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Crescimento dos últimos 30 anos foi melhor que a década perdida, mas medíocre, diz Arminio Fraga

Valor

O ex-presidente do Banco Central (BC) Arminio Fraga afirmou nesta segunda-feira (6) que o crescimento da economia brasileira nos últimos 30 anos foi melhor que o da década perdida, mas ainda assim medíocre. Ele cita “falha fatal” na condução da economia pelo Estado brasileiro, com ausência de estratégia de desenvolvimento.

“Vimos esse [crescimento] de 1,3% por ano nos últimos 30 anos. Considero ok, mas medíocre. Melhor que a década perdida”, disse ao participar do XII Seminário Anual de Política Monetária, promovido pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). Esta edição do seminário presta homenagem ao ex-diretor do BC e coordenador do Centro de Estudos de Política Monetária do FGV Ibre José Júlio Senna.

Além do fraco crescimento da economia brasileira, Arminio condenou a manutenção da desigualdade de renda no Brasil. “Tem o Bolsa Família, mas o que mais se pode fazer?”, perguntou. Uma das consequências da falta de planejamento de longo prazo no Brasil, segundo o economista, aparece na educação.

“Apesar de praticamente todas as crianças frequentarem escolas, os exames mostram resultados absolutamente medíocres. […]”

Em outra frente, o economista Fernando de Holanda Barbosa, professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças da FGV (EPGE FGV), fez elogios ao sistema de metas de inflação adotado no país desde o governo Fernando Henrique Cardoso.

Barbosa, que participou do XII Seminário Anual de Política Monetária, na sede da FGV, no Rio, afirmou que o sistema de metas de inflação foi um avanço institucional “em um país que às vezes carece de instituições”.

Durante sua apresentação, Barbosa questionou por que a taxa básica de juros no Brasil é tão elevada. Ele lembrou que, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, para sustentar o sistema de bandas cambiais, os juros básicos oscilaram entre 15% ao ano e 20% ao ano. Atualmente, destacou, a Selic segue elevada, mesmo sem o sistema de bandas cambiais. A Selic hoje está em 14,75% ao ano.

“Por que o Brasil precisa de taxas tão elevadas quando quer reduzir a inflação? Pergunta para a qual não tenho a resposta. Por que a taxa de juros natural no Brasil tem que ser tão elevada? É elevada compara a Chile e México”, questionou.

“É um problema muito grave, que nos incomoda e temos que achar a resposta porque é a taxa de juros básico de todo o sistema financeiro”, acrescentou.

Também presente no seminário, o ex-presidente da Petrobras e ex-diretor do BC Roberto Castello Branco, destacou as dificuldades de crescimento da economia brasileira e o desperdício de recursos pelas empresas estatais.

“Nossas instituições carregam a herança cultural dos colonizadores portugueses, mas isso não facilita o crescimento. O foco tem sido na redistribuição da renda e não no crescimento da renda.”

Na sua avaliação, “as estatais são grandes desperdiçadoras de recursos da sociedade” e “a intervenção estatal cria ambiente propício para a corrupção”.

Arminio, Barbosa e Castello Branco ressaltaram a contribuição das obras e da trajetória profissional de José Júlio Senna para a avaliação da política monetária e da economia brasileira.

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