Entrevistas

Presidente do BID: temos de oferecer proteção cambial para atrair mais investimento verde

Em entrevista à Coluna do Estadão, Ilan Goldfajn explica o foco do banco na Conferência do Clima que será realizada em Belém, e avalia que setor privado, ao investir em projetos sustentáveis, olha para além “das questões” fiscais de curto prazo do Brasil, mas precisa garantir condições para que investimento seja feito

Estadão

Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) iniciou 2025 com foco na COP 30, a conferência do clima da Organização das Nações Unidas (ONU), que será realizada em Belém (PA). Na primeira entrevista exclusiva concedida este ano, o presidente da instituição financeira, o brasileiro Ilan Goldfajn, afirmou à Coluna do Estadão que aposta na proteção cambial para investidores privados como forma de acelerar o investimento na sustentabilidade ambiental.

Com o objetivo de atenuar os efeitos da volatilidade da moeda – no Brasil, por exemplo, o dólar chegou a ultrapassar os R$ 6 recentemente -, o BID pretende facilitar operações de hedge cambial dentro do programa “EcoInvest”. Na avaliação de Goldfajn, o setor privado, ao investir em projetos sustentáveis, olha para além s de curto prazo do Brasil, mas é preciso garantir condições com maior segurança.

“Tem que ter regra do jogo, contratos bem feitos, regulação bem trabalhada, estabilidade econômica, e aí por isso que o câmbio não pode ter essa flutuação. Se tiver, a gente tem que oferecer o hedge”, ressaltou.

Em 2023, o BID anunciou uma meta, que continua valendo, de US$ 150 bilhões para o financiamento verde em 10 anos. Na Amazônia, o BID Invest tem hoje US$ 484 milhões. Para a COP 30 o banco trabalha com quatro pilares.

O primeiro é o programa “Amazônia Sempre”, que foca em ações voltadas especificamente para a região. Tem também o “Alinhamento de Belém”, que busca unir as discussões e metas de clima e natureza; inovações financeiras, como a criação de “bônus amazônico”, título que os investidores podem comprar de projetos sustentáveis da região; e a “resiliência”, ou seja, em como prevenir e reagir a desastres naturais.

Nesta entrevista, Ilan Goldfajn evita tecer comentários sobre a postura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tirou o país do Acordo de Paris e trabalha para esvaziar os organismos multilaterais. O presidente do BID aposta que a agenda da resiliência climática é comum entre os países e vai se sobrepor na COP 30.

Ele ainda elogia a ação do Banco Central para controlar a inflação, destaca a consolidação fiscal que antes não havia em países como Argentina e Suriname, e avalia que há mais estabilidade na América Latina.

Confira os principais trechos da entrevista:
Quais são os pilares de atuação do BID na COP 30?

São quatro pilares. O nosso programa “Amazônia Sempre” é um pilar fundamental, um dos programas mais bem-sucedidos do banco, junta os oito países da Amazônia, o Banco Mundial, o CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe), a gente (BID) está liderando, com governos locais, estaduais, comunidades indígenas, bancos públicos na Coalizão Verde, bancos privados. Vamos puxar bastante isso na COP 30. O segundo pilar é o “Alinhamento de Belém”, que é ter metas e programas ligados à natureza e à bioeconomia, para fazer um nexo entre clima e natureza. Essa ligação a gente deve reforçar bastante na COP 30. Não podem virar coisas separadas, não pode ter uma COP de clima e uma COP de natureza, como tem hoje.

E os outros pilares?

O terceiro são inovações financeiras, com a participação do setor privado. De Baku (na Azerbaijão, onde foi realizada a COP 29 em 2024) para Belém, você precisa ter uma trilha de como chegar no financiamento de US$ 1,3 trilhão. Não tem como chegar nessa meta se não tiver recursos do setor privado. E o último pilar é a questão da resiliência. Precisamos trabalhar como reagir aos desastres naturais. Eles estão acontecendo uma vez por mês, vários por ano, e tem um custo muito grande. A gente tem até uma estimativa que é US$ 1,2 milhão por hora de custo de desastres no mundo hoje. Temos que ter infraestrutura, capacidade de ter resiliência.

O programa EcoInvest completa um ano nesta semana. Na primeira operação, anunciada no final de 2024, o governo brasileiro conseguiu alavancar R$ 45 bilhões em financiamentos a projetos sustentáveis. Previsões para a próxima etapa?

O EcoInvest tem sido muito bem sucedido, a gente vai continuar aumentando isso. Tem outros pilares que estamos trabalhando. Um é fazer a proteção cambial, ajudar através do ISDA (Associação Internacional de Swaps e Derivativos) com o Banco Central, e o BC com os bancos. Oferecer os nossos preços para ter proteção cambial, de uma forma que você consegue fazer o hedge cambial a um preço melhor. Outro pilar é o de ter uma capacidade de propor projetos, tem que ter uma oficina que ajude a ter projetos climáticos. É um trabalho junto com o Ministério da Fazenda. E, finalmente, a gente também tem essa capacidade de ter uma janela de liquidez, que os países podem tomar um empréstimo de curto prazo do BID quando há uma grande depreciação, que é um momento em que o mercado desaparece, então é importante que a gente entre nessa linha.

Até que ponto a situação fiscal brasileira hoje inibe novos investimentos privados?

Eu acho que, hoje em dia, os investimentos em clima são geradores de emprego, de oportunidade. Os recursos são investidos pelo setor privado, são a dívida do setor privado. O que o setor público está fazendo é oferecendo linhas que vêm de bancos como o nosso. Portanto, está naquele nosso pilar de aproveitar o setor privado para poder financiar o crescimento.

O senhor citou a questão cambial. O cenário atual afeta os investimentos?

Esses investimentos vão além da questão de curto prazo fiscal do Brasil. Esses investimentos olham daqui a dez anos, olham oportunidades globais de exportação, de exportar energia limpa. Eu acho que está num outro patamar. O que, sim, a gente tem que trabalhar é para que a gente ofereça as condições no País para que haja investimento. Tem que ter regras do jogo, contratos bem feitos, regulação bem trabalhada, estabilidade econômica, e aí por isso que o câmbio não pode ter essa flutuação. Se tiver, a gente tem que oferecer o hedge. Tudo que é para além do que o investidor consegue calcular, que são os riscos dele mesmo, do projeto, são coisas que a gente deveria diminuir. Segurança de uma forma geral, segurança econômica, segurança jurídica e segurança física.

O que está faltando para criar esse ambiente de segurança?

Eu acho que está indo nessa direção. Os países da América Latina já estão mais estáveis, você vê que são os primeiros que reagiram contra a inflação, a inflação subiu e caiu, os bancos centrais têm trabalhado, isso tem feito a diferença. A região tem crescido mais nos últimos tempos, tem vários países já com consolidação fiscal que não tinham, Argentina, Suriname, outros estão trabalhando as regras fiscais, como Chile, como outros países. A gente tem, sim, mais estabilidade na América Latina.

No Brasil também?

O Brasil tem responsabilidade com a inflação, o Banco Central está fazendo esforço para trazer a inflação de volta, isso é bom, mostra que há um trabalho para manter a inflação dentro da meta, e isso é um trabalho do Banco Central e acho que está sendo bem feito. Ao mesmo tempo, tem todo o objetivo de transformação ecológica, que é importante.

Novas operações do EcoInvest devem ser anunciadas antes da COP?

A gente vai trabalhar com o EcoInvest até a COP 30, sim. Temos a ideia de lançar outras etapas, outros valores até a COP.

E sobre o programa “Amazônia Sempre”, para financiar projetos destinados ao desenvolvimento sustentável e inclusivo da região, lançado em 2023. Quais são os números deste programa hoje?

Esse programa, quando começou, em 2023, tinha US$ 1 bilhão de recursos nossos junto com apoiadores. E esse número subiu para US$ 4 bilhões e pouco. Ou seja, quadruplou em um ano.

Na sua avaliação, existe equilíbrio hoje entre os investimentos públicos e privados no clima?

Esses US$ 4 bilhões que eu falei são basicamente recursos públicos. Recursos privados estão vindo de uma forma bem relevante a quantidade. Eu diria que é menos porque começou agora.

