econômicos de suporte aos mais afetados, tanto empresas quanto pessoas. As autoridades nacionais e regionais assumiram o risco e lideraram o processo, de maneira coordenada, mantendo contato frequente com os cidadãos, compartilhando as informações sobre o andamento da crise, motivando a união de todos para superar o enorme desafio. As pessoas ficaram confinadas em casa, não puderam sair das suas cidades durante várias semanas, em um lockdown rigidamente controlado e com violações punidas. Assim foi feito, erros foram cometidos, reclamações e protestos ocorreram, mas o pior da crise foi superado, fortalecendo os laços de cooperação entre as pessoas e países, como costuma ocorrer após grandes tragédias.

Lamentavelmente, o novo coronavírus foi recebido com profundo desprezo por Donald Trump e Jair Bolsonaro, presidentes dos países que hoje exibem o pior desempenho no seu enfrentamento. Ambos populistas, despreparados e desprovidos de espírito público, pouco apreço tem pelas vidas humanas fora dos seus círculos familiares. Politizaram a pandemia, confundiram, dividiram e desorientaram as pessoas, espalhando rancor, desesperança e mortes.

Tal reação segue um longo histórico de ações que refletem as suas percepções autocráticas de governo. Em vez de se preocuparem em reduzir desigualdades e construir sociedades mais justas, inclusivas e generosas, armam as populações, brincando de perigosos jogos de guerra, incitando as pessoas à violência, à mentira e ao egoísmo. Para eles, mais importante do que a vida é ter sucesso a qualquer preço, o lema que leva à prosperidade é “não confie em ninguém”. Nada mais distante dos valores que alimentam uma democracia, como o respeito à vida, à liberdade, à honestidade, à justiça, à solidariedade. A experiência com a pandemia vem mostrando o custo desse pesadelo em que estamos metidos.

Os Estados Unidos têm a chance de corrigir esse lúgubre rumo que Trump impôs ao país nas eleições de novembro. Corremos um risco maior por aqui, caso Bolsonaro termine seu mandato. Depois da sua manifesta falta de apreço pelas vidas humanas desnecessariamente perdidas durante a pandemia, o que mais podemos esperar nos dois anos e meio que ainda lhe restam de mandato?

Fonte: Nexo Jornal

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