Folha
Afirmei no último parágrafo da coluna passada que, “nos últimos 30 anos, o salário mínimo real cresceu 188% para um crescimento da produtividade do trabalho de 30%”. “Estamos testando os limites de nossa social-democracia. Os juros elevados são o sintoma desse fato.”
A leitora Isabel Pitta comentou que “Samuel Pessôa ignora a queda de 50% no salário no período dos anos 1950-1960 até o valor do início do Plano Real, ponto de partida para sua análise enviesada. Procurem por “Ipeadata salário mínimo real” e confiram. Melhores salários anteriores foram com Vargas e João Goulart“.

O quadro acima apresenta a evolução do salário mínimo real (a preços de janeiro de 2026). A afirmação da leitora está correta. Houve forte queda do salário mínimo real de 1960 a meados de 1991. Agradeço a Isabel pelo comentário.
O mesmo gráfico mostra que o salário mínimo antes do ciclo atual era claramente uma política insustentável. A base material da economia, isto é, a produtividade do trabalho, não sustentava o salário mínimo fixado em lei. O resultado era muita inflação e uma tendência de queda permanente. Havia aumentos que eram imediatamente corroídos pela inflação.
A política de valorização do salário mínimo após o Plano Real tem a marca da relativa sustentabilidade. Em vez de conviver com a inflação elevada e em aceleração, temos convivido com juros reais elevados.
Com relação à comparação histórica que a leitora Isabel Pitta fez, há duas observações que, me parece, tornam indevido o adjetivo “enviesada” empregado à minha análise: 1) o salário mínimo no passado aplicava-se ao trabalho urbano. Atingia, provavelmente, menos de metade da população ocupada no início dos anos 1960; 2) no passado, nós não tínhamos ainda construído nosso Estado de bem-estar. Aumentos do salário mínimo não impactavam o Orçamento público como ocorre agora.
Finalmente, o vale do salário mínimo foi em 1951, com a média de R$ 378. O crescimento acumulado de 1951 até 2024 foi de 297%. No mesmo período, a produtividade do trabalho, já incorporando as novas estimativas sobre a evolução da produtividade para o século 20 de Bacha, Tombolo e Versiani, avançou 204%. A produtividade da economia americana avançou 355% na mesma comparação. O salário mínimo é baixo pois a produtividade é baixa.
Como afirmei na semana passada, a retomada da política de valorização do salário mínimo e a reindexação do gasto com saúde e educação à arrecadação elevaram o gasto primário de 2026 em R$ 210 bilhões. No terceiro mandato do presidente Lula, a dívida pública crescerá 10% do PIB. Para construir um equilíbrio macroeconômico com juros menores e estabilidade da dívida pública, teremos de manter, durante muitos anos, o valor real do salário mínimo sem aumentos adicionais e indexar o gasto com saúde e educação ao crescimento demográfico.
Link da publicação: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/samuelpessoa/2026/02/dialogo-com-uma-leitora.shtml
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