Artigos

Brasil e os desafios da IA

A questão não é se a IA vai transformar a economia, mas se o país será proativo ou apenas reativo na absorção das novas tecnologias

Valor

É consenso que a revolução de inteligência artificial (IA) terá impacto heterogêneo, não só entre profissões e setores, mas também sobre países. A visão dominante é que o impacto de IA será mais intenso no setor de serviços. Sendo assim, economias, como as avançadas, nas quais o setor de serviços é mais importante, tendem a experimentar os maiores aumentos de produtividade e maior crescimento. Isto levaria a um aumento da distância entre os países ricos e os de renda média, e maior ainda ante os menos desenvolvidos.

O tema é abordado em estudos de instituições multilaterais, como aqueles preparados pelo BIS e o FMI, além das contribuições acadêmicas. A principal conclusão é que, apesar da vantagem inicial das economias avançadas, algumas emergentes estão relativamente bem-posicionadas, e há políticas que podem ajudar.

A China é o emergente com maior potencial para se beneficiar de IA; o Brasil fica no grupo intermediário

Os economistas do Fundo, na melhor tradição analítica da instituição, compararam aspectos econômicos e institucionais em um grupo de cerca de 170 economias e construíram um índice de prontidão para a adoção em escala de IA — AI Preparedness Index (AIPI). O índice tem quatro subcomponentes: infraestrutura digital, capital humano e mercado de trabalho, inovação e integração, e regulação e ética.

Infraestrutura digital se refere à cobertura e qualidade das conexões de dados. Uma das clivagens da economia mundial, que pode se intensificar, é justamente entre os bem conectados e os mal ou não conectados. Além da conectividade, o item leva em conta a penetração de e-commerce e meios de pagamento digitais, bem como a capacidade digital do governo.

O componente capital humano e mercado de trabalho se refere a níveis de educação, qualidade da mão de obra com treinamento superior, flexibilidade das regras trabalhistas e gastos públicos com a formação da força de trabalho. Um indicador considerado é o percentual de formandos em ciências, tecnologia, engenharia e matemática (STEM) no total daqueles que se graduam nas universidades.

Quanto à inovação, o subíndice reflete o percentual de gastos em pesquisa e desenvolvimento no PIB, publicações pertinentes sobre IA, e crédito para o setor privado. A parte de integração reflete o nível e intensidade de tarifas e instrumentos não tarifários de proteção, bem como o grau de mobilidade internacional de capital e trabalho.

Finalmente, a parte regulatória refere-se à adaptabilidade do arcabouço legal do país ao modelo de negócio de empresas digitais, bem como a efetividade do governo.

O AIPI vai de zero (nenhuma) a 1 (máxima) prontidão. O ranking de prontidão é liderado por Singapura (0,8), Dinamarca (0,78) e Estados Unidos (0,77). A propósito, na contramão da narrativa de declínio europeu, sete das dez economias com maior prontidão estão nesse continente. Não surpreendentemente, a China (0,64) aparece como a economia emergente com maior potencial para se beneficiar de IA.

O Brasil fica em posição intermediária (0,50), atrás do Chile (0,59) e México (0,53). Considerando os principais subcomponentes em termos absolutos, a distância ante os líderes global, e o regional, é explicada de forma praticamente uniforme, não há uma defasagem dominante. Já se consideramos o ranking entre países, os indicadores referentes a capital humano e legislação trabalhista e inovação/integração são nitidamente piores.

As deficiências do sistema educacional brasileiro são notórias. Minha colega economista (humana) Gabriella Garcia, em um estudo econométrico, concluiu que o AIPI de capital humano tem boa correlação com a nota do Pisa e com o PIB per-capita dos países. O Brasil poderia estar mais bem preparado, dado sua nota no Pisa e seu patamar de renda. A correlação da participação de graduados em cursos STEM com o AIPI de capital humano é positiva, mas baixa. Note-se que o Brasil tem baixa proporção de universitários em STEM (cerca de 17% em média, nos últimos dez anos), mas, há países que também tem baixa participação, como os EUA e, ainda assim, ocupam a quinta posição no mundo no AIPI de capital humano. Entre os destaques positivos, Singapura e Alemanha combinam alta participação em STEM e AIPI de capital humano elevado. É possível que se trate de uma questão de massa crítica, um percentual reduzido de uma população grande tende a gerar o talento necessário para assegurar a prontidão.

Quanto ao subitem inovação e integração, a defasagem não tem explicação difícil: a economia segue fechada, com muitas (e crescentes) barreiras à importação de bens, serviços e tecnologia. Para um país que não está na fronteira tecnológica, fechar-se para o mundo não parece fazer muito sentido. Repetir políticas que têm fracassado há muitas décadas, sem incorporar as melhores práticas internacionais, e achar que o resultado será diferente, é algo no mínimo intrigante.

Isso não quer dizer que não necessitemos avançar nas outras dimensões. Nenhuma economia consegue ficar pronta para as mudanças que estão por vir apoiada em apenas um dos quatro atributos. O desafio de estarmos preparados para essa nova realidade é enorme, e por isso deveria ser a prioridade, não uma das prioridades, para as políticas públicas pertinentes, caso o país queira sair do marasmo e alcançar taxas de crescimento mais elevadas. A questão não é se a IA vai transformar a economia, mas se o país será proativo ou apenas reativo na absorção das novas tecnologias.

O retrato que emerge do índice do FMI é menos uma sentença e mais um aviso. A prontidão resulta de escolhas conscientes e cumulativas. Infraestrutura digital, capital humano, inovação e regulação caminham juntos, e fracassar em qualquer um deles compromete o conjunto. Para o Brasil, o desafio não é descobrir o que precisa ser feito (isso está razoavelmente bem mapeado) e sim decidir, de fato, abraçar essa agenda como alavanca estratégica para o desenvolvimento futuro, em vez de se ater a certas discussões do passado.

Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/mario-mesquita/coluna/brasil-e-os-desafios-da-ia.ghtml

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Sobre o autor

Mario Magalhães Carvalho Mesquita