Entrevistas

Meirelles: Trump impõe ineficiência ao mundo com custo maior para os americanos

Em entrevista ao PlatôBR, ex-presidente do Banco Central e ex-ministro da Fazenda falou sobre as consequências para Estados Unidos e para o mundo do tarifaço determinado pelo presidente americano. Também respondeu perguntas sobre o momento atual da economia brasileira e as dificuldades do BC para coordenar as expectativas do mercado financeiro

PlatôBR

A política protecionista do presidente dos Estados Unidos, Donald de Trump, que nesta semana foi reforçada com tarifas recíprocas mínimas de 10% para todos os parceiros comerciais, irá, na visão do ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, “impor uma ineficiência para a economia global” com alto custo de inflação e retração na atividade econômica, sobretudo, para os próprios americanos.

Em entrevista ao PlatôBR, Meirelles diz que dificilmente o caminho escolhido pela gestão Trump será capaz de levar empresas de volta para os Estados Unidos, e chama atenção para os riscos políticos já que, ao contrário do que aconteceu no primeiro mandato do americano, desta vez há reação negativa ao seu governo, que está prestes a completar 100 dias.  Segundo Meirelles, a combinação de protecionismo com medidas anti-imigração e deportação de estrangeiros já está gerando falta de mão de obra. “Eu vi outro dia uma empresa americana de transporte que está com 2 mil caminhões parados por falta de motoristas”.

Meirelles tem longa trajetória no setor financeiro. Trabalhou no BankBoston por 28 anos e foi presidente mundial da instituição antes de comandar o BC e o Ministério da Fazenda.

Convidado para solenidade de comemoração dos 60 anos do Banco Central, Meirelles conversou com o PlatôBR na sede da autoridade monetária, em Brasília. Na entrevista, avaliou a dificuldade do BC em coordenar as expectativas de inflação, disse que, sem apoio fiscal, o país precisará de juros mais altos por mais tempo para fazer os preços recuarem, analisou a relação do BC com o mundo político, a desaprovação recorde do governo e afirmou que o próximos presidente terá que enfrentar um dos temas mais impopulares para executivo e legislativo: a reforma da Previdência.

A política protecionista do presidente dos Estados Unidos, Donald de Trump, que nesta semana foi reforçada com tarifas recíprocas mínimas de 10% para todos os parceiros comerciais, irá, na visão do ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, “impor uma ineficiência para a economia global” com alto custo de inflação e retração na atividade econômica, sobretudo, para os próprios americanos.

Em entrevista ao PlatôBR, Meirelles diz que dificilmente o caminho escolhido pela gestão Trump será capaz de levar empresas de volta para os Estados Unidos, e chama atenção para os riscos políticos já que, ao contrário do que aconteceu no primeiro mandato do americano, desta vez há reação negativa ao seu governo, que está prestes a completar 100 dias.  Segundo Meirelles, a combinação de protecionismo com medidas anti-imigração e deportação de estrangeiros já está gerando falta de mão de obra. “Eu vi outro dia uma empresa americana de transporte que está com 2 mil caminhões parados por falta de motoristas”.

Meirelles tem longa trajetória no setor financeiro. Trabalhou no BankBoston por 28 anos e foi presidente mundial da instituição antes de comandar o BC e o Ministério da Fazenda.

Convidado para solenidade de comemoração dos 60 anos do Banco Central, Meirelles conversou com o PlatôBR na sede da autoridade monetária, em Brasília. Na entrevista, avaliou a dificuldade do BC em coordenar as expectativas de inflação, disse que, sem apoio fiscal, o país precisará de juros mais altos por mais tempo para fazer os preços recuarem, analisou a relação do BC com o mundo político, a desaprovação recorde do governo e afirmou que o próximos presidente terá que enfrentar um dos temas mais impopulares para executivo e legislativo: a reforma da Previdência.

PlatôBR – O senhor assumiu o BC, em 2003, com a economia em crise. O presidente Lula começava seu primeiro mandato, a inflação estava em mais de 14% ao ano e foi preciso aumentar os juros, para 26,5%. Situação muito parecida com o momento atual, mas ainda há muita incerteza e grande dificuldade do BC para coordenar as expectativas do mercado financeiro. O que está faltando?

Henrique Meirelles – Naquela época, tínhamos inflação elevada, pressão cambial com muitos recursos saindo do Brasil, preocupados com o novo governo. E, também, muita preocupação se o Banco Central ia conseguir, de fato, controlar a inflação. Foi necessário agir forte. Os juros já estavam elevados. Elevamos para 26% ao ano e ainda havia muitas dúvidas se iríamos ceder à pressão. Na reunião seguinte, nós aumentamos novamente, para 26,5%. Isso levou a uma queda das expectativas de inflação e, posteriormente, à queda da própria inflação, que foi convergindo para a meta.

