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Jurista critica a nova Lei de Licitações e afirma que municípios e até mesmo o governo federal poderão não cumprir as novas regras para contratações

A decisão do ministro Luís Roberto Barroso para que o Senado instale a CPI da pandemia foi uma “interferência normal” do Supremo Tribuna Federal (STF) e seguiu a Constituição, segundo o advogado Carlos Ari Sundfeld, professor da FGV Direito São Paulo e presidente da Sociedade Brasileira de Direito Público (SBDP). Ao participar ontem de “live” do Valor, Sundfeld afirmou que a CPI é um direito das minorias no parlamento e classificou as críticas do presidente Jair Bolsonaro ao ministro do STF como um “teatro”.

Veja a íntegra da entrevista ao vivo:

Ameaças de Bolsonaro são ‘teatro’ e não há risco de ruptura institucional, diz Sundfeld.

“A interferência de um Poder sobre o outro é o normal no Estado de Direito”, afirmou o professor. “Em relação a CPIs, já existe uma jurisprudência acertada no Supremo de que preenchidos os requisitos formais que estão na Constituição, tem que ser instalada e acabou.”

A Constituição determina que para a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito é preciso ter o apoio e assinatura de um terço dos parlamentares, a indicação do fato a ser apurado e o prazo da investigação. O pedido para a criação da CPI da pandemia cumpria esses requisitos, mas o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), aliado de Bolsonaro, não instalou a comissão. Depois da decisão do STF, o presidente da República atacou Barroso e disse que o magistrado estava fazendo “politicalha”. “Falta-lhe coragem moral e sobra-lhe imprópria militância política”, disse Bolsonaro, na semana passada.

Para Sundfeld, a reação do presidente faz parte de uma encenação. “Toda decisão judicial do Supremo que interfere em decisão política importante gera teatro. Dura pouco, mas é um teatro agressivo, no caso do presidente da República, que tem um estilo selvagem”, disse. “Há muito teatro, são reações, mas isso tem se repetido na nossa história.”

O professor afirmou que outras reações do presidente contra as instituições também fazem parte desse “teatro” e minimizou a possibilidade de uma grave crise institucional. Segundo Sundfeld, o governo Bolsonaro não tem força suficiente para romper o ambiente democrático no país. “A experiência tem mostrado que eles não têm força”, disse. O advogado afirmou ainda que as Forças Armadas, sobretudo o Exército, não estão envolvidas em movimentos para implementar um regime autoritário. “Muito pelo contrário, eles têm interesse em manter o ‘status quo’ porque estão se dando bem em termos de poder”, afirmou.

“O poder está muito dividido e é difícil imaginar que tenhamos alguma ruptura. Agora, como todo teatro muito selvagem, isso gera preocupações, estimula reações em defesa das instituições. Faz parte do jogo”, disse.

Durante a “live”, Sundfeld criticou a nova Lei de Licitações, sancionada no dia 1º, e disse que municípios e até mesmo o governo federal não conseguirão seguir as novas regras e procedimentos. Para o professor, a nova lei impede inovações e já nasceu defasada, com base em um modelo de licitação e de contratação pública da década de 1960. “A diferença é que a lei da década de 1960 era minimalista, com poucas regras, e a de agora é um monstro, com artigos longos, com 40 mil palavras.”

Na avaliação de Sundfeld, as novas regras são muito extensas porque atendem a diferentes interesses setoriais. “Quando se faz lei com muitas regras, parte delas para atender a lobbies (…), há risco de petrificar nessas regras um modelo que tem dado muito problema. Parte da administração pública está à margem disso”, afirmou Sundfeld. “Os municípios estão à margem, são incapazes de aplicar porque o modelo está irrealista. Deixamos à margem até parte a administração federal”, disse sobre a Lei 14.133/2021.

Questionado sobre a possibilidade de o setor privado comprar vacinas sem dividir os imunizantes com o SUS, Sundfeld disse que essa medida deverá aprofundar as desigualdades no país.

Sundfeld criticou a gestão do governo federal no combate à pandemia e afirmou que o presidente Bolsonaro não só não agiu para minimizar a crise sanitária, como boicotou ações dos governadores e prefeitos. “Não fez o que precisava e atrapalhou”, disse o advogado. “O presidente incentiva as pessoas se contaminarem para desmoralizar os governadores.”

Link da publicação: https://valor.globo.com/politica/noticia/2021/04/13/interferencia-de-um-poder-sobre-outro-e-o-normal.ghtml

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