Valor (publicado em 09/08/2021)

O apoio espontâneo de representantes da elite econômica que surgiu ao manifesto a favor das instituições e do sistema eleitoral brasileiros pode criar o espaço para que surja uma terceira via para as eleições, na visão da economista Eliana Cardoso, uma dos mais de 17 mil signatários do documento, organizado por um grupo de cerca de 30 economistas ligados ao Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP). “Precisamos de um nome de oposição ao Bolsonaro que não polarize a sociedade e que possa criar uma unidade a favor da democracia, da liberdade de imprensa, e de uma sociedade que respeite nossos valores republicanos”, afirma.

Com passagem pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial e Ministério da Fazenda, Eliana conta que o movimento pró-democracia que reuniu a elite econômica do país nos últimos dias é fruto do intenso debate entre integrantes do CDPP e da Casa das Garças – instituições irmãs, segundo ela, que se propõem a discutir políticas públicas – sobre o atual governo e de um crescente descontentamento com a condução do país durante a crise provocada pela pandemia. “Essa insatisfação já era muito grande há um ano, um ano e meio. Mas evidentemente que, desde a pandemia, o crescimento do desgoverno e dos horrores que o presidente tem cometido tem chamado a atenção do grupo”, afirma. “Num momento em que se percebeu que Bolsonaro representava de fato um ataque à democracia, alguém disse que chegou a hora de dizer basta, de falar sobre isso fora do grupo.”

A economista espera que o movimento encoraje o surgimento de um candidato que represente uma terceira via, e também uma aglutinação da oposição a Bolsonaro em torno desse nome. “Tem muitos candidatos bons, que oferecem seus nomes. E vários deles poderão estar dispostos a se unir e abrir mão de sua candidatura em nome do nome mais forte”, afirma. “Mas também espero que haja impeachment. Não perco a esperança”, diz Eliana Cardoso, para quem a inelegibilidade de Bolsonaro abriria espaço “para um processo eleitoral mais tranquilo.”

O economista Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor de Banco Central e sócio fundador da Mauá Capital, diz não acreditar que os ataques do presidente Jair Bolsonaro contra o Judiciário terão impacto efetivo sobre as instituições que, para ele, “são muito consolidadas no Brasil.” “Mas ele está flertando com o que não deve, e a sociedade civil não aceita isso”, diz. “Acho difícil que haja algum rompante autoritário concreto, de fechamento de Congresso ou algo equivalente, porque não há apoio de nenhuma entidade nem popularidade para isso. E nossas instituições são fortes – embora complicadas. Mas são excessos de retórica que precisam ser contidos”, diz.

Embora os signatários do manifesto ouvidos pelo Valor concordem que a política econômica do atual governo gera insatisfação, a economista Ana Carla Abrão, da consultoria Oliver Wylman, afirma que a motivação para este movimento é de outra natureza. “Definitivamente, o que nos uniu foi a defesa da democracia”, afirma. Para ela, a escalada das ameaças contra a democracia, principalmente contra a urna eletrônica, fez com que se “cruzasse uma linha” perigosa, o que tornou necessário que a sociedade se posicionasse mais efetivamente. “Acho que o estelionato da agenda econômica está claro já faz tempo, mas acredito que esse é um evento secundário.”

Para o economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central, o manifesto a favor das instituições democráticas pode ser comparado ao que se viu no Diretas Já, movimento que reuniu a sociedade a favor das eleições diretas, em 1983. “O que impressiona é como foi rápido o consenso em torno da necessidade da sociedade civil se colocar contra os ataques que o presidente da República está fazendo contra as instituições. E como foi rápida a adesão”, diz. “Ao defender o voto impresso e atacar o Judiciário, um dos poderes do país, o presidente está criando uma crise institucional, a sociedade civil tem que se manifestar”, afirma Pastore.

Outro signatário do manifesto, o economista José Roberto Mendonça de Barros, diz que “o Brasil já tem problemas suficientemente grandes” para ficar “estressado com questões laterais, que colocam em questão o centro da democracia”. Para Mendonça de Barros, que foi secretário de Política Econômica, o país enfrenta hoje um problema de estagnação financeira e precisa com urgência de instrumentos para lidar com os efeitos da maior crise sanitária das últimas décadas. “E a gente tem de tudo sendo discutido, menos formas de criar bases sólidas para o crescimento”, afirma. Esse debate colocado pelo presidente Bolsonaro sobre o sistema eleitoral, diz Mendonça de Barros, “é artificial”, uma vez que país conta com mecanismos modernos e sólidos.

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