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Coragem de ser independente

A economia e o sistema financeiro dos Estados Unidos estão assentados sobre a independência do Federal Reserve

Estadão

“A principal qualificação de um presidente de banco central é a coragem”. A frase é de Allan Meltzer, grande economista americano, meu amigo. Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, terá de demonstrar coragem diante da pressão exercida pelo presidente Donald Trump, que deve durar até o fim de seu mandato como chairman, em maio. Até agora, Powell tem se saído bem e, em consequência, atraído uma onda de apoio a si e ao Fed.

Powell agiu corretamente ao responder na semana passada a críticas e atitudes de Trump, que discorda de sua política monetária, procura desgastá-lo publicamente e intimidá-lo. Agiu como um presidente de banco central deve agir quando sua autoridade é questionada. No embate, a vantagem até agora é de Powell e do Fed.

O mercado financeiro ficou ao lado de Powell, ressaltando a importância da independência do Fed para a economia americana. Os três últimos presidentes do Fed – Allan GreenspanBen Bernanke e Janet Yellen – deixaram seu silêncio respeitoso para divulgar uma carta de apoio a Powell e à importância do respeito à independência do Fed.

Tal movimento se justifica. O Fed é independente desde 1951. A economia e o sistema financeiro americanos estão assentados sobre a premissa de que o Fed é independente, decide sobre a taxa de juros a cada 45 dias com base nos melhores dados sobre a situação da economia, sempre para manter a inflação sob controle e garantir a estabilidade da economia.

As atitudes de Trump destoam da tradição de respeito a esse sistema. Apesar do barulho, o resultado foi amplamente favorável ao Fed. Nunca sua independência foi tão valorizada. O mercado sabe que a taxa de juros é transitória, mas respeitar esse arranjo institucional é condição essencial para a estabilidade da economia americana e mundial.

No ano passado, escrevi aqui que o problema real acontecerá em maio, quando termina o mandato de Powell. O presidente poderá indicar um chairman do Fed disposto a fazer suas vontades. Os chairmen do Fed que fizeram o que os presidentes mandaram colaboraram para jogar o país em fases de alta inflação e baixo crescimento.

Na última dessas ocasiões, na década de 1970, o chairman do Fed Arthur Burns atendeu aos pedidos do presidente Nixon para manter uma taxa de juros artificialmente baixa. Para retomar o controle da inflação foi necessário que Paul Volcker, chairman nomeado pelo presidente Jimmy Carter, tivesse coragem para elevar os juros a 20% ao ano e aguentar as críticas. A coragem, como a demonstrada atualmente por Jerome Powell, é a única saída.

Link da publicação: https://www.estadao.com.br/economia/henrique-meirelles/coragem-de-ser-independente/

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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Henrique Meirelles