Como enfrentar o que esses bravos, por isso muitas vezes perseguidos, jornalistas nos têm apresentado?
Horácio Lafer Piva, Pedro Passos e Pedro Wongtschowski
Globo
Todos temos visto histórias cada vez mais sórdidas de políticos, eleitos ou nomeados, e de servidores dos três Poderes, em áreas que vão da fiscalização à regulação, acusados por malfeitos e corrupção. Em alguns casos, há evidente conflito de interesse com familiares prestando serviços a instituições dirigidas por parentes, ou empresas de advocacia defendendo causas em que maridos ou pais são juízes. Há ainda viagens instagramáveis em aviões executivos, postos à disposição de autoridades para atividades de grande interesse nacional, como jogos de futebol, corridas de automóveis e torneios de tênis. Há contratos com sindicatos que beneficiam funcionários públicos, há deputados financiados pelo crime organizado ou por devedores contumazes. Há emendas parlamentares gerando compromissos em que os beneficiários são, ao final, os próprios parlamentares autores delas. Há ainda empresas especializadas em eventos realizados em locais atraentes como Lisboa, Nova York, Londres ou Paris, patrocinados por empresas públicas e privadas, em que autoridades brasileiras maravilhadas falam em português a uma plateia de brasileiros deslumbrados. Aqui o que se vende é a possibilidade de uma conversinha de corredor ou de jantar privado de um empresário e um gestor público. Aliás, e por essas razões, são discussões que trariam benefícios bem maiores se realizadas no Brasil, e dado o discreto público de representantes dos países onde acontecem, a custo financeiro e ambiental bem menor se eles para cá viessem, e não o contrário.
O momento é alarmante, o espanto é geral, a corrupção vagueia sorrateira, as lambanças são evidentes ao olhar do mais simples cidadão. Não obstante outrora fases dramáticas de nossa jovem democracia, pouco se recorda de quadra tão crítica e de tamanha desconfiança nas instituições.
Mas há um reconhecimento a fazer. À imprensa. Não obstante também nela haver polarização e, como em todos os extratos, profissionais mal-intencionados, dela tem vindo a luz que permite o flagrante dos detalhes e a urgência de diagnósticos e ação.
A pergunta sempre mal respondida de quem são os corruptos e, em especial, os corruptores emerge aos poucos. A cada servidor público beneficiado com alguma benesse, a cada advogado amigo favorecido, há por trás um interessado. Escândalos como o do INSS, roubando à luz do dia os aposentados ou quadrilhas que se formam para sustentar o poder político estão nas manchetes diárias. O crime organizado, que se apropriou de parte significativa da economia do país, aparece cada vez mais como fruto de várias parcerias. Se não há corrupção sem alguém que aceite se corromper, também não haveria corrupção sem corruptores. A ação antes individual se transformou num sistema complexo, transversal.
Talvez por isso, nas últimas décadas a grande maioria das empresas adotou práticas de compliance, criou ouvidorias ou nomeou ombudsmen (apesar do nome, de ambos os sexos), estabeleceu códigos de conduta, estabeleceu comissões de ética e canais de denúncia. É provável que essas medidas tenham tido como efeito uma redução do nível de irregularidades ou de iniciativas de funcionários em comprar facilidades junto a órgãos ou servidores públicos. Mas a verdade é que há um crescente número de empresários que não se submete às regras criadas pelas próprias empresas; nestas, as normas só parecem aplicar-se à base da pirâmide.
Merecido destaque deve ter a imprensa, já que foi ela que acionou o gatilho expondo a dimensão e o alcance do problema e que foi também uma das responsáveis pela criação dos mecanismos de proteção empresarial. De positivo, portanto, é o trabalho espetacular de parte desse segmento, que, de forma profissional e corajosa, faz o que o restante não se atreve ou não quer fazer, ancorando nossa frágil democracia.
Como enfrentar o que esses bravos, e por isso muitas vezes perseguidos, jornalistas nos têm apresentado? Como restabelecer um código moral, republicano, cidadão neste circo de horrores em que se transformaram nossos dias? Como acabar com o excesso de tolerância que interpretações generosas das leis, e a desatenção da sociedade, dedicam a réus confessos, tantas vezes liberados de crimes flagrantes?
Num ano eleitoral em que se devem renovar esperanças, cabe dar o nome certo a nossos desassossegos, ampliar a discussão do que está além da política e economia, mas a elas tanto afetam, e agir. E agradecer, muito, ao que a imprensa tem nos permitido conhecer.
Link da publicação: https://oglobo.globo.com/opiniao/artigos/coluna/2026/01/corruptos-e-corruptores-a-luz-da-imprensa.ghtml
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