A coordenação das expectativas foi fundamental para fazer a inflação ceder?
Foi fundamental. Naquela época também existia uma coisa importante: a política fiscal estava alinhada com a política monetária. O governo fixou uma meta de superávit primário de 4,25% do PIB e entregou 4,35%. A política monetária forte permitiu a inflação cair gradualmente e a confiança foi aumentando cada vez mais. E não havia independência legal do BC. Eu tinha combinado com o presidente Lula que seríamos, de fato, independentes. Foi apresentado um projeto de lei fixando a independência e não foi aprovado. Eu disse: presidente, nós temos um acordo de total independência. Eu vou seguir acordo e o senhor terá a prerrogativa de me exonerar a qualquer momento. E seguimos assim.

E o que falta para o BC hoje?
Há, de fato, esse desalinhamento de expectativas. O Banco Central está subindo a taxa Selic e é isso que ele tem que fazer. É importante agir tecnicamente, e não se auto restringir, e levar a Selic ao patamar que os modelos do Banco Central indicarem que a inflação está convergindo para meta.

O mercado financeiro considera que o ciclo de alta de 3 pontos iniciado em dezembro ainda não foi decisão dessa nova gestão. O senhor acha que teria sido mais fácil ganhar credibilidade e gerenciar expectativas se esse choque de juros tivesse sido anunciado em janeiro, já pela nova direção?
Possivelmente sim. Mas eu acredito que o Banco Central tem toda a capacidade de tomar as medidas necessárias para que isso, de fato, gere uma convergência da inflação para a meta. Se os modelos indicarem que é necessário mais uma alta, que seja. A economia está aquecida e o desemprego na baixa histórica. Então, acho que é altamente cabível, se os modelos indicarem.

É possível ancorar expectativas e desinflacionar a economia sem apoio da política fiscal?
É possível. Evidentemente, quando política monetária e fiscal caminham na mesma direção, você consegue um equilíbrio num nível de juros mais baixo. Se a política fiscal é expansionista, você terá um equilíbrio a um nível de juros maior.Possivelmente, por um pouco mais de tempo.

A economia está penalizando a análise política do governo? 56% dos entrevistados reprovam a gestão atual.
Sim.  Em última análise, é a inflação. Na medida em que o consumidor chega no supermercado ou na feira e os preços estão elevados, ele não gosta. Apesar das políticas sociais do governo, o que está pesando na avaliação do governo é a inflação.

Essa inflação tem um componente importado, tem pressão doméstica e tem a questão fiscal. É possível combater todos esses componentes só com juros?
É o instrumento do Banco Central.

Como o senhor avalia as medidas protecionistas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump? Vai ter mais inflação no mundo?
Ele está gerando maior inflação nos EUA, principalmente, e como consequência, em outros países. Ao contrário do que aconteceu no primeiro mandato de Trump, agora há reação negativa dos mercados, por causa das tarifas, da restrição ao comércio e da subida da inflação nos Estados Unidos. A bolsa americana está refletindo isso. Há um pessimismo e uma preocupação com a economia americana. Afeta todos os demais países. O Brasil, um pouco menos, porque exportamos basicamente commodities e um certo nível de produtos industrializados. O impacto, a princípio, é menor do que, por exemplo, em um país como a Alemanha, que depende muito das vendas de automóveis e equipamentos para a economia americana. O impacto mais direto é nos americanos, com mais inflação. Isso está sendo refletido nas avaliações lá nos Estados Unidos. E, evidentemente, nos países que exportam mais. O Brasil tem déficit comercial. Então, impacta, mas não é tão forte.

Essa política protecionista é eficiente para remontar a indústria nacional, as empresas vão voltar para o território americano?
É muito difícil. Reverter um movimento de globalização é algo muito complicado. Principalmente, quando essa globalização é feita na busca de maior eficiência. Então, aqueles países mais competitivos em determinada área tendem a ter problema. A China era grande exportadora de produtos de baixo custo. Agora, esses produtos de baixo custo já estão se movendo para o Vietnã, por exemplo, e para outros países. A China já tá exportando produtos de maior valor agregado, como automóvel, etc. Em última análise, você vai impor uma ineficiência para a economia global. Dificilmente isso vai funcionar. Alguma coisa vai, mas a um custo alto de inflação e atividade econômica menor.

