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Dados mostram que países mais integrados ao comércio exterior são mais ricos; encarecer tecnologia é receita para crescer menos
No começo de fevereiro, o governo elevou tarifas de importação sobre máquinas, equipamentos, produtos de informática e telecomunicações. Ontem houve um recuo, mas apenas parcial. A medida original foi justificada pelo aumento recente das importações, visto como excesso a corrigir. A ideia parece simples: se as importações cresceram demais, basta encarecê-las. O problema é que essa lógica ignora fatos básicos da economia brasileira.
Os dados ajudam a esclarecer a questão. O gráfico abaixo relaciona a parcela das importações no PIB em um ano com o PIB per capita do ano seguinte, desde meados dos anos 2000. A mensagem é sugestiva: anos em que o país importa relativamente mais tendem a ser seguidos por níveis mais altos de renda. Outras variáveis, como a onda de commodities entre 2010 e 2013, intervêm, mas o padrão é recorrente, não episódio isolado.

Diversos estudos acadêmicos comprovam a existência da relação positiva entre importações e renda sugerida pelo gráfico. A intuição é simples. Uma parcela relevante das importações brasileiras é composta de insumos produtivos — máquinas, equipamentos, componentes e tecnologia. Esses bens entram no investimento, incorporam progresso técnico e aumentam a capacidade de produzir. São justamente esses bens que o governo decidiu encarecer.
Importar mais não é desvio — é parte do crescimento. Isso não vale apenas para o Brasil. Os dados também mostram que países mais integrados ao comércio internacional são também mais ricos.
No Brasil de hoje, o aumento das importações reflete a recuperação pós-pandemia, a recomposição de estoques e a retomada do investimento. Não há nada de anormal nisso. Trata-se do comportamento típico de uma economia em expansão.
A nova política parte da ideia de que é possível reduzir importações sem afetar o crescimento. Isso equivale a supor que se pode produzir o mesmo com menos acesso à tecnologia. Não faz sentido. Cerca de três quartos das importações brasileiras são bens intermediários e de capital — insumos essenciais à produção.
Ao encarecê-los, encarece-se também a produção e reduz-se a produtividade. É como colocar um imposto sobre a tecnologia. O efeito imediato pode ser a queda nas compras externas. O efeito mais importante aparece depois: menor crescimento.
No fim, a escolha é simples. É possível ter menos importações ou mais renda. Taxar importações essenciais é taxar o próprio crescimento.
Link da publicação: https://oglobo.globo.com/opiniao/artigos/coluna/2026/02/a-ilusao-de-crescer-ao-se-fechar-ao-mundo.ghtml
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