Palestrante: Arthur Kroeber, Diretor de Pesquisas da Consultoria Gavekal

Por mais de quatro décadas, os EUA e a China mantiveram uma relação com poucos atritos. Havia a percepção de que era a integração econômica vinha sendo benéfica para ambas as partes –tanto em termos comerciais como geopolíticos. Isso mudou. Em Washington, os chineses deixaram de ser vistos como parceiros e passaram a ser encarados como competidores –e até mesmo adversários, segundo alguns. Esse sentimento se cristalizou antes da eleição de Donald Trump e é hoje compartilhado por democratas e republicanos.

Essa é a análise de Arthur Kroeber, diretor de pesquisas da consultoria Gavekal, baseada em Hong Kong. Kroeber acompanha a economia asiática há mais de 30 anos. Em 2002, foi um dos fundadores da consultoria Dragonomics, que, em 2011, uniu-se à Gavekal. No último dia 12 de fevereiro, Kroeber participou de um debate no CDPP, realizado em parceria com o Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais). O tema de sua apresentação foi “A vida após a Guerra Comercial”.

De acordo com o especialista, no curto prazo deverá haver uma trégua entre os EUA e a China. Donald Trump e Xi Jinping provavelmente fecharão algum tipo de acordo até maio. Ainda assim, fissuras mais profundas na relação entre os países continuarão a causar incômodo pelos próximos anos nos dois lados do Pacífico –sobretudo por causa da disputa pela liderança tecnológica.

A seguir, os principais pontos da apresentação de Kroeber.

A RELAÇÃO EUA-CHINA

Desde os anos 70, os Estados Unidos mantiveram uma política externa de colaboração com a China, uma política classificada como de “constructive engagement”. A ideia era que seria importante incentivar a integração da China à economia americana e mundial. No passado, ter uma relação amistosa como os chineses era útil para contrabalançar a União Soviética. Essa política em relação aos chineses se manteve depois do colapso soviético. Houve então, nestas quatro décadas, uma grande integração econômica entre os EUA e a China, vista na cadeia produtiva de diversos setores. Recentemente essa relação começou a passar por fissuras, basicamente porque a China se transformou em uma potência. Os americanos deixaram de ver a China como um parceiro estratégico e passaram a considerá-la um rival estratégico. Essa mudança de percepção teve início antes da eleição de Donald Trump. A realidade é que hoje existe um consenso razoável em Washington, tanto entre republicanos e como entre democratas, segundo o qual a relação com a China deixará de ser pautada pela colaboração e passará a ser pautada pela competição e pela rivalidade. Ao mesmo tempo, existem muitas incertezas sobre os próximos passos, porque não há, nos EUA, uma política bem-definida sobre esse tema.

Por enquanto, sabemos apenas que Trump decidiu impor uma série de tarifas, de até 27%, sobre produtos chineses. A China retaliou, com tarifas e outras medidas concebidas para atingir alvos estratégicos nos EUA. No entanto, no encontro do G20, em novembro passado, em Buenos Aires, Trump e Xi Jinping tiveram uma conversa e decidiriam negociar uma trégua.

Para Trump, seria muito negativo não obter algum tipo de acordo. Sua situação política é hoje mais frágil do que era dois anos atrás. Ele é alvo de diversas investigações. A economia americana está se desacelerando, algo que deverá ser sentido durante a campanha eleitoral no próximo ano. Ele precisa de um acordo para vendê-lo como vitória aos eleitores. Para os chineses, também não é interessante inviabilizar um acordo. Por tudo isso, acredito que deverá ser apresentado algo em breve, provavelmente até maio.

COMO SERÁ O ACORDO

A China deverá se comprometer em comprar mais mercadorias americanas, como soja e outros produtos agrícolas. Com certeza não será uma boa notícia para os produtores brasileiros de soja. Os chineses deverão também aceitar o compromisso de respeitar direitos autorais e relaxar regras de investimentos estrangeiros para assim facilitar o acesso de empresas americanas ao mercado chinês.

Mas ficarão de fora do acordo muitos pontos que preocupam os negociadores americanos mais críticos aos chineses. Não deverão ser tratados pontos como os subsídios estatais aos fabricantes chineses, a falta de transparência na política industrial, o envolvimento estatal nas empresas chinesas.

