NEXO

Embora o medo cumpra importante papel na evolução da espécie humana, indicando perigos potenciais à vida, por ser primitivo, ele facilmente extrapola sua função básica. Nesse caso, o medo bloqueia decisões racionais, envenena a esperança e impede a cooperação construtiva visando um futuro melhor, conforme bem descreve Martha Nussbaum em seu livro “The Monarchy of Fear” (2018). O medo nos leva a atitudes egoístas, negligentes e antissociais. Mais do que outras emoções, ele precisa de vigilância e inteligência para não se tornar tóxico. Se já era um grande desafio dominar nossos medos em condições normais, em meio a uma epidemia descontrolada, como a que nos aflige, vira uma tarefa hercúlea. Mas é a saída que nos resta, pois é preciso sobreviver e ajudar quem estiver em situação mais difícil que a nossa. A primeira providência é identificar os riscos presentes e lidar com eles. Só por ignorância ou má fé alguém pode negar o risco à vida imposto pela covid-19 e suas variantes. Chegamos a 300 mil mortes, e não são descabidas as estimativas de que atingiremos meio milhão dentro de poucos meses. A sincronização dos ciclos da epidemia em quase todas as regiões do país, com tendência de crescimento do contágio e mortes na maioria dos estados, está esgotando rapidamente a capacidade hospitalar. Há escassez de leitos, de suprimentos indispensáveis ao tratamento dos infectados, como oxigênio e demais medicamentos. Pessoas morrem à espera de vagas, e a dinâmica do ciclo indica que a situação tende a piorar no curto prazo. Um pesadelo que parece não ter fim. A ciência, o bom senso e a experiência internacional preconizam a adoção de uma estratégia nacional de enfrentamento da epidemia, priorizando rapidez na vacinação do maior número de pessoas, e critérios claros — como o índice de contágio e ocupação de leitos de UTIs — para a adoção de lockdowns nas diversas regiões. No entanto, o atual presidente da República prefere não acreditar na gravidade do quadro. O conflito de competências entre o governo federal e os estados, e a politização das disputas, dificultam a solução dos problemas. Vidas deixam de ser salvas e sofre a população que, desassistida e desamparada, não tem a quem recorrer, e fica com medo.Depois da esperança trazida pelo desenvolvimento de vacinas eficazes, a realidade da imprevidência do governo se impôs e, apesar da capacidade do sistema de saúde, não há vacinas para serem aplicadas com a rapidez necessária. Seguindo o ritmo atual, só no meio de 2022 conseguiremos vacinar toda a população. Enquanto isso, só resta o distanciamento social e a assistência aos mais vulneráveis para a penosa travessia. Nessas circunstâncias o país se transforma no ambiente ideal à evolução de novas cepas do vírus, capazes de despistar as vacinas atuais, tornando-as inócuas ou menos eficazes. Um quadro desalentador. Mas não é só do Executivo que vêm notícias ruins. Talvez embalados pela visão de que a situação do país “é até confortável”, como diz o líder do governo no Congresso ao comentar a quantidade de vacinados e o número de mortes por milhão de habitantes no Brasil, os parlamentares usam seu tempo para discutir a criação de mais um perdão de dívidas tributárias — mais um inaceitável e injusto Refis (Programa de Recuperação Fiscal). Ou, então, se preocupam em destruir os avanços na identificação e punição de crimes de corrupção, beneficiando os ocupantes dos três Poderes. Trabalham para abrandar a prestação de contas dos partidos, para trazer de volta as coligações, perenizando a hiperfragmentação partidária existente no país. Também pretendem afrouxar a Lei de Improbidade Administrativa, a Lei de Ficha Limpa, entre outros despudores. Defendem seus interesses, como se não houvesse amanhã, e pouco se ocupam com soluções para os problemas da população. Já as Cortes superiores não param de surpreender, com malabarismos e piruetas inconcebíveis, ora beneficiando parentes e amigos do poder, ora destruindo reputações dos que se dedicaram a desvendar e punir a corrupção. Livre das pressões das ruas, Brasília se dedica a cultivar e ampliar seus privilégios. Dificilmente esses descalabros ocorreriam se não houvesse o “apagão cívico”, uma espécie de torpor coletivo, que estamos vivendo. Com a esperança envenenada pelo medo, a sensação de impotência gerada pelo necessário isolamento social impede que as pessoas se lembrem de que só a união pode enfrentar e resolver um problema coletivo. Exemplos não faltam. Não fosse a persistência da sociedade com o movimento das “Diretas Já”, o sofrimento imposto pela ditadura militar teria se estendido por muito mais tempo. Nem a frustrante derrota da Emenda Dante de Oliveira desmobilizou as pessoas, e a longa noite da ditadura enfim terminou. Sem a pressão social não teria havido o impeachment de Collor, e nem o de Dilma. Os movimentos de 2013 deixaram claro que o descontentamento, sobretudo entre os jovens, era enorme, abrangendo a qualidade dos serviços públicos, o crescimento da corrupção, a tentativa de limitar o poder do Ministério Público (PEC 37), entre outros. A partir de então a sociedade conquistou mais voz, por meio tanto das redes sociais como de manifestações nas ruas, interferindo nas decisões mais importantes para o país. As pessoas não poderão se reunir nas praças e avenidas antes que a pandemia esteja sob controle, e esse silêncio tem sido festejado por todos os que estão se beneficiando da aprovação de pautas indefensáveis à luz do dia e das ruas. Assim, ao lado do risco da covid, tal estado de apatia, que alguns se esforçam para prolongar até a eleição, é o segundo grande risco que enfrentamos. No lugar das manifestações nas ruas, precisamos unir esforços para aliviar as agruras dos mais vulneráveis, sugerir soluções aos governantes, cobrá-los, apontar erros e tramoias. Não há liberdade e nem democracia sem que a sociedade seja forte, assertiva e mobilizada. Temos exemplos constantes de que constituições, com mecanismos de freios e contrapesos em pleno funcionamento, não dão conta do recado: o Estado precisa ser controlado e limitado pela mobilização da sociedade, como mostram Daron Acemoglu e James Robinson (“The Narrow Corridor”, 2019). Regimes autoritários se baseiam no medo, enquanto as democracias dependem da existência de confiança entre as pessoas, e da esperança por um futuro melhor. A saída está nas mãos da sociedade civil.

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