No mundo da política, há inúmeros argumentos em favor do aumento dos gastos públicos; prefiro me ater a fatos
Estadão
Terminei 2025 dizendo nesta coluna que deveremos ter um aumento das despesas do governo em 2026. Começo o ano verificando que já temos os primeiros sinais disso. Logo no primeiro dia de janeiro, o Estadão mostrou que o Congresso deixou R$ 11,3 bilhões em despesas obrigatórias deste ano a descoberto no Orçamento. Como não existe a possibilidade de cortar despesas obrigatórias por lei, o governo terá de encontrar um meio de honrá-las — e a história recente mostra que a saída deve ser pelo aumento de gastos.
A reportagem do Estadão diz que os R$ 11,3 bilhões foram cortados de despesas previdenciárias, do seguro-desemprego, de transferências para estados e municípios e do repasse ao fundo da educação, entre outras rubricas, para que fosse possível aumentar o gasto com emendas parlamentares, que atingem R$ 62 bilhões.
Anos eleitorais são de aumento de despesas, seja por parte do governo, seja por parte do Congresso, que se tornou controlador de uma parte maior do Orçamento por meio das emendas. É o confronto entre um objetivo de curto prazo — a eleição — com uma questão de longo prazo — a sustentabilidade da economia brasileira.
O aumento dos gastos alimenta o crescimento da dívida bruta do governo, que atingiu 79% do PIB em novembro, nível alto para um país como o Brasil, considerado emergente pelos analistas e investidores nacionais e internacionais. Em última instância, é essa tendência de expansão dos gastos, que aumenta a inflação, que fez o Banco Central elevar os juros ao atual patamar de 15% ao ano. O surgimento de novas despesas e a tendência de alta da dívida desautorizam projeções de redução dos juros a curto prazo. Se a política fiscal é expansionista além da capacidade, a política monetária tem de ser contracionista para trazer a inflação à meta e manter a estabilidade da economia.
No mundo da política há inúmeros argumentos em favor do aumento dos gastos públicos. Eu prefiro me ater a fatos. As projeções do mercado indicam um crescimento menor do PIB em 2026, de 1,80% contra 2,20% em 2025 (uso os dados do último relatório Focus de 2025, de 29 de dezembro). É o resultado desse cenário em que o governo acelera e o BC freia para manter a economia estável.
Os melhores momentos da história recente da economia brasileira ocorreram quando as políticas monetária e fiscal — governo e BC — caminharam na mesma direção. Isso aconteceu durante os dois primeiros mandatos do presidente Lula, quando eu era o presidente do Banco Central: o País cresceu 4% ao ano em média, foram criados 10 milhões de empregos, e 40 milhões de pessoas saíram da pobreza.
Link da publicação: https://www.estadao.com.br/economia/henrique-meirelles/mais-gastos-em-2026-ja-temos-os-primeiros-sinais-disso/
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