A esquerda que votou contra a reforma da Previdência, aprovada na Câmara e atualmente em tramitação no Senado, considera que a deputada Tabata Amaral, do PDT de São Paulo, é de direita. Tabata se considera de esquerda.

Quem tem razão? Se empregarmos o critério de demarcação do cientista político Norberto Bobbio, para quem estar à esquerda do espectro ideológico significa abrir mão de crescimento para reduzir a desigualdade, Tabata é de esquerda.

Tabata não tem problemas com carga tributária elevada ou com a agenda de elevação da progressividade dos impostos — isto é, com medidas em que os mais ricos paguem proporcionalmente mais do que os mais pobres.

Tem como prioridade em seu mandato ações que elevem a qualidade do sistema público de educação básica do país. Pelo critério de Norberto Bobbio, o governo FHC foi de esquerda, e, de fato, foi um governo que esteve à esquerda dos governos de Michelle Bachelet no Chile, por exemplo.

Para se convencer de que FHC foi de esquerda pelo critério de Bobbio, basta lembrar que, em seu governo, a carga tributária cresceu, o gasto social aumentou mais rapidamente do que a economia e o valor real do salário mínimo elevou-se pouco menos do que a alta nos oito anos do governo Lula.

Por que então Tabata e o governo FHC são de direita para os partidos autoclassificados como “pertencentes ao campo popular e progressista”? Não é fácil responder a essa pergunta com algum rigor.

Parece-me que a diferença se encontra na aceitação ou não da economia de mercado, com propriedade privada dos meios de produção, como o mecanismo regulador da produção e distribuição dos bens e serviços.

O “campo popular e progressista” é, em última instância, socialista. Penso que esse apego ao ideário socialista, mesmo que sem muita consciência, segue da particular forma pela qual eles entendem o funcionamento da economia.

Para o “campo popular e progressista”, país rico ficou rico pois explorou de alguma forma os países pobres ou periféricos. Trata-se do imperialismo, tema caro ao “campo popular e progressista”.

Analogamente, os baixos salários não estão associados à baixa produtividade do trabalhador, mas sim a uma relação de exploração que o proprietário dos meios de produção estabelece com o empregado.

Esse é um dos motivos de o “campo popular e progressista” ter sempre dificuldade de encontrar qualquer relação entre escolaridade e produtividade e entre produtividade e renda.

O que separa Tabata do “campo popular e progressista” é a aceitação por ela dos mecanismos de operação de uma economia de mercado e o entendimento de que a correção das injustiças e da desigualdade se faz com Estado e políticas públicas em geral.

O critério de Bobbio é normativo, isto é, está ligado a um juízo de valor sobre como distribuir os resultados da atividade econômica. As pessoas concordam sobre o funcionamento da economia e discordam na gradação entre eficiência e equidade.

A distância de Tabata do “campo popular e progressista” é de natureza positiva — está ligada não a uma preferência distributiva, mas sim a uma discordância quanto ao funcionamento da economia.

Tabata é social-democrata, como FHC e Bachelet. O “campo popular e progressista” é anticapitalista. Sempre que ficarem muitos anos no poder, o resultado será algum tipo de desorganização da economia, como ocorreu por aqui entre 2006 e 2014, ou mesmo o colapso, como ocorre na Venezuela hoje.

Fonte: Folha de S.Paulo (01/09/2019)

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