Ex-ministro e ex-presidente do BC diz que autoridade monetária “precisa se explicar” sobre a condução da inflação, pois a credibilidade da instituição está em jogo
Globo
O ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central (BC) Henrique Meirelles, avalia que os olhos do mercado financeiro estarão voltados, nesta terça-feira, à Ata do Comitê de Política Monetária (Copom). Isso porque, na sua visão, o documento precisa explicar a tolerância com uma inflação mais alta dentro do horizonte de atuação da política monetária.
Desde a semana passada, houve um salto nas expectativas no mercado de juros diante da leitura de que o Banco Central tenha demonstrado, através do comunicado que decidiu o novo patamar dos juros, um tom mais brando na condução da inflação, que segue acima da meta no horizonte de tolerância da política monetária. Na última quarta-feira, o Copom decidiu pela redução da Taxa Selic, de 14,5% para 14,25% ao ano.
Ontem, o mercado passou a estimar, no Boletim Focus, que o IPCA alcance os 5,33% em 2026 e 4,15% no ano que vem, ainda acima do centro da meta em 2028, quando deve registrar alta de 3,7%. Diante do estresse no mercado de juros, o Tesouro Nacional chegou a anunciar ontem a interrupção da venda dos títulos que realiza todas as terças-feiras. Em entrevista ao GLOBO, Meirelles analisou a comunicação do BