País tem mais que boas intenções: tem tecnologias e políticas maduras para liderar pelo exemplo na COP da Amazônia
Valor
Os últimos dois meses foram intensos na arena mundial, com a sensação de mudanças estruturais na ordem global e necessidade de alternativas. Na Conferência de Tóquio deste ano, por exemplo, Fumio Kishida, primeiro-ministro do Japão até outubro passado, observou que a vitalidade do multilateralismo não se define só pela unidade no G7, mas também pela inclusão e voz dos países em desenvolvimento.
A carta da presidência da COP 30 aponta um rumo positivo nesse ambiente fragmentado, convidando o setor privado e outros agentes a formarem um mutirão para criar alavancas que movam o mundo apoiadas na COP. E mostrar que, mais que problemas, há soluções.
Canteiros de ação climática devem complementar as negociações na COP, inclusive aquela sobre o Mecanismo de Crédito de Carbono do Acordo de Paris (PACM, na sigla em inglês). A sua regulamentação e metodologias têm que avançar para o PACM poder ser um sucessor melhorado e adequado do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, inclusive no que toca os créditos decorrentes da preservação das florestas (REDD+) ou da sua restauração. O Itamaraty participa do Órgão de Supervisão desse trabalho, cujo resultado terá destaque na COP na Amazônia e, oxalá, ampare as expectativas dos que já investem na floresta em pé.
No campo das ações, o Brasil pode trazer várias soluções além da energia eólica ou solar ou da agricultura de baixo carbono e sem desmatamento. Os biocombustíveis, que o Brasil conseguiu projetar melhor no último G20, serão cada vez mais relevantes, principalmente se aliados a novas tecnologias. É o caso do etanol na mobilidade urbana, que terá vida mais longa se o país avançar na adoção dos veículos híbridos, especialmente aqueles ditos em linha, em série ou com e-power.
O híbrido em linha é um veículo elétrico em todos os sentidos, afora que a bateria pode ser alimentada por um pequeno motor de combustão interna, não ligado à tração, em contraste com híbrido paralelo tradicional. Por conveniência, ele também pode se recarregar na rede elétrica.
Os híbridos podem cortar o consumo de combustíveis na cidade em 40%, e o impacto ambiental de sua bateria de 2-10kWh é muito menor do que o daquela de 80kWh necessária para o elétrico convencional. Assim, o Brasil mostrar a viabilidade e baixo custo dos híbridos pode ser uma ação de muita visibilidade na COP, já que transportes leves emitem 3.8GtCO2 ano, ou 10% das emissões globais por energia, e abatê-las com o híbrido será barato, estimulando a venda de carros. A maior quilometragem do etanol com os híbridos também diminuirá os desafios do refino de petróleo no Brasil.
O híbrido em linha é viável porque sua engenharia está ao alcance do Brasil, como atestam os projetos de ônibus urbanos híbridos, inclusive a etanol, prontos para serem lançados por empresas nacionais, dependendo apenas da homologação pelo governo de alguns de seus componentes.
O baixo custo do ônibus híbrido deve-se a ele evitar os R$1-2 milhões da bateria que oneram o ônibus elétrico convencional, e a seus gastos com manutenção e combustível serem bem menores do que os de um ônibus a diesel, até porque ele recupera energia a cada freada no trânsito e tem menos peças móveis.
Fora das cidades, o biodiesel e o diesel verde vão se firmando como opção para o transporte de carga, incluindo novas alternativas ao HVO, baratas e com vida útil mais longa. Do seu lado, o óleo de dendê (ou macaúba) pode se tornar competitivo para a tração de locomotivas diesel-elétricas, um veículo híbrido que dá certo há 75 anos. Ele pode ser chave na Amazônia, onde produzi-lo poderá render R$ 3 bilhões por ano à região. Isso tudo, mais a extensão dos trilhos da Norte-Sul até Barcarena e da linha do Mato Grosso até Ilhéus/Aratu, protegerá a floresta e pode cortar 50 MtCO2 das emissões brasileiras até 2035.
Mostrar a viabilidade e baixo custo dos híbridos pode ser uma ação de muita visibilidade do Brasil na COP30
O biometano, da cana e outras gramíneas, de aterros sanitários e mesmo de resíduos animais e lodo de esgoto é outra revolução recente. Com o devido cuidado para evitar a fuga para a atmosfera, ele já ajuda na propulsão de caminhões, na produção de metanol e combustível sustentável para a aviação, e na energia para a indústria, com crescente competitividade. Energia vinda de aterros sanitários é um exemplo da chamada economia circular, que o Fórum da Economia Circular da Fiesp em maio deve mostrar não ser um luxo escandinavo, mas algo bem tropical e importante no Brasil, até dada nossa taxa de reciclagem de lubrificantes (49%) e embalagens de alumínio (100%), papel (85%), plástico (23%) e vidro (26%); além de algo na construção civil.
O Brasil é talvez o país que reprocessa a maior proporção do óleo lubrificante que consome, com um terço do consumo doméstico total vindo do re-refino. Isso é muito, dado que somos o sexto maior mercado mundial e a produção brasileira de óleos mais sofisticados (grupo 2) vem apenas daí. As refinarias tradicionais atendem outro terço do mercado, mas só com óleos simples (grupo 1), o resto sendo importado.
A competitividade da reciclagem depende do preço do produto original, diminuindo quando esse cai, e da tributação, que nem sempre é trivial. O lubrificante a ser reaproveitado, por exemplo, já pagou impostos sobre sua produção e venda, influenciando seu custo de aquisição, o que poderia talvez motivar um crédito tributário. Mas, na reforma tributária, talvez por cautela, só se reconhecem por enquanto créditos para resíduo sólido colhido por catadores, o que não se aplica a um resíduo líquido com risco para o ambiente e a saúde, e pode vir a deprimir a margem do re-refino.
Na indústria do papel, a reciclagem reforça a redução das emissões que a cultura do eucalipto e o predomínio da biomassa e eletricidade na produção permitem, mesmo que não se achem tantas estimativas detalhadas da pegada de carbono do produto nas suas muitas vidas até ser definitivamente descartado.
Portanto, o país tem mais que boas intenções – tem tecnologias e políticas maduras para liderar pelo exemplo. Na COP da Amazônia, poderemos mostrar como esses “pássaros na mão” e iniciativas afim podem se transformar em um diferencial competitivo para mais países.
Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/passaros-na-mao.ghtml
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