Ex-diretor do BC diz que intervenção cambial é correta para conter volatilidade com origem fiscal

O ex-diretor do Banco Central Luiz Fernando Figueiredo, sócio da Mauá Capital, diz que a autoridade monetária deve intervir no mercado de câmbio com vistas ao interesse do país, e não de investidores que perdem dinheiro com a suavização da oscilação da cotação do dólar.

“Sempre tem quem perde no mercado. Por que o BC tem que se preocupar com o cara que comprou bolsa e comprou câmbio?”, questiona. “Ele não tem que se preocupar com isso, ele tem que se preocupar com o país.”

Nos últimos dias, cresceram as queixas em setores do mercado com a presença mais forte do BC no mercado de câmbio, com a venda de US$ 5 bilhões em moeda estrangeira. As críticas são vocais, em particular, entre os gestores que investiram em bolsa e compraram dólar para se proteger – mas não estão se beneficiando plenamente dessa proteção devido à atuação do BC.

“O cara acha que pode fazer um negócio infalível? O mundo real não é infalível. A verdade é que os bancos centrais do mundo, desde 2008, têm uma postura de intervenção gigante, nunca imaginável”, afirma Figueiredo, que comandou as mesas de câmbio e juros do BC no começo do século, quando o país foi sacudido por uma série de crises.

“O mercado quer o purismo até que se machuque, aí ele quer uma boia. Não tem essa.” Para ele, a atuação do BC no câmbio pode até ter afetado o mercado de juros, mas de longe o fator principal é a incerteza fiscal.

Que juro reduziria a volatilidade no câmbio? 15%? Achar que o juro 1 ponto mais alto fará diferença é uma loucura”

Ele também discorda da tese, defendida em setores do mercado financeiro, de que a atuação do BC está mascarando a mensagem de desagrado que os preços de ativos dão para parlamentares e governo. “Olha o que aconteceu na taxa de câmbio. Nossa taxa de câmbio é o lixo do mundo. Nossa bolsa, curva de juros, tudo”, sustenta. Figueiredo argumenta, ainda, que não é o juro baixo que está colocando pressão no dólar, mas sim o quadro fiscal. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Valor: Qual é a sua visão sobre a atuação do BC nos mercados?

Luiz Fernando Figueiredo: O BC está sendo mais firme, enfático. Minha visão é que, para o BC, existe um enorme exagero nos mercados. Por isso ele está mais pesado no câmbio. Todo mundo fala: ‘ele tem um teto para a taxa de câmbio’. Todas as vezes que as pessoas falaram isso, erraram, e vão errar de novo. Nunca vai se tratar disso. O câmbio é flutuante e ponto. Mas o Banco Central está atuando. E tem a ver com a situação nesta semana, que é decisiva para o fiscal. É razoável ter uma atuação mais forte.

Valor: A intervenção se justificaria para conter a volatilidade?

Figueiredo: Sem dúvida. Porque, às vezes, a situação exige. Risco é uma situação que você consegue medir, incerteza não consegue. Como você está diante da situação em que o Congresso pode passar algo bom ou ruim, é uma situação de incerteza. Como você precifica isso? É difícil. Por isso tem, às vezes, que vir o regulador e segurar mesmo. Não o preço, mas essa volatilidade.

Valor: Tem muitos gestores de fundos que compraram dólar para proteger posições em bolsa, e agora reclamam que o BC segura o dólar. Isso não é uma distorção de preços e do mercado?

Figueiredo: Mas isso é problema do mercado. Sempre tem quem perde no mercado. Por que o BC tem que se preocupar com o cara que comprou bolsa e comprou câmbio? Ele não tem que se preocupar com isso, ele tem que se preocupar com o país. O câmbio é um preço importante para o país. O BC não está querendo controlar, está querendo reduzir a volatilidade. São reclamações de quem está perdendo dinheiro. O cara acha que pode fazer um negócio infalível? O mundo real não é infalível. A verdade é que os BCs do mundo, desde 2008, têm uma postura de intervenção gigante, nunca imaginável. Na minha época no BC, se a gente fizesse 10% do que os bancos centrais fazem, iriam surtar. É uma loucura, impensável, sandice. O nosso BC, na verdade, é um dos menos intervencionistas.

