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Dívida das famílias indica limites do modelo petista de governar

Folha

No início de seu terceiro mandato, Lula criou o Desenrola Brasil. O programa criava condições especiais para a renegociação de dívidas de pessoas negativadas. Adicionalmente, o governo estabeleceu, adotando o modelo inglês, que o juro acumulado no empréstimo do cartão de crédito não pode ultrapassar 100% do empréstimo original.

Essas medidas surtiram efeito. O Desenrola renegociou R$ 52 bilhões, e a limitação ao acesso ao cartão de crédito, o muro inglês após os juros acumularem mais de 100% do crédito original, é efetiva.

Adicionalmente, a situação econômica melhorou muito para as famílias. Nos últimos três anos, a renda real do trabalho principal, medida pela pesquisa nacional por amostra de domicílios, cresceu 13,3%. A inflação de alimentos correu nesse período três pontos percentuais abaixo da inflação cheia. Finalmente, as taxas de desemprego estão nas mínimas históricas.

Como é possível que, com uma situação tão favorável da economia e após toda a renegociação das dívidas promovidas pelo Desenrola, o comprometimento da renda das famílias com dívidas tenha se elevado de 28%, no fim de 2022, para 29%, agora?

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Deve ter ocorrido o que os economistas chamam de risco moral. O Desenrola estimulou as pessoas a dobrar a aposta e tomar mais dívida, talvez já prevendo o Desenrola 2 para o início do próximo governo. Algo semelhante ocorre quando há um plano de renegociação de dívidas tributárias, os famosos Refis.

Ou seja, é necessário que, com as políticas públicas, o comportamento das pessoas mude. Recentemente o presidente Lula reconheceu esse fato. Em um evento em Goiás, afirmou:

“A economia está bem, mas nós temos a sociedade brasileira um pouco endividada. Eu vou tentar explicar para vocês o seguinte. Quando a gente tem uma dívida porque a gente comprou um patrimônio novo, por exemplo, uma dívida que você está comprando uma casa, é uma dívida boa. Porque você está devendo, mas você comprou um patrimônio. Se você quiser vender, você vai ganhar dinheiro nisso. […] Então tem algumas dívidas que são necessárias, e eu acho que essa dívida é importante as pessoas terem, para que as pessoas possam crescer”.

E continuou. “A gente tem que ir fazendo a dívida, [mas] sempre olhando aquilo que a gente vai pagar com aquilo que a gente ganha. Se a gente fizer uma dívida maior do que o salário da gente, e a prestação for maior do que o que sobra de dinheiro no final do mês, a gente está lascado. A gente pede comida pelo celular, a gente paga a conta pelo celular, a gente faz compra pelo celular. Quando a gente vai comprando, é R$ 50 ali, é R$ 30, é R$ 40, parece que não é nada. Mas, quando chega ao final do mês, a somatória dessa quantidade de pouquinhos vira grande. Aí a gente começa a ficar zangado. Pô, trabalhei o mês inteiro, recebi meu salário e não sobrou nada, cara. Não sobrou nada. Aí quem que você xinga? O governo.”

As instituições precisam ser desenhadas para estimular um comportamento produtivo das pessoas. Parece que não está funcionando. Como documentei há duas semanas neste espaço, o crescimento da produtividade do trabalho tem sido muito baixo. O elevado endividamento indica que o modelo petista de governar —tributar e redistribuir sem considerar os incentivos— atinge seus limites.

Link da publicação: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/samuelpessoa/2026/03/divida-das-familias-indica-limites-do-modelo-petista-de-governar.shtml

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/samuelpessoa/2026/03/divida-das-familias-indica-limites-do-modelo-petista-de-governar.shtml

Sobre o autor

Samuel Pessôa