Politicamente, portanto, será um acordo que servirá para atender Trump e Xi Jinping, mas não será suficiente para satisfazer o pessoal mais linha-dura nos EUA. Particularmente, o setor de Defesa americano vê os chineses como uma ameaça.

AMEAÇA, OPORTUNIDADE E TRUMP

Xi Jinping lançou o seu programa de grandes investimentos internacionais em projetos de infraestrutura, o One Belt, One Road. Lançou também o China 2015, uma política industrial ambiciosa que almeja transformar o país em uma potência no desenvolvimento de microprocessadores, robótica, inteligência artificial.

Diante de tudo isso, fica evidente o desejo chinês de ser uma superpotência mundial, e, para o pessoal linha-dura do governo americano, isso vai contra os interesses dos EUA. Para esses críticos da atual política externa americana, é necessário restringir o acesso chinês à tecnologia produzida nos EUA. Dizem ainda ser necessário exercer pressão para que empresas americanas deixem de transferir tecnologia para os chineses. Em resumo, esses negociadores mais intransigentes desejam não apenas tornar mais difícil a vida dos chineses, mas também limitar a integração de empresas americanas com as chinesas.

Para a comunidade empresarial americana, entretanto, a China representa um grande mercado consumidor em expansão, fundamental para o crescimento de seus negócios. Os empresários reconhecem que há problemas, mas eles consideram os hard-liners paranoicos. Tentam argumentar que não se trata de um jogo de soma zero, porque contribui para o aumento da renda americana.

Trump não acredita em nenhuma dessas versões; ele não acredita em nada que não seja ele mesmo. Pensa apenas em sua sobrevivência política. Por isso quer um acordo que possa apresentar como vitória sua.

AÇÕES NO CONGRESSO AMERICANO

Os congressistas americanos querem aprovar medidas que ampliem o controle sobre a transferência de tecnologia para a China e restrinjam a presença chinesa nos EUA em áreas consideradas estratégicas, como por exemplo na segurança de informação. Atualmente existem regras para barrar a realização de exportações ou investimentos que coloquem em risco a segurança nacional. Pelos projetos em discussão no Congresso, não se tratará apenas de uma questão de segurança nacional. As restrições envolveriam “tecnologias emergentes estratégicas”. E o que seria uma “tecnologia emergente estratégica”? Ninguém sabe ao certo. Isso significa que haveria a possibilidade de os americanos bloquearem uma gama variada de transações com a China–até mesmo impedir as empresas de tecnologia de contratar chineses, por exemplo. Empresas americanas poderão ser impedidas de vender softwares e outras tecnologias para companhias chinesas. Isso poderia afetar empresas de todo o mundo que usem componentes fabricados na China.

O PONTO DE VISTA CHINÊS

A economia chinesa tem se desacelerado, basicamente porque houve uma contenção do crédito. O governo vem se esforçando para combater o shadow banking. O crescimento deve se manter ao redor de 6%, caindo para 5% nos anos seguintes. O crescimento potencial para a próxima década, num cenário positivo, é algo como 5% ao ano. O país passa por uma transição delicada. Por isso Xi Jinping não vai abrir mão de sua política industrial. Os chineses se consideram em uma situação confortável para obter acordos a seu favor, porque são uma potência em ascensão, enquanto os EUA estão em declínio.

Essa é a visão deles –e não concordo plenamente com eles. Os chineses terão muitas dificuldades adiante, ao passo que os EUA não são uma potência em declínio.

O ciclo de crescimento chinês baseado em infraestrutura e construção atingiu um pico e deverá entrar em declínio dentro de alguns anos. O consumo, em contrapartida, está em alta. Há ainda muito potencial de crescimento. Mas existem dois obstáculos para o desenvolvimento do mercado consumidor interno. Primeiro: esse potencial só pode ser desenvolvido com a liderança de empresas privadas, mas as atuais políticas de Xi Jinping têm favorecido o setor estatal. Segundo: o endividamento elevado.

CONSENSO ANTI-CHINA NOS EUA

Hoje não importa muito quem esteja no comando dos EUA, há um amplo consenso segundo o qual a China deve ser vista como uma ameaça. Se Hillary Clinton tivesse sido eleito, provavelmente não haveria aumento de tarifas, mas veríamos ações destinadas a enfrentar a China. É praticamente impossível conversar com alguém em Washington, seja de que partido for, que tenha algo de positivo a dizer sobre a China. Existe um consenso bipartidário a respeito de que a China é um problema; mas não existe um consenso a respeito do que deve ser feito. Muitos congressistas, por razões eleitorais, estão competindo para ver quem fala mais grosso contra os chineses. Mas, ao mesmo tempo, os empresários que apoiam esses congressistas pedem moderação.

