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Jornada laboral e escolhas da sociedade

Folha

No domingo passado, reportagem do jornalista Rafael Cariello publicada nesta Folha gerou muita polêmica. Rafael divulgou o estudo do economista Daniel Duque, do FGV Ibre, que mais tarde seria publicado no blog do instituto. O estudo avaliou a jornada de trabalho brasileira em comparação com a de outros países.

A partir de uma base de dados recentemente produzida pelos economistas Amory Gethin e Emmanuel Saez, que documenta jornadas médias para diversos países ao longo de décadas, Daniel Duque estuda a posição do Brasil. Daniel calculou uma relação entre a jornada para cada ano e cada país em função de diversos determinantes da jornada. Esses determinantes são observados para cada país e cada ano.

Daniel considerou os seguintes determinantes: a produtividade do trabalho, a demografia, a tributação e as transferências governamentais. Além desses determinantes, é possível recuperar uma constante fixa para cada país.

A constante fixa mensura os determinantes da jornada de cada país associados às instituições e preferências que são constantes e específicas a cada um dos países. Se a constante para um dado país é negativa, significa que o efeito específico do país é reduzir a jornada em relação à média entre os países. Vice-versa se a constante de país for positiva.

O resultado é que a constante brasileira fica um pouco abaixo da mundial. Os homens trabalham no Brasil em média meia hora a menos por semana do que o esperado dadas nossa produtividade, demografia, tributação e transferências. As mulheres trabalham 1 hora a menos.

É possível que esse resultado seja devido ao custo de deslocamento do trabalhador. No entanto, a constante de cada país, também chamada de efeito fixo, é positiva para: Argentina (1,2 hora a mais que o esperado por semana), Chile (1,2), Colômbia (5,1), México (1,4), Paraguai (1,2), Peru (1,9) e Uruguai (2,3). A deficiência de infraestrutura urbana não é especificamente brasileira. Trata-se de uma característica latino-americana.

O efeito fixo para os países asiáticos é imenso. Os homens no Japão e na Coreia trabalham, respectivamente, 6,6 e 5,2 horas semanais a mais do que o esperado pela sua produtividade e demografia. O efeito fixo para o trabalho feminino também é expressivo, respectivamente de 3,4 e 7,5 horas semanais. Por outro lado, o efeito fixo para diversos países europeus, como é o caso de Alemanha, França, Espanha e Portugal, é menor do que o brasileiro.

O resultado do estudo é que a alegação de que as jornadas de trabalho no Brasil são longuíssimas e equivalentes a uma nova escravidão não sobrevive à comparação internacional. Isto não significa que a jornada não deva ser reduzida. Esta é uma escolha social que tem custos e benefícios e que somente o Congresso Nacional tem legitimidade para determinar.

O estudo de Daniel Duque é um elemento a mais que pode ser considerado no processo de tomada de decisão do Congresso.

Link da publicação: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/samuelpessoa/2026/02/jornada-laboral-e-as-escolhas-da-sociedade.shtml

As opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Sobre o autor

Samuel Pessôa