Valor (publicado em 05/12/2021)

Mudanças no colegiado ocorrem com a ida de Ilan Goldfajn para o FMI; o CDPP se prepara para lançar uma agenda com propostas a serem discutidas no ano eleitoral de 2022

O Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP), grupo de discussões sobre economia e política sediado em São Paulo, tem nova direção. O ex-presidente do Banco Central Ilan Goldfajn, nomeado diretor para o Departamento do Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional (FMI), sai da diretoria da instituição e entra Persio Arida, também ex-BC, que ocupará a presidência do CDPP. O novo colegiado ainda terá o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mário Mesquita. Marcos Lederman e Angélica Maria de Queiroz, que já faziam parte da diretoria, completam o time.

Criado a partir de conversas entre Ilan, Lederman e do ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore, o CDPP reúne economistas, acadêmicos e empresários para debater economia brasileira e internacional e propor políticas públicas.

Sob a nova direção, o CDPP se prepara para lançar uma agenda com propostas a serem discutidas no ano eleitoral de 2022. “O objetivo é participar do debate público e oferecer ideias em várias áreas”, afirma Ilan, lembrando que a instituição já lançou um trabalho similar, em setembro de 2014, chamado “Sob a luz do sol – Uma agenda para o Brasil”. O documento, primeira publicação do CDPP, tentava explicar as razões da perda de dinamismo da economia brasileira e fazia sugestões para a retomada do crescimento do país em áreas que vão do sistema tributário e fiscal à política urbana.

Em 2022, a política estará no centro das discussões, afirma Arida. “É um momento em que o interesse por políticas públicas e pelas propostas dos candidatos aumenta e em que nossa contribuição se fará mais presente”, diz. As reuniões entre os membros do centro para organizar e discutir qual será essa contribuição devem ocorrer a partir desta semana.

A situação da economia, num cenário de aumento da pobreza, é um tema que deverá ter grande destaque nas discussões. As perspectivas para a atividade são delicadas, num ambiente de piora das condições financeiras, como destaca Ilan. A importância da abertura comercial e o atraso tecnológico do país também são outros assuntos relevantes, segundo Arida.

Desde o lançamento de “Sob a luz do sol”, transformado em livro, alguns temas evoluíram, outros não, segundo os diretores. Alguns temas terão que ser revisitados. A ideia é que as contribuições para o debate sobre o Brasil pós-eleições de 2022 sejam feitas cedo, no início do próximo ano.

O CDPP teve um 2021 agitado, diz Ilan. O grupo apoiou a elaboração do “Programa de Responsabilidade Social”, dos economistas Vinícius Botelho, Marcos Mendes e Fernando Veloso, que propõe uma reformulação dos programas sociais do governo federal, criando condições para as famílias saírem da situação de pobreza. A proposta foi encampada pelo senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), mas não foi em frente no Congresso.

“O governo acabou saindo pelo lado do Auxílio Brasil e arrumou toda uma mudança que rompeu o teto de gastos, algo que, em termos líquidos, vai ser muito negativo para os próximos anos”, comenta Ilan.

Outras frentes em que o centro trabalhou foi em uma proposta para a posição do Brasil no mercado de crédito de carbono, no âmbito da COP26, e em debates com economistas estrangeiros, como Luigi Zingales (da Universidade de Chicago), Ricardo Reis (da London School of Economics), Barry Eichengreen (da Universidade da Califórnia, em Berkeley) e John Cochrane (da Universidade Stanford), e com personalidades do cenário político nacional, como o ex-juiz e agora pré-candidato à Presidência, Sergio Moro (Podemos), do qual Pastore, um dos membros do CDPP, é assessor econômico.

Outros políticos que passaram por lá neste ano foram o governador de São Paulo e também pré-candidato à Presidência, João Doria (PSDB), o governador gaúcho, Eduardo Leite (PSDB), e a senadora Simone Tebet (MDB-MS). Essas conversas devem seguir em 2022. “Continuamos a discutir política e economia com todo mundo. Com políticos, governadores, pré-candidatos”, afirma Ilan.

Neste ano, o CDPP, junto com a Casa das Garças, no Rio de Janeiro, considerada sua “instituição-irmã”, esteve no centro de um manifesto a favor das instituições e do sistema eleitoral brasileiro, num momento em que o presidente Jair Bolsonaro atacava a confiabilidade das urnas eletrônicas e membros do Judiciário. O texto recebeu mais de 17 mil assinaturas.

Link da publicação: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2021/12/06/sob-a-direcao-de-persio-arida-economistas-do-cdpp-estudam-propostas-para-2022.ghtml

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.