Valor: Mas existe o argumento no mercado de que o BC, quando age no câmbio, empurra os fundos a buscar proteção no mercado de juro. Isso não eleva a curva e, no final, poderá forçar o BC a fazer um aperto monetário mais forte?

Figueiredo: Minha humilde opinião: bobagem. Isso é conversa mole. Não existe país do mundo em que o BC não intervenha. Não existe esse purismo. O mercado quer o purismo até que se machuque, aí ele quer uma boia. Não tem essa. O BC tem que atuar na hora que ele achar que tem que atuar. O cara que está no mercado assume o risco, inclusive o risco de o BC atuar.

Valor: Mas e o efeito que isso provoca na curva de juro?

Figueiredo: Essa curva está apertando as condições financeiras. Está tornando a política monetária mais contracionista. Isso é o que está acontecendo. Quando o câmbio deprecia assim, você tem o choque de oferta, acho que é uma resposta natural. O câmbio a R$ 5,70 ou R$ 5,65, como assim não está refletindo a realidade? Desculpe, na minha humilde opinião, o cara que diz isso é um doido. Não tem essa de deixar ocorrer qualquer preço, que pode subir mais. É um preço que já foi, já subiu, tem todo o prêmio de risco e mais um pouco. O BC está lotado de reservas internacionais. Acho que, nesse preço, faz bem de vender. Não faz mal. Tem reserva excessiva.

Valor: Mas e o impacto no juro?

Figueiredo: Quando tem essa pressão fiscal, vai para todos os mercados. O câmbio está indo muito para cima. A curva de juros, absurdamente para cima, também. E a bolsa, caindo. Os ativos de risco no Brasil estão sofrendo. Por quê? Por conta do risco fiscal. Claro que vaza, se o BC vende o câmbio, vaza para o DI. Naturalmente. Isso é mercado, faz parte. Eu até acho que a curva DI está muito acima do que deveria estar. Mas quem sou eu para achar qualquer coisa? Acho que está muito fora. É o prêmio de risco que o mercado está colocando neste momento.

Valor: Tem gente que defende que o BC deixe o dólar subir para não esconder a insatisfação do mercado com os rumos que Congresso e governo estão tomando.

Figueiredo: Olha o que aconteceu na taxa de câmbio. Nossa taxa de câmbio é o lixo do mundo. Nossa bolsa, curva de juros, tudo. Não acho que precisa ser na plenitude, senão o mundo político não sente. Isso é conversa de quem está revoltado porque tem uma posição que achou que estava bem protegida com o câmbio. Todo banco central do mundo intervém. De um jeito ou de outro. Tem bancos centrais mais intervencionistas. Essa história de purismo é conversa mole. Infelizmente, tem um aspecto megarrelevante, um dado da realidade, os mercados antes refletiam as incertezas. Toda vez que tinha um risco maior, o mercado ia lá e colocava nos preços. Só que, desde 2008, os bancos centrais mudaram muito a atuação. Ficaram com uma atuação muito mais forte. Muito mais abrangente. Os mercados não são termômetro mais, são apenas parcialmente.

Valor: Muita gente no mercado argumenta que o câmbio dispara porque os juros estão muito baixos. Faz sentido?

Figueiredo: Acho esse argumento muito errado. Que juro reduziria a volatilidade no câmbio? De 10%? 15%? Quando você vê a volatilidade do câmbio, achar que o juro 0,5 ponto percentual ou 1 ponto mais alto vai fazer qualquer diferença é uma loucura. O câmbio oscila 1,5% por dia. É fiscal, é fiscal, é fiscal, é fiscal. Cem vezes fiscal. Tem que atuar na origem do problema.

Valor: O que conta mais na pressão do dólar, fatores domésticos ou externos?

Figueiredo: É a questão fiscal. O Brasil é o país mais endividado do mundo emergente, com déficit crônico e que ainda anda falando que vai gastar mais. Os ativos brasileiros estão ficando barbaramente para trás em relação ao mundo inteiro. O que acontece com a bolsa, a curva de juros, o câmbio, é dramático. É um país que tem se mostrado muito irresponsável do ponto de vista fiscal. Não há muita crítica em relação ao que foi feito em termos de gastos na emergência da pandemia, embora até gastou um pouco mais que deveria. Agora, fica flertando com gastar mais, um país com dívida de 90% do Produto Interno Bruto (PIB). O Brasil teima em flertar com o precipício.

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