O setor privado vai ultrapassar o setor público em valores?

Hoje em dia, para todos os empréstimos do BID, a proporção é de 44% privado e o resto público. A gente está com a capitalização do BID Invest e com o crescimento vai dobrar o tamanho do BID Invest. Precisamos chegar em metade e metade. A gente quer que isso chegue na Amazônia para Sempre também.

E dá para chegar nessa proporção em quanto tempo?

No banco, eu diria que em três ou quatro anos a gente chega lá.

O que está faltando e o que tem impulsionado para se chegar nessa proporção?

A gente precisa da capitalização. Recursos foram autorizados pelo nosso conselho na última reunião anual, em Punta Cana. São US$ 3,5 bilhões de capital que está entrando no banco. Além disso, temos um modelo novo, em que você origina o projeto e compartilha com o setor privado, eles entram com a gente porque confiam na nossa originação, que é olhar o projeto e ver se o projeto está funcionando e aí financiar. Se a gente puder entrar com 10% do projeto e distribuir, compartilhar os outros 90%, esse é o nosso novo modelo de negócios. Mais capitalização e capacidade de tomar risco. Essa que é a diferença e vai dobrar o tamanho do BID Invest nos próximos anos.

Com a volta de Donald Trump ao poder, os Estados Unidos saíram do Acordo de Paris, além disso o presidente americano atua pelo esvaziamento de organismos e bancos multilaterais. Quanto isso vai esvaziar a COP?

Temos bastante agenda comum com todos os países que fazem parte das Américas, inclusive os Estados Unidos, por exemplo na questão dos desastres naturais e a resiliência, na ideia de que a gente tem de reagir e evitar os desastres. Vamos lançar inovações financeiras. Uma delas são os bônus amazônicos, especificamente para serem usados para proteger a Amazônia. Vamos emitir bônus amazônicos do próprio BID, e isso vai dar um benchmark dos bônus que os outros países podem emitir também. Além disso, estamos criando um fundo Amazônia para todos. Isso é um ETF, que é um fundo que acompanha os nossos projetos, do BNDES, do Banco do Brasil, da Caixa, projetos da Amazônia. Com o ETF, você pode comprar pequenas cotas desse fundo, negociado na Bolsa, de até R$50, R$100, onde cada um pode ter o seu pedaço de um projeto sustentável da Amazônia. A gente gostaria que isso estivesse funcionando até a COP 30.

Até o momento, só 10 países entregaram as metas climáticas? Há temor de esvaziamento da COP 30?

A minha percepção é que essas agendas comuns que a gente colocou têm um longo e um grande alinhamento de recursos e trabalho para fazer. Tenho certeza que vai ser uma COP30 muito bem sucedida. Eu tenho certeza que há uma necessidade de reagir aos desastres naturais. O setor privado tem, sim, investido muito em energia renovável. Há uma busca muito grande por minérios críticos, que é uma coisa que a região pode oferecer, como cobre, lítio. Temos que olhar o que nos une.

Há projeção de valores de financiamentos a serem movimentados até a COP 30?

Na COP 29, trabalhamos [os bancos multilaterais de desenvolvimento] para oferecer US$ 120 bilhões de dólares nos próximos anos, isso levou a US$ 300 bilhões de compromisso de todo mundo na época, em Baku, e levou ao comprometimento até US$ 1,3 bilhão, que vai ser a rota para o futuro. E o BID tem a meta de US$ 150 bilhões para o financiamento verde em 10 anos.

O fato de o senhor ser um brasileiro à frente do BID neste momento ajuda de alguma forma no convencimento para investidores estrangeiros apostarem nesses fundos e investimentos ligados ao clima no Brasil?

Acho que sempre ajuda, porque a gente consegue estar alinhado. Não é à toa que a COP 30 na região é uma prioridade para o BID. E a COP30 no Brasil facilita o diálogo, com o presidente da COP, o André Corrêa do Lago, com os ministérios.

Link da publicação: https://www.estadao.com.br/politica/coluna-do-estadao/presidente-do-bid-temos-de-oferecer-protecao-cambial-para-atrair-mais-investimento-verde/

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