Folha
Na semana que passou, o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central decidiu manter a taxa Selic constante em 15%. Havia grande dúvida se o ciclo de queda da taxa de juros iria se iniciar agora ou em março.
O comunicado, divulgado no início da noite de quarta-feira (28), afirmou que “O Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”.
O plano é iniciar um ciclo de queda da taxa Selic em março, mas a uma velocidade suficiente lenta, de forma a manter a política monetária em terreno contracionista.
Segundo o Copom: “O compromisso com a meta impõe serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo, que dependerão da evolução de fatores que permitam maior confiança no atingimento da meta para a inflação no horizonte relevante para a condução da política monetária”.
Na sexta-feira (30), o IBGE divulgou os dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) referentes ao quarto trimestre de 2025. A taxa de desemprego continuou em queda. A desocupação fechou o trimestre em 5,1%, e a média para o ano foi de 5,6%.
Ambas foram as menores leituras para um trimestre e para um ano desde o início da série, em 2012. Os números são os menores desde 1996, segundo uma série do FGV Ibre que retropola (leva para trás) a nova Pnad. Tudo sugere que mudanças estruturais permitem que o mercado de trabalho brasileiro opere com taxas de desemprego menores. Tratei desse tema em outubro do ano passado.
No entanto, preocupa o comportamento dos salários. No quarto trimestre de 2025, ante o quarto trimestre de 2024, os salários cresceram 5% em termos reais. Para a mesma base de comparação, a massa salarial real cresceu 6,4%.
A evolução dos salários certamente será um tema que a próxima reunião do Copom tratará com muito cuidado. A grande preocupação é que os salários têm crescido acima da produtividade do trabalho. Salários crescerem mais do que a produtividade do trabalho sinaliza que a inflação irá acelerar à frente.
Quando os salários sobem acima da produtividade, há uma tendência de aceleração da inflação de serviços. De fato, na terça-feira (27) passada, o IBGE divulgou a prévia da inflação de janeiro, conhecida por IPCA-15. O índice, de 0,2%, veio ligeiramente abaixo do que se imaginava, 0,22%.
A desinflação continua muito movida pela valorização do real ante o dólar. No entanto, os serviços muito intensivos em trabalho, uma parte dos serviços que representam 6% do IPCA, têm acelerado: nos 12 meses terminados em janeiro de 2026, a prévia da inflação marcou 6,7% para os serviços intensivos em trabalho, e, para o trimestre terminado em janeiro, a inflação de serviços intensivos em trabalho foi de 7,6%.
Para iniciar um ciclo de corte de juros, é necessário esperar o mercado de trabalho “virar” e observarmos queda da inflação de serviços? Não é o caso. A economia tem dado sinais claros de que está em desaceleração.
Como o Copom nos avisou, o ciclo de queda da taxa de juros, inicialmente pelo menos, tem como função reduzir o grau de contração monetária e não produzir expansão monetária. Se o Copom demorar muito para iniciar o ciclo de queda, é possível que fique atrasado e tenha de administrar uma desaceleração muito intensa da atividade econômica.
Se nada de muito anormal ocorrer, o ciclo de queda deverá se iniciar em março próximo.
Link da publicação: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/samuelpessoa/2026/01/se-nada-anormal-acontecer-juros-comecam-a-cair-em-marco.shtml

