Por Maria Luíza Filgueiras

Quando recebeu a primeira ligação do presidente do banco Credit Suisse no Brasil, José Olympio Pereira, o economista Ilan Goldfajn havia acabado de deixar a cadeira de presidente do Banco Central. Depois de seis meses de negociação, o banco comunicou ontem que Ilan assumirá a presidência do conselho do Credit Suisse no Brasil, estrutura que não existia no banco. “Em virtude de sua posição anterior no Banco Central do Brasil e de seu notável histórico acadêmico e profissional, Ilan é uma figura altamente respeitada na comunidade financeira internacional. O Brasil é um mercado-chave para o Credit Suisse, e nós aguardamos ansiosamente a liderança de Ilan para continuarmos aumentando nossa ampla presença na região”, disse Tidjane Thiam, presidente mundial do Credit Suisse, em comunicado do banco.

A participação de Thiam na negociação com Ilan foi determinante para atrair o economista. Todos os encontros para as tratativas, ao longo dos últimos meses, aconteceram na casa de Ilan, para evitar que fosse visto no escritório do banco, em São Paulo – em edifício que também acomoda outras instituições financeiras. Foram conduzidos por Pereira e a decisão final foi tomada após uma conversa cara a cara entre Ilan e Thiam, em Zurique. A reunião foi em junho e o economista saiu de lá convencido da aposta do banco no Brasil. Desde então, foram só acertos finais.

O Credit Suisse não tinha um conselho no Brasil e montou essa estrutura, entre outras razões, para acomodar o novo integrante. Não se trata de um conselho de administração, que teria que cumprir um rito mais burocrático, mas uma espécie de conselho consultivo. “No conselho, ele terá melhor acesso para interagir com todas as áreas do banco e também com outras subsidiárias internacionais”, disse uma pessoa que acompanhou parte das tratativas. Há duas semanas, Ilan estava em Jackson Hole na conferência do Federal Reserve, o BC americano, por exemplo – um tema em que é especialista e em que o banco pode aproveitar suas interpretações não só para a estrutura brasileira.

Apesar de Ilan não ter função executiva, ele dará expediente diário no banco, apurou o Valor. Começará no dia 16 de setembro. Também integrarão esse conselho Pereira e os executivos da divisão internacional de gestão de fortunas no país, Marco Abrahão e Sávio Barros. O papel do conselho será ajudar o Credit Suisse a tomar decisões estratégicas e expandir suas atividades no Brasil, num novo cenário: de juros historicamente baixos e de nova competição no mercado financeiro, com as fintechs.

O banco colocou a gestão de fortunas como uma de suas prioridades de crescimento, área em que tem cerca de R$ 200 bilhões sob sua responsabilidade no Brasil – no ano passado, a área foi segmentada do bloco de América Latina, para ter atividade independente. Também quer retomar participação de mercado na atividade local de banco de investimento, que já foi maior no passado. Para o banco – assim como para os concorrentes – o processo de reformas e privatizações promovidas pelo atual governo brasileiro abre espaço para crescimento de atividades de mercado de capitais e assessoria financeira em fusões e aquisições.

No banco de investimento, o Credit Suisse criou uma área específica de assessoria a desinvestimentos estatais e privatizações no país, no início deste ano. Conforme comunicado de ontem da instituição, Ilan vai “auxiliar Jim Amine, Brian Chin e Philipp Wehle no desenvolvimento da franquia integrada de gestão de patrimônio e de banco de investimento na região”. Esses executivos estão à frente das áreas globais de banco de investimento, mercados globais e gestão de fortunas.

Ilan assumiu a presidência do Banco Central em junho de 2016, onde permaneceu até março deste ano, quando transferiu o cargo ao economista Roberto Campos Neto. Antes do BC, Ilan foi economista-chefe do Itaú Unibanco e também foi sócio das gestoras Ciano e Gávea Investimentos. No primeiro semestre deste ano, o conglomerado Credit Suisse no país somou lucro líquido de R$ 384,1 milhões, alta de 123,6% na comparação com o mesmo período do ano passado.

Fonte: Valor Econômico, 6/9/2019