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Um problema nuclear

Adotar uma meta para a inflação auferida por uma medida de núcleo abalaria a legitimidade do regime perante a população

Valor

Um dos desafios do regime de metas para a inflação é que a dinâmica de preços pode ser afetada, por vezes intensamente, por choques não relacionados à gestão de demanda (sejam de origem climática ou geopolítica). Duas alternativas têm sido usadas para lidar com esse problema. A primeira é focar em medidas de pressão inflacionária que sejam imunes, ou virtualmente imunes, a esse tipo de choque (os núcleos de inflação). A segunda é continuar perseguindo o índice de inflação cheio, e adotar um intervalo de tolerância em torno da meta.

A primeira opção em tese inibe uma volatilidade excessiva da política monetária, ao desobrigar as autoridades de reagir a choques transitórios. Por outro lado, o conceito de núcleo de inflação pode ser familiar para economistas e participantes do mercado, mas não é para a grande maioria da população, e sua adoção como o objetivo da política monetária reduziria a credibilidade e mesmo a legitimidade do regime — ainda mais em países, como o nosso, com histórico inflacionário infeliz. A decisão, muito acertada, tomada em 1999, foi perseguir um índice cheio, representativo, o IPCA, com um intervalo de tolerância em torno da meta numérica. A propósito, o conceito de “centro da meta”, por vezes mencionado, não aparece na legislação que embasa o regime, o que temos é uma meta numérica explícita, por muito tempo 4,5% e atualmente 3%, e intervalos de confiança em torno dessas metas.

Isso não quer dizer que os núcleos de inflação tenham sido abandonados por completo na experiência brasileira com o regime de metas. Tanto banco central quanto os analistas independentes continuam compilando e analisando as medidas de núcleo para a inflação. Na verdade, tem ocorrido uma proliferação de medidas de núcleo.

O Banco Central (BCB) trabalha atualmente com sete medidas de núcleo para a inflação, algumas calculadas pela simples exclusão de itens cuja dinâmica pode guardar relação tênue com a demanda agregada e, assim, a política monetária, e outras de cunho estatístico.

Entre os núcleos por exclusão, temos o IPCA-EX0 (que exclui alimentação no domicílio e itens administrados), o IPCA-EX1 (exclui variações de combustíveis e dez itens mais voláteis do subgrupo alimentação no domicílio), o IPCA-EX2 (indicador subjacente de serviços, industriais e alimentação, que exclui itens como turismo, cursos, etanol, automóveis, entre outros) e o IPCA-EX3 (que exclui os mesmos preços de bens industriais e serviços, mas não de alimentação). Entre as medidas estatísticas, temos o IPCA-MS, médias aparadas com suavização, que remove 20% das maiores e menores variações, com suavização de itens, como mensalidades escolares, que têm reajustes pouco frequentes. Há também o IPCA-DP, Dupla Ponderação, no qual os itens são ponderados, além do peso na cesta de consumo, por sua volatilidade. Há também outras reponderações: serviços reponderados pelo peso do custo da mão de obra, o mesmo excluindo passagens aéreas; serviços subjacentes reponderados pelo custo da mão de obra (médicos e estética). Finalmente, existe a medida de núcleo que considera apenas os itens mais sensíveis à evolução do custo de mão de obra (MDO).

A utilidade de uma medida de núcleo depende de dois critérios: se o índice tem viés em relação ao índice cheio, que é o objetivo da política monetária, e qual é a capacidade preditiva do indicador. Minha colega Luciana Rabelo fez uma investigação sobre as várias medidas de núcleo e chegou a conclusões interessantes. Ela considerou o período 2006-2019 e 2023-2025, para excluir os atípicos anos da pandemia.

A primeira conclusão é que a maioria das medidas de núcleo tende a superestimar as variações do IPCA no curto prazo. Conclusão importante para aqueles que, volta e meia, sugerem a troca do índice cheio por uma medida de núcleo, como o foco da política monetária (visando, claro, a uma política monetária mais acomodativa). A medida de núcleo com menor viés é a de médias aparadas suavizadas. Quanto à capacidade preditiva, várias medidas de núcleo têm desempenho razoável (melhor do que um caminho aleatório), com destaque para as medidas reponderadas e o indicador sensível ao custo de mão de obra.

Considerando todos os indicadores e resultados, as medidas de núcleo, não todas, têm sua utilidade, mas esta é limitada. Os núcleos, em geral, apresentam viés em relação à inflação cheia, que mede a variação do custo de vida sofrida pela população e sua capacidade preditiva não chega a ser brilhante. Isso sugere que o peso dessas medidas na avaliação da inflação e dentro do conjunto de informações utilizado para monitorar a dinâmica dos preços e desenhar a estratégia de política monetária deve ser relativizado — como, na prática, costuma acontecer. O foco em medidas de núcleo não substitui a análise detalhada do comportamento dos distintos subgrupos dentro do IPCA.

Ideias econômicas ruins, como adotar uma meta para a inflação auferida por uma medida de núcleo, têm o hábito de reaparecer de tempos em tempos no Brasil. O estudo citado, entre outros, mostra que tal mudança ensejaria consideráveis dificuldades técnicas — diferentes economistas têm diferentes medidas preferidas de núcleo para a inflação. Mais importante, abandonar a meta para a inflação cheia a favor de uma meta para alguma medida de núcleo abalaria substancialmente a legitimidade do regime perante a população.

Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/mario-mesquita/coluna/um-problema-nuclear.ghtml

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Sobre o autor

Mario Magalhães Carvalho Mesquita