Entrevistas

‘Inflação indica que, no curto prazo, taxa de desemprego vai ter que subir’, diz economista

Samuel Pessoa chama atenção para aceleração na variação de serviços adjacentes e avalia que economia está rodando acima da sua capacidade

Globo

Mais importante do que a variação de 0,11% apurada pelo IPCA-15, é a taxa apurada para a inflação de serviços subjacentes nesse período, diz o economista Samuel Pessôa, pesquisador associado ao FGV Ibre e chefe da pesquisa econômica JBB. Isto porque, explica, trabalhos puramente estatísticos mostram que esse indicador é o melhor preditor da inflação futura, por carregar a inflação inercial e não ser muito sujeito a choques. E a notícia ao observar esse indicador não é boa, a taxa variou 0,96%, 28 bps acima de janeiro do ano passado, quando foi 0,68%. Na visão de Pessôa, o resultado consolida a previsão do Banco Central de dois aumentos de um ponto percentual na Taxa Selic nas próximas duas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom). Mas mais do que isso, indica que a economia está rodando acima de sua capacidade e que será preciso aumentar a taxa de desemprego para contê-la.

-Serviços intensivos em mão de obra subiram 0,77%, já descontando os efeitos sazonais. Em janeiro do ano passado, a variação foi de 0,53%. Isso é sinal de que o mercado de trabalho está muito aquecido e começou a bater na inflação. Esses números ligados a serviços não estão diretamente ligados ao câmbio, mas ao ciclo econômico, e sinalizam que nós temos uma economia operando além da sua capacidade produtiva. A única forma para essa inflação cair é a economia desacelerar e provavelmente alguma elevação da taxa de desemprego, porque esses números sugerem que o mercado de trabalho também opera além das suas possibilidades. Ou seja, a economia brasileira opera com uma taxa de desemprego menor do que aquela que manteria a inflação constante. Essa inflação indica que, no curto prazo, a taxa de desemprego vai precisar subir ou a inflação vai continuar acelerando.

O economista explica que existe uma taxa de desemprego na qual os salários sobem na mesma velocidade da produtividade do trabalho, mantendo-se a rentabilidade do capital fica mais ou menos constante, o que dá à economia equilíbrio de longo prazo. Essa taxa no Brasil era de 9,5%, antes da Reforma Trabalhista, e o cálculo agora é que esteja entre 7,5% e 8%, o que ainda é muito alto, ressalta. Para se ter um parâmetro, nos Estados Unidos, essa taxa é 4%. Com o desemprego na casa dos 6%, diz Pessôa, a inflação fica de fato pressionada.

-Quando os salários estão além da produtividade do trabalho, os lucros estão sendo espremidos, e isso vai gerar uma pressão por repasse, principalmente se tiver demanda para sancionar essa pressão. E é essa a situação que a gente vive.

E acrescenta:

– Entendo que é muito difícil falar isso para a sociedade, o reconhecimento de que existe uma limitação de recursos da economia. É disso que se trata. É fato que, se a taxa de desemprego cai muito, a inflação começa a sair do controle.

Para mudar esse quadro e permitir uma economia equilibrada com uma taxa de desemprego menor, é preciso ampliar a produtividade. O primeiro entrave nessa direção é a educação.

-E nesse caso estamos falando de educação básica, mais do que ensino superior. Quando se investe em educação, há menos rotatividade de mão de obra e maior ganho de produtividade, com a incorporação de conhecimento com o trabalhador mais tempo naquela empresa. A ditadura deixou um legado ruim na área educacional, na redemocratização houve um avanço quantitativo, mas no qualitativo ainda estamos muito longe e isso dificulta o ganho de produtividade. O Brasil errou nisso, basta ver a revolução feita pelos países asiáticos através da educação.

Pessôa avalia que, este ano, as políticas monetária do Banco Central e a fiscal, do governo, andarão alinhadas pelo controle da inflação e prevê que a Selic feche o ano em 15%.

Link da publicação: https://oglobo.globo.com/blogs/miriam-leitao/post/2025/01/inflacao-indica-que-no-curto-prazo-taxa-de-desemprego-vai-ter-que-subir-diz-economista.ghtml

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