Estadão
A queda da Selic não irá estabilizar a dívida
O ministro da Fazenda, sempre ele, afirmou que “a esperada trajetória de queda na taxa básica de juros deve levar o indicador da dívida pública para um patamar razoável”. Lamento informar, mas, de novo está errado. Tentarei ilustrar o problema de forma que até Haddad possa entender.
Espera-se que a Selic caia para 12,25% ao final deste ano e 10,50% em dezembro do ano que vem. Isto corresponderia a uma Selic média na casa de 13,5% em 2026 e 11,0% em 2027. Descontada a inflação, 9% e 7% respectivamente.
Dado que a dívida do governo já atinge 80% do PIB, apenas em 2026 seu custo alcançaria em torno de 7,3% do PIB. É bem verdade que a economia deve crescer este ano, o que tende a reduzir a dívida medida como proporção do PIB. Suponhamos que o crescimento fique em 2%, algo acima das projeções do BC. Tal efeito reduziria a dívida em cerca de 1,6% do PIB.
A dívida cresceria, portanto, em torno de 5,7% do PIB apenas pela interação entre juro e crescimento. Para compensar este resultado o governo precisaria gerar um superávit do mesmo tamanho em suas contas.
Todavia, como foi anunciado esta semana, o Tesouro registrou déficit de 0,5% do PIB, o dobro que seria permitido pelo arcabouço fiscal, fato contornado apenas pela curiosa prática de excluir despesas da meta fiscal. Para 2026 o governo promete déficit de 0,2% do PIB, mas, a exemplo do ocorrido no ano passado, deve ser bem maior, 0,5-0,6% do PIB.
A dívida, portanto, deve continuar a crescer. Não poderia ser considerado como surpresa, já que toda vez que o Tesouro projeta o comportamento da dívida sua previsão supera a anterior. A edição de janeiro deste ano aponta para dívida atingindo 88% do PIB em 2035 sob hipóteses otimistas quanto a crescimento (2,8% ao ano por 10 anos), juro real (4,5%), assim como novas medidas de ajuste para atingir as metas fiscais.
Estas projeções oficiais – a despeito de seu otimismo quanto ao crescimento sustentável da economia, da queda de juros e das medidas de ajuste – desmentem o ministro da Fazenda. Mesmo com juro muito mais baixo do que o atual, a dívida continuaria crescendo, essencialmente porque o governo é incapaz de gerar um superávit primário digno do nome guiando-se apenas pelas suas próprias metas.
A conclusão – a mesma desde 2023 – é que o arcabouço fiscal, criação do ministro e seus asseclas, é inadequado para estabilizar o endividamento do governo. A Selic alta é reflexo disto, não sua causa. Enquanto Haddad não entender o básico, seguiremos sem solução na frente fiscal.
Link da publicação: https://www.estadao.com.br/economia/alexandre-schwartsman/por-que-a-esperada-queda-na-taxa-basica-de-juros-sera-insuficiente-para-estabilizar-a-divida-publica/
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