Palestrante: Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central


A inflação brasileira encerrou 2015 bem próxima de 11%. Foi um momento no qual, em meio à  crise política, a credibilidade da política econômica ficou abalada. A substituição do governo, em 2016, trouxe uma agenda de ajustes e reorientação da política econômica e reverteu as expectativas. Parte do trabalho de estabilização coube ao BC, sob o comando de Ilan Goldfajn. Desde 2017, a inflação tem oscilado em direção às metas de inflação.

Prestes a deixar o cargo, Goldfajn participou de um debate com associados em convidados do CDPP, no dia 21 de fevereiro de 2019. Fez um balanço de sua atuação, como no que diz respeito às reformas estruturais da Agenda BC+ e falou sobre os desafios futuros. A seguir, uma síntese de seus comentários.

Panorama econômico

Tivemos uma mudança importante no nível de inflação. A taxa estava próxima de 11% em  2015. Nos últimos dois anos, tivemos uma desinflação relevante. Olhando à frente, estamos caminhando para uma inflação ao redor da meta, fixada em 4% para 2020. As expectativas estão agora mais ancoradas. Houve, é verdade, retração na demanda e menos pressões por repasses nos preços devido a ociosidade dos fatores. Mas é preciso notar que tivemos dois anos de recessão, em 2015 e 2016, com inflação alta, chegando a mais de 10%. Então não é correta a ideia de que a retração na economia por si só explica a queda na inflação. Quando há um hiato na demanda e existem menos pressões, há uma força de desinflação, mas é preciso permitir que isso aconteça. Reverter os reajustes defensivos, que ocorrem mesmo sem pressão de demanda. Tivemos, com a mudança de governo, uma reorientação na política econômica e também firmeza na atuação do Banco Central, o que gerou credibilidade e levou os agentes a acreditar que a inflação ficará em torno da meta de inflação no futuro. Houve ancoragem das expectativas.

A inflação dentro da meta possibilitou uma queda na taxa básica de juros.

Obviamente haverá flutuações, mas se o patamar de juros for mantido em torno desses níveis, no médio e longo prazo, o que depende dos juros estruturais da economia e das reformas, teremos a possibilidade de uma revolução, com a queda no custo para as empresas e a transformação do mercado de capitais. Ainda estamos no meio desse processo. É cedo ainda para dizer se o patamar mudou definitivamente. Há muitas coisas a serem feitas, questões relativas às contas públicas, por exemplo. Tenho uma certa esperança que de fato mudaremos de patamar. Olhando para os estudos acadêmicos, países não fazem a transição de juros altos para juros baixos em momentos de boom. No México e em Israel, a mudança ocorreu em épocas de atividade fraca. Pode ser o caso do Brasil agora. Observando a taxa real, os juros, que eram de 20% não faz tempo, estão hoje próximos de 2%, o que faz uma diferença tremenda para os financiamentos, para o mercado imobiliário.

As pessoas não se lembram de que 2018 não foi um ano fácil. Na greve dos caminhoneiros, estivemos à beira de uma crise de desabastecimento. A decisão da Petrobras foi então baixar o preço em 10%.  Em meio à greve, a decisão foi alinhar os preços com o mercado internacional. Naquele período, o cenário internacional estava adverso, com aumento no preço do petróleo. O petróleo em alta, o câmbio se deprecia, os combustíveis ficam mais caros. Não é coincidência que tenha havido a crise.

As pressões do mercado

Nessa época, houve desvalorização de diversas moedas ao redor do mundo em relação ao dólar. A grande maioria dos bancos centrais decidiu elevar a taxa de juros em função dessa  depreciação e as pressões do seu repasse aos preços. No Brasil, começou a haver uma pressão do mercado para que o BC também elevasse os juros.As curvas de juros futuros apontavam para uma elevação da taxa básica –o que acabou não sendo feito. Chegou a ser precificada uma elevação de 200 pontos base. O BC manteve o sangue frio e a taxa básica no mesmo patamar. Isso certamente contribuiu para ajudar o crescimento atual. O crescimento teria sido bem mais gradual (talvez zerado), caso tivéssemos seguido as expectativas de juros do mercado. O BC não segue o mercado, segue o regime de metas de inflação.

Conjuntura global

O período mais benigno ficou para trás. Era um período em que a economia internacional estava em recuperação e, ao mesmo tempo, os juros estavam próximos de zero. É bem difícil manter um cenário desses para sempre. No ano passado, os juros subiram em todo o mundo. Mais recentemente, cresceu a percepção de que a economia global talvez esteja perdendo força. O Federal Reserve deu sinais de que será paciente, antes de elevar os juros, o que traz uma certa calmaria. O mundo está se desacelerando, por causa dessas incertezas todas – Brexit, disputas comerciais. Os dados mostram retração nos investimentos. Uma desaceleração pode estar chegando aos EUA. Mas não é certo.

