6 Minutos (publicado em 08/09/2021)

A ideia de uma terceira via para as eleições de 2022, com um candidato que não seja o atual presidente Jair Bolsonaro nem o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, é um “sonho de uma noite de verão” em um cenário de polarização cada vez maior que, no ano que vem, tende a trazer ainda mais volatilidade à economia.

A avaliação, feita em entrevista ao 6 Minutos, é do economista Alexandre Schwarstman, ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central e que hoje comanda a consultoria Schwartsman & Associados.

“A alternativa é entre um governo que é incompetente, desinteressado e péssimo do ponto de vista de gestão, e outro que tem um projeto ruim”, aponta. “Na medida em que fica claro que a história de terceira via é um sonho de uma noite de verão, e é, para onde a gente vai correr? Vamos ver pressão grande em dólar, em inflação. Eu não chamaria mais de risco, mas de quase uma certeza”.

Para Schwarstman, fica claro que o atual governo não parece interessado em resolver os principais problemas da economia brasileira, como a falta de recursos para o pagamento de precatórios (dívidas da União que já esgotaram todos os recursos na Justiça) e a significativa perda de arrecadação com a aprovação da reforma do Imposto de Renda pela Câmara. “São emergências, que precisam ser resolvidas. Mas que estão em segundo plano”.

Leia abaixo a entrevista completa.

Qual a sua avaliação das manifestações do 7 de Setembro e o impacto sobre o mercado? O cenário continuará conturbado? 

Quanto ao cenário conturbado, é só razoável esperar mais. É difícil entender quais foram as intenções do presidente, porque acho que ele também não tem um entendimento muito claro. Se queria derrubar o STF [Supremo Tribunal Federal], certamente foi um fiasco, mas desconfio que o objeto era mais modesto. Ele quer manter a polarização, manter a base energizada, e acho que esses dois objetivos foram alcançados.

E quer isso porque do ponto de vista do futuro político, para ele é melhor assim. Quanto maior a polarização, mais difícil a emergência de uma terceira via, de alguém que pudesse ameaçar a presença dele no segundo turno. Não foi uma super manifestação que mostrou que a maioria do povo está com ele, mas é suficiente para sinalizar para o grupo de apoio dele, o Centrão, que ele é uma alternativa viável de poder, que vai continuar polarizando com o Lula.

Isso tem consequências. Do ponto de vista econômico, não estou nem falando de reformas, mas sim de resolver emergências. Precatórios, por exemplo. Como vai ser a solução para isso do ponto de vista do Orçamento? Ele não faz ideia. Como vai se tapar buraco que foi aberto com a aprovação pela Câmara da reforma do Imposto de Renda, que traz perda de arrecadação da ordem de R$ 30 bilhões no ano que vem?

Tem emergências que precisam ser resolvidas e que nesse momento vão ficar em segundo plano porque a preocupação é outra, porque não há clima para nenhuma votação racional acontecendo no Congresso.

Hoje, inclusive, o vice-presidente da Câmara inclusive disse que o ano legislativo acabou. Nossa economia segura mais um ano nessa situação? 

Precisa definir o que é segura. Vai ter que segurar. Não é por falta de agenda, porque temos uma agenda gigantesca. Mas não imagino nenhuma atividade parlamentar no sentido de endereçar problemas do país. Significa que a economia vai sofrer mais que sofreria se tivéssemos um mínimo de estabilidade. A gente viu hoje que a primeira reação foi: dólar subiu, Bolsa caiu. O dólar mais caro significa inflação mais alta, e isso quer dizer política monetária mais apertada, crescimento mais baixo. Aumenta o custo de capital para as empresas, e isso reduz o investimento.

Se você estava contando com o Ibovespa a 140 mil, a 145 mil pontos para que sua empresa tivesse recursos, esquece, porque isso não vai rolar. Se estava contando que o BC iria parar de subir juros em 7%, está ficando mais difícil, talvez tenha que ir para cima de 8%. Se estava contando em recuperar emprego nos próximos meses, vai demorar um pouco mais. Em vez de crescer 2%, vamos crescer 1,5%. Então tem custos reais.

Então sobrevive? Sobrevive, mas pior que sobreviveria em outras circunstâncias.

Qual o papel do dólar nessa inflação que a gente está observando?

Maior do que eu imaginava há meses atrás. Historicamente, o repasse do dólar não é muito alto para a inflação. Na minha conta, a cada 10% de dólar mais caro, isso se traduz em alta de inflação de cerca de 0,60 ponto percentual. Historicamente, não batia forte na inflação. O que acontece é que essa alta do dólar que estamos vendo no Brasil é muito fora dos nossos padrões históricos.

