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Mais do que protecionista, o presidente dos EUA, Donald Trump, parece guiado por uma “mentalidade de comerciante”, aberta, portanto, a negociações mesmo com estratégia de negociação pouco amistosa, avalia o economista Edmar Bacha, integrante da equipe que criou o Plano Real, em entrevista ao GLOBO.
Por isso, a nova política comercial da Casa Branca é uma ameaça menor do que o plano de usar a elevação de tarifas para proteger e impulsionar a indústria manufatureira americana, isso, sim, um problema.
Lembra até o caso do Brasil. Há anos, Bacha tem chamado a atenção para os malefícios do fechamento comercial da economia brasileira, mesmo após alguma abertura no início dos anos 1990 e a estabilização conquistada pelo Real. A seguir, os principais trechos da entrevista:
O tarifaço de Trump inaugura uma nova era de protecionismo?
Não sei se eu qualificaria o Trump como protecionista, sabe? O Trump acho que tem uma mentalidade, assim, do comerciante que ele é. O comerciante compra coisas para revender. E a regra básica do comerciante é que o valor do que você compra tem que ser menor do que o valor que você vende, para ter lucro.
O Trump está aplicando essa lógica do comerciante que ele é para os EUA como todo. As pessoas falam que ele é um mercantilista, mas o mercantilismo dele nasce não de uma concepção doutrinária, eu creio, mas simplesmente desse instinto, do comerciante. Para ele, os déficits comerciais dão prejuízo para os EUA. Ele usa essa palavra, é como um comerciante faria.
Quais as consequências dessa visão?
Ele quer reduzir o prejuízo dele. E teria duas estratégias para isso. Uma é começar a vender mais, mas aí ele enfrentaria o protecionismo dos demais países. Então, ele adota outra estratégia: vai comprar menos, isso ele pode fazer. Põe umas tarifas, para comprar menos.
A regra que eles usaram faz sentido nisso. É baseada no fato: “eu não gosto de ter prejuízo, a maneira de reduzir o meu prejuízo é comprando menos daqueles países com quem eu tenho mais prejuízo”.
A segunda parte da visão de comerciante é que ele sabe que, se os negócios diminuírem, mesmo que ele tenha menos prejuízo, o lucro dele também vai cair. Então ele está usando isso, pela maneira que eu entendo, porque quer exportar mais, mas ele acha que os outros países não vão deixá-lo exportar mais, a menos que ele ameace os parceiros.
Essa estratégia de negociação não é propriamente muito amistosa. É a estratégia do grandão valentão que entra no bar dando tiro.
Pode detonar uma nova guerra comercial?
Tem que ver como é que vai ser a reação. A Europa já deixou muito claro que está preparando as medidas e, particularmente, pode atingir os EUA no coração. A Europa tem um superávit de bens, que foi o que o Trump enfatizou naquela tabelinha dele, mas tem um déficit em serviços. Estamos falando de bancos, engenharia, medicina e tecnologia. São os setores líderes da economia americana.
A China retaliou…
É isso, provocou outro comerciante durão, que respondeu à altura. Meu sentimento é que ainda vão sentar para negociar, mas, antes disso, as coisas poderão piorar.
É parecido com os anos 1930?
Não é como os anos 1930, quando a ideia era que os países estavam com problema de desemprego e tentaram resolver esse problema transferindo a demanda de importações para a demanda de produtos internos. Era um período de recessão.
Agora, o mundo não está em desemprego, os EUA estão em pleno emprego. Aí entra outra questão que está no ideário do Trump, que é a questão da manufatura, porque não é só que ele queira comércio equilibrado.
Ele quer recuperar a indústria.
Sim. E aí as coisas começam a ficar complicadas, porque isso pode ser muito danoso. A razão por que a indústria se globalizou é que as cadeias internacionais de valor, através das quais os bens industriais são hoje produzidos, são muito mais econômicas do que você tentar produzir tudo em casa.
Essa proteção para a indústria lembra o Brasil, não?
Lembra o processo de substituição de importações, que começamos a fazer nos anos 1950 e nunca mais paramos. E nossa indústria é essa porcaria, incapaz de concorrer internacionalmente, porque só está totalmente integrada entre si, não importa qual é o custo das partes, das peças, dos componentes. O preço vai para as alturas, e o brasileiro que compre.
Pode acontecer isso nos EUA?
É impossível imaginar isso nos EUA. Em alguma hora a reação vai ser tão grande que eles vão ter que dar marcha atrás. E, se não derem, ele (Trump) vai pular fora. A resposta vai vir nas urnas. Alguma hora, o Trump vai se dar conta de que essa estratégia é perdedora, do ponto de vista da política eleitoral. Em boa parte, pelos efeitos que ela vai ter, se for implementada, sobre inflação e sobre a atividade econômica.
E como fica o Brasil?
Realisticamente, o que o Brasil tem que fazer agora? Ficar parado. O problema não é nosso. A China reagiu impondo tarifas, quem vai exportar mais soja para os chineses? A gente tem a ganhar nos dois mercados.
É uma chance para abrir mais a economia do Brasil?
Pensando estrategicamente, o que eu acho difícil que este governo, com a sua vocação protecionista, vá fazer, daria para entender que o Trump é um comerciante e quer exportar mais, mas ele não se incomoda de importar mais também, pois quer aumentar o volume de negócios. Então, vou negociar com ele para reduzir as minhas tarifas e aumentar meu comércio com ele.
Como não queremos enriquecer, porque não queremos participar de nada do comércio mundial — queremos é fazer a Nova Indústria Brasil, queremos construir mais navios aqui —, não vai acontecer nada. Quer dizer, no próximo governo a gente discute uma política racional.
Se estivéssemos conversando sobre um governo racional, ou seja, sobre 2026 em diante, poderíamos expandir o acordo comercial com a União Europeia, fazer uma tentativa de acordo com a China, com todos os cuidados que isso necessita.
Link da publicação: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2025/04/05/trump-tem-mentalidade-de-comerciante-e-negocia-ameacando-parceiros-diz-edmar-bacha.ghtml
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