Folha
Tive a oportunidade de coordenar, com os colegas Fernando Veloso e Vinícius Botelho, um trabalho do CDPP (Centro de Debates de Políticas Públicas) propondo reformas estruturais para romper o ciclo vicioso de baixo crescimento e pobreza no Brasil. Esta Folha publicou o diagnóstico de nosso trabalho.
Detalho, aqui, os desafios fiscais. A diferença entre o superávit primário que precisamos para estabilizar o crescimento da dívida (3,5% do PIB) e o resultado que estamos obtendo (déficit de 0,5%) só encontra paralelo, em momentos de crise, com a recessão de 2014-16 e a pandemia.
Estamos vindo de cinco anos de crescimento acima do nosso potencial. À medida que retornarmos ao padrão de crescimento de 1,5% ao ano, com as regulares recessões que caracterizam a volatilidade do nosso PIB, o quadro vai ficar ainda mais desafiador.
O problema não se resolve com duas ou três medidas fiscais. Precisaremos de um conjunto amplo de medidas para garantir um ajuste de pelo menos 1% do PIB, que sinalize mudança de trajetória fiscal, que diminuirão os juros de longo prazo, melhorando a dinâmica da dívida.
A mudança do nosso regime fiscal tem seis dimensões. Todas enfrentam significativa dificuldade política.
A mais urgente está no crescimento insustentável de algumas despesas: reajuste real dos benefícios previdenciários e assistenciais, explosão na concessão de benefícios, regimes previdenciários desequilibrados. Aqui a resistência vem dos beneficiários e daqueles que priorizam a distribuição visível de benefícios sem se importar com os custos pagos por toda a sociedade.
A segunda dimensão é a desorganização institucional. O Congresso Nacional ampliou suas prerrogativas para capturar o Orçamento via emendas, além de propor e aprovar seguidas “bombas fiscais”. O Judiciário multiplica supersalários e amplia gastos por decisões monocráticas. Os estados e municípios empurram suas dívidas para o Tesouro Nacional. Fazer cada um voltar para dentro da sua casinha não será trivial.
A terceira dimensão está em corrigir a má alocação de recursos. Uma reforma administrativa que alinhe incentivos de servidores com a boa prestação de serviços. A revisão das vinculações de recursos, das regras de transferências a estados e municípios e de partilha de royalties de petróleo, das políticas de desenvolvimento regional, das isenções tributárias e subsídios e do redesenho de políticas sociais. Trata-se de alocar recursos de forma a agregar mais valor à sociedade.
A quarta dimensão é de gestão. Destaca-se a necessidade de integração de cadastros sociais e outros mecanismos para coibir fraudes.
A quinta dimensão é reduzir a volatilidade das finanças públicas, hoje muito afetadas pelo ciclo econômico. Estados e municípios arrecadam muito em anos de crescimento e entram em crise nas recessões. É preciso rever o desenho dos limites de endividamento e despesa da LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal), das transferências federais e das vinculações impostas aos entes subnacionais.
Por fim, há que recobrar a credibilidade das regras fiscais e orçamentárias, abaladas com os furos no teto de gasto e no arcabouço fiscal, bem como pelo modelo anacrônico de planejamento e orçamento.
Nada disso é simples. Quem assumir o governo em 2027, se não quiser repetir o script de mediocridade econômica e crises recorrentes, terá de montar a concertação política necessária para avançar nessa agenda.
Link da publicação: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcos-mendes/2026/04/as-seis-dimensoes-do-ajuste-fiscal.shtml
As opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

