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Na luta pelo rebaixamento

A investida de Trump contra o Fed terá consequências muito ruins

Estadão

Em seu afã de tornar os EUA um país emergente, Trump – por meio dos procuradores do Department of Justice – anunciou que tentará indiciar criminalmente Jerome Powell, o presidente do Federal Reserve, pelo estouro no custo da reforma dos prédios da instituição e, supostamente, por ocultar informações acerca do tema em seu depoimento ao Senado.

Foi um movimento surpreendente, seja pela gravidade das acusações, seja porque Powell deve deixar a presidência do Fed em maio deste ano. Por que incorrer em tamanho custo, econômico e político, quando o calendário resolveria a questão em apenas quatro meses?

Dois motivos me ocorrem. O primeiro está associado às particularidades do funcionamento do Fed. Embora o mandato de Powell como presidente se encerre em maio, seu mandato como membro da diretoria só acaba em janeiro de 2028. Ainda que haja apenas um caso de presidente que seguiu como diretor (Marriner Eccles, em 194851), Trump quer garantir que Powell não siga este exemplo, abrindo vaga adicional para um indicado seu ainda este ano.

Neste aspecto, isto não difere da tentativa de afastar outra diretora, Lisa Cook, com base em acusações tão frágeis como as que miram Powell. É claro que Trump quer assegurar a maioria de indicados na diretoria para influir na política monetária.  Segundo ele, a taxa de juros básica deveria cair para 1% ao ano, mesmo com a inflação acima da meta, política que meu antigo professor Barry Eichengreen classificou, em termos técnicos, como rematada “loucura”.

O segundo motivo é relacionado, mas distinto. Trata-se de sinalização acerca de quão longe a administração pode ir caso diretores (e presidente) do Fed não se submetam aos desejos do presidente. No caso, muito longe, como se vê.

Em condições normais, nenhum dos casos deveria prosperar (Powell inclusive já havia enviado carta ao Senado no ano passado com as informações sobre a reforma), mas não vivemos em condições normais.

O que pode ocorrer se a independência do Fed for, na prática, revogada por tais iniciativas? Vejo algumas possibilidades.

Desvalorização adicional do dólar e elevação das expectativas de inflação, por consequência da própria inflação. Aumento das taxas de juros de longo prazo, que passariam a refletir os receios de expropriação por meio da inflação mais alta. Por fim, aceleração do processo de substituição do dólar como moeda de reserva.

Melhor torcer para que a suposta solidez das instituições americanas não deixe este tipo de coisa progredir. É o que nos resta.

Link da publicação: https://www.estadao.com.br/economia/alexandre-schwartsman/a-investida-de-trump-contra-o-fed-tera-consequencias-muito-ruins/

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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Alexandre Schwartsman