O custo do crédito

Elaboramos o Indicador de Custo do Crédito (ICC), que é o custo do total do estoque de crédito do sistema financeiro. Esse índice revela que o nível de juro no Brasil é 20%. É alto em relação ao juro base, mas não tão alto como se diz por aí. Todas as taxas de juros e spread que olharmos estão na mesma direção de queda. Está mais devagar do que gostaríamos? Pode ser. Mas precisa haver o diagnóstico que estamos na direção correta, fazendo o que precisa ser feito, para não cair no populismo.

Se não tivermos a noção que as taxas de juros e spread já estão caindo, ajudadas pelas medidas tomadas na Agenda BC+, vamos entrar no curto prazismo.

Meia entrada no crédito

A mudança da TJLP para a TLP teve um efeito muito expressivo. Alavancou o mercado de capitais. Houve um salto na emissão de debêntures.

Existe ainda muito direcionamento de crédito no Brasil. Não existe paralelo no mundo. Metade do crédito é dirigido, determinando quanto custa, para onde ten que ser concedido. É o que chamados de a meia entrada no crédito –porque o resto do crédito tem que ser mais caro para compensar.

O grande debate atual é o direcionamento rural. Será uma discussão mais difícil do que o fim da TJLP. No mundo inteiro há subsídio ao setor agrícola, mas normalmente via seguro. Via crédito, só o Brasil.

Com a Selic baixa, fica mais fácil mexer nisso. O grande produtor consegue se financiar no mercado.

No imobiliário também deverá haver flexibilização.

Esses avanços só serão possíveis com a Selic em patamares baixos, porque os subsídios não serão tão grandes, e haverá menos resistência a mudanças.

A lentidão na retomada

Existem algumas razões para a retomada ainda ser lenta. Em primeiro lugar, 2018 foi um ano muito difícil. Greve dos caminhoneiros, aperto nas condições externas, polarização eleitoral. O investimento, com isso, parou. Precisamos reconquistar a confiança, algo que está sendo construído. Um passo importante foi a apresentação do projeto de reforma da Previdência. É uma reforma abrangente, que lida com as injustiças. Mas precisa passar no Congresso.

Só a reforma da Previdência, embora essencial, não faz sozinho o Brasil crescer. São necessárias outras reformas, como a tributária e abertura da economia.

Desaceleração internacional

Até o começo do ano passado, as economias estavam se recuperando relativamente bem. Por muito tempo, a pergunta era como seria possível manter o crescimento com tanta confusão política, como o Brexit e as disputas comerciais. Mas agora a Europa parou. A China começa a desacelerar, em parte por razões estruturais, mas também por causas conjunturais. O Fed, em sua decisão de reduzir a velocidade na normalização da taxa de juros, foi influenciado por indicadores de uma desaceleração nos EUA. Os dados das empresas vieram mais fracos, há dúvidas sobre o crescimento, e as bolsas refletiram essa incerteza.

Críticas ao regime de metas

Sempre que houver qualquer dificuldade na economia, haverá críticas ao Banco Central. É a instituição que lida com o curto prazo. Se o crescimento está fraco, por que não diminuiu os juros? É natural. Mas acredito que o regime de metas, apesar desse questionamento, ganhou maturidade. Ela tem se consolidado internacionalmente. É um regime que dá certa flexibilidade, dentro de regras. Mas, devo admitir, que no ano passado, ouvi várias pessoas do mercado financeiro dizerem que o BC deveria defender o câmbio e deixar de lado o regime de metas, a despeito da inflação baixa e da retração na economia. Resistimos às pressões e seguimos o regime de metas. O que certamente foi una decisão correta.

Agenda BC +

Existem muitas medidas ainda tramitando no Legislativo, no resto do governo e outros em estudo no próprio BC. Devemos ter aprovada em breve a mudança da relação do BC com o Tesouro. Muitas ações já foram feitas, com relação ao custo de credito, inclusive quanto ao incentivo a concorrência no sistema financeiro. Estamos buscando facilitar a atuação de fintechs e o ingresso de instituições estrangeiras. As ações têm dados resultados. A emissão de debêntures dobrou depois da introdução da TLP. Os juros rotativos estão em declínio. O cadastro positivo deve passar pela última votação em breve. Estamos pensando no Open Banking, já estudando como compartilhar os dados das pessoas. Os dados precisam ser dos correntistas, não da instituição. Também queremos criar um sistema de pagamentos instantâneo que funcione sete dias por semana, 24 horas por dia. Hoje, existem acordos fechados dentro de cada banco, que não conversa com os outros. Um dos benefícios de un sistema eficiente de pagamento instantâneo será a economia de papel moeda, que hoje tem um custo de R$ 600 milhões ao ano.

Autonomia do BC

Esse é um dos tópicos tratados por todos os governos nos últimos anos, mas sempre ficou na promessa. Agora o projeto de independência do BC foi colocado como prioritário. Parece que a percepção da sociedade e dos congressistas evoluiu. Antes havia a ideia de que seria uma autonomia a favor dos bancos; outros não entendiam por que os políticos deveriam delegar poder ao BC.  Agora a percepção mudou, tem maior chance de aprovação.

Por Giuliano Guandalini