Onde vamos parar? O mundo está desglobalizando?
Vamos ter uma certa influência, não há dúvida. Mas não vai reverter a globalização. Inclusive, porque não estamos falando de um alto nível de desemprego nos Estados Unidos. Ele coloca tarifas e isso pressiona o preço. Ao mesmo tempo, coloca bloqueios importantes na imigração, além da deportação. Isso vai gerar pressão de mão de obra nos Estados Unidos. Não há sobra de mão de obra. Eu vi outro dia uma empresa americana de transporte que está com 2 mil caminhões parados por falta de motoristas. De um lado, há a indústria de produto de baixo custo e a de veículos, que os Estados Unidos estão basicamente importando. Mas nos produtos de alta tecnologia, quais são as maiores empresas do mundo? Microsoft, Apple etc. São todas americanas. É normal que os EUA comecem a produzir produtos de maior tecnologia (e haja crescimento na área de serviços) e a importar produtos de baixo custo. A tentativa de reverter isso vai gerar um desequilíbrio na própria economia americana e um encarecimento dos produtos lá. O presidente Donald Trump declarou que não se importa que o preço dos carros vai subir. Mas isso vai acontecer.

Como a diplomacia e o empresariado brasileiro podem reagir a uma ideia fixa dessa?
A economia brasileira tem que buscar o seu próprio equilíbrio.Mesmo com os Estados Unidos. Temos déficit comercial. Não somos tão dependentes assim. Grande parte da exportação brasileira é soja, milho e não está no escopo da reindustrialização americana.

O senhor voltou para o governo como ministro da Fazenda na gestão Temer, quando houve aprovação do teto de gasto, da terceirização, da reforma trabalhista, mas não se conseguiu aprovar a reforma da Previdência. O próximo presidente terá como fugir de uma reforma da Previdência?
A reforma da Previdência não foi aprovada em 2017 basicamente por uma questão política. Em maio de 2017, tínhamos votos suficientes e criou-se as condições e o ambiente para que no início do governo seguinte fosse aprovada a reforma da Previdência. Agora, com o aumento da expectativa de vida da população, o que é um dado positivo, teremos que fazer uma reforma da Previdência para refletir esse aumento.Tem que fazer. Não pode esperar mais dez anos para pensar no assunto.

O  senhor retornou para o Brasil (depois de presidir o BankBoston) com pretensões políticas. Passou pelo PSDB, PSD, MDB, se elegeu deputado, não assumiu, foi candidato à presidência. E sua gestão no BC foi considerada com viés político. Essa é uma crítica também à gestão de Gabriel Galípolo. Como lidar com esses dois lados do cargo: cuidar da economia e ter relacionamento político? Qual é o limite?
Fui eleito deputado federal, mas não cheguei nem a assumir. Não tive nenhuma atuação política, quando fui nomeado para o Banco Central. O BC tem que lidar com a questão política por razões diversas. Por exemplo, a discussão no Senado sobre autonomia financeira do Banco Central. É técnica e política. Tem que dialogar com o Congresso para conseguir aprovação. A independência foi uma questão política. O BC tem que ser capaz de dialogar com outros setores da sociedade. Agora, está claro que o Banco Central tem que falar para setores mais amplos da sociedade. Na minha época, o BC estava ainda na fase de consolidação da sua autoridade, independência e eu fazia muita questão de não comentar a decisão do Copom. Quando me perguntavam, eu respondia: a ata é autoexplicativa. Hoje, o BC está avançando um pouco mais porque o momento é outro.

O que há diferente nesse momento?
A mídia social, a comunicação eletrônica, mudou muito a dinâmica. Hoje, essas questões todas são discutidas numa abrangência que antes não era. Quem discutia o Copom? Basicamente analistas, economistas do mercado. Hoje, não. Tem manchetes do jornal, memes, posts. A interação digital é impressionante. Devemos continuar nessa linha de avanço digital e de modernização. A bancarização no Brasil era muito baixa, o número de pessoas que usavam o sistema financeiro, havia muita transação em espécie. Com o PIX, isso mudou radicalmente. O BC tem que continuar investindo nessa questão tecnológica.

Se o senhor pudesse dar um conselho para quem está nessa cadeira de presidente do BC, qual seria?
O título de um livro que eu lancei o ano passado: calma sobre pressão. É normal a pressão sobre o Banco Central. Basta seguir normalmente, seguir os modelos, tomar as decisões técnicas, que é o que tem sido feito.

Link da publicação: https://platobr.com.br/meirelles-trump-impoe-ineficiencia-ao-mundo-com-custo-maior-para-os-americanos/

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