ALTERNÂNCIA DE PODER NA CHINA

Xi Jinping poderá buscar um terceiro mandato –e talvez um quarto, ou mais, se a sua saúde permitir. É algo preocupante. Um dos pontos favoráveis do sistema chinês é a sua relatividade flexibilidade, ao contrário da União Soviética. Há políticas na China para que os dirigentes se aposentem e abram caminho para novas lideranças. Existe uma circulação de pessoas, de experiências. É um sistema autoritário com grande capacidade de adaptação. Por isso seria uma péssima ideia se Xi Jinping tentar se perpetuar no poder. O sistema tenderia a ficar mais fechado, controlado por um número menor de pessoas, menos adaptável. Dessa maneira, perderiam força os fatores que permitiram o sucesso chinês. Existe o risco real de o regime tornar-se excessivamente autocongratulatório.

Daí deriva também o risco de um acirramento da disputa com os EUA. Nos últimos 40 anos, os países têm sido capazes de resolver a suas divergências tendo como base o interesse econômico de ambos. Seria preocupante se a dinâmica sair da esfera de cooperação para a disputa em torno de questões de segurança, se prevalecer a visão de que a relação entre ambas a parte é um jogo de soma zero. Não é o quadro atual ainda, mas é uma possibilidade que causa preocupação, ainda mais porque envolve as duas maiores economias do mundo.

RISCO DE CONFLITO MILITAR

No curto prazo, é extremamente baixo a ameaça de um conflito militar. É difícil também falar em Guerra Fria, nos termos em que houve no passado entre americanos e soviéticos. O tipo de relação dos EUA com a China é completamente diferente daquele que havia com a União Soviética. Os interesses econômicos são enormes, de ambas as partes. A integração é muito elevada. Além disso, não existe uma disputa entre capitalismo versus comunismo, como na Guerra Fria.

COREIA DO NORTE E TAIWAN

A Coreia do Norte representa, na verdade, uma questão relativamente estática e simples. Trata-se de um regime familiar que pretende se manter no poder. Ninguém gosta deles, e a maneira deles se manterem no poder e desenvolver armas nucleares e fazer ameaças de que poderão usá-las. É uma chantagem. Eles não podem usar as suas armas, porque haveria uma retaliação, teríamos uma carnificina e o regime norte-coreano seria liquidado. A China e a Coreia do Norte não mantêm uma boa relação. Os chineses ficam fazendo sugestões para que os norte-coreanos repliquem o modelo chinês, abrindo a economia e criando zonas especiais de produção industrial. Os norte-coreanos não lhes dão ouvidos. Mas, para a China, o pior cenário seria uma queda no regime e uma reunificação com a Coreia do Sul, um aliado militar dos EUA. Isso colocaria milhares de soldados americanos na fronteira da Coreia com a China. A Coreia do Norte, portanto, é útil aos chineses como um Estado-tampão.

Taiwan, ao contrário, representa uma questão mais séria –e, eventualmente, pode levar a algum tipo de conflito entre China e EUA. Os chineses acreditam Taiwan pertence à China. Taiwan não quer voltar para a China, e os americanos também não desejam que isso aconteça.

VENEZUELA

A China manteve negócios com o governo extremamente corrupto da Venezuela por causa de seu interesse em fazer investimentos em infraestrutura no exterior e também para ter acesso ao petróleo. A crise serviu de alerta aos chineses para os riscos envolvidos em sua estratégia de expansão internacional. Isso não significa que eles pretendem abrir mão do que consideram seus direitos na Venezuela. Eles devem ter investido lá algo como 60 bilhões de dólares. A garantia dos empréstimos é o petróleo. Acredito que, se houver uma substituição de governo, eles tentarão fazer alguma espécie de acordo com o novo regime. A China, de qualquer maneira, vê o jogo de uma maneira diferente do que a Rússia o vê. Para os russos, a manutenção do atual regime é algo muito mais importante. Os russos sim são ativos na defesa de Nicolás Maduro.

Por Giuliano Guandalini