Normalmente, quando os preços das commodities sobem, os preços das coisas que a gente exporta em relação aos preços do que a gente importa aumentam. Isso, historicamente, fazia o real se apreciar. O preço da commodity subia, mas o dólar ficava mais barato.

Mas essa desvalorização atual está acontecendo a despeito da melhora dos preços das commodities. A alta nos últimos 12 meses foi da ordem de 60% no atacado, e isso se manifesta na inflação do varejo. Então, hoje temos esse esse papel importante do dólar sobre a inflação.

E por que ele não tem reagido à alta das commodities? Porque temos um desiquilíbrio fiscal grande e porque nossa crise política sugere que não temos capacidade de lidar com esse problema.

Essa preocupação é estrutural ou tem a ver com pretensões eleitorais do governo? 

Ele tem uma faceta estrutural, afinal o governo não registra superávit primário desde 2013. Então, temos há 7 anos uma situação delicada. A expressão disso é nossa relação dívida/PIB [Produto Interno Bruto]. Nas minhas contas, 80% da queda da relação dívida/ PIB neste ano é resultado de uma inflação mais alta. É algo com que não deveríamos contar.

E acho que isso é agravado pela percepção de que um governo impopular hoje está buscando mecanismos para ter um impulso de popularidade no ano que vem. Não quero pagar precatórios, mas quero gastar mais. Tudo isso sugere que, em cima das dificuldades estruturais, tem um movimento de curto prazo que é perigoso, para dizer o mínimo, já que o Orçamento, mais que nunca, é uma peça de ficção.

Então, em cima das dificuldades que a gente já tem, de anos, existe um movimento de curto prazo que é oportunista, que tem motivações políticas claras. Então, se não vamos fazer nada e ainda agravar a situação fiscal, isso já está pesando.

O mercado financeiro não é um ente moral, não está preocupado com democracia, direitos humanos. Ele está preocupado se está comprando bem ou mal, e percepção é que porque é ruim para a democracia, é ruim para capacidade de crescimento, para a inflação, e para o mercado. Tem que colocar o bolso no meio, o mercado é movido a análise de risco e retorno. Se aumentou o risco, vai vender, não tem jeito.

Ao mesmo tempo, existe uma certa irracionalidade de uma parte do mercado, que mantém o apoio e a confiança no governo. 

Essa não é uma questão moral. Nessas horas eu sempre me lembro do livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell, em que havia ovelhas que eram estúpidas demais para entender os mandamentos da revolução e que a palavra de ordem delas era “quatro pernas bom, duas pernas ruim”. Acho que tem gente do mercado financeiro que entrou nessa. Paulo Guedes é bom, o resto é ruim.

Também não é uma questão moral, é uma falha de análise. Em 2018 eu escrevi sobre o fato de que a promessa do Paulo Guedes na época, de zerar o déficit em um ano, não existe. “Ah, mas eu vou privatizar um trilhão”. Mas Bolsonaro dizia que não privatizaria as grandes estatais. Mas os caras resolveram comprar o Paulo Guedes e estão ali, “quatro pernas bom, duas pernas ruim”, até que um ou outro vai ficando esperto e vai cansando de perder dinheiro.

O investidor é um ser amoral, mas não necessariamente um caro esperto o tempo inteiro.

Qual é, na sua avaliação, o cenário mais provável para daqui um ano? 

Vamos viver novos episódios de turbulência política, além dos que são causados pelo presidente da República, que em última análise vive disso. Ele precisa da polarização, da turbulência como estratégia de sobrevivência eleitoral. Mas a grande verdade é que a alternativa não é muito melhor. Por mais que o Lula tenha criado uma fama de que, se necessário, pode se mover para o centro, as condições objetivas do próprio PT mudaram. E o próprio Lula se manifestou contra o teto de gastos.

Também vai ser difícil para o Lula fazer o que fez em 2003, quando fez um “duplo twist carpado” e saiu com uma política fiscal ortodoxa. Mas ele tinha herdado a casa em ordem. Agora não, precisa acertar, e isso envolve gastar seu capital político mais cedo, em condições piores e com um grau de convicção menor.

A alternativa é entre um governo que é incompetente, desinteressado e péssimo do ponto de vista de gestão, e outro que tem um projeto ruim. E conforme vai ficando claro que a terceira via é um sonho de uma noite de verão, para onde a gente vai correr? Vai ter uma pressão grande em dólar, em inflação. A turbulência política é um risco praticamente certo. Não chamaria mais de risco, mas de quase certeza.

Link da publicação: https://6minutos.uol.com.br/economia/terceira-via-e-sonho-de-uma-noite-de-verao-diz-ex-diretor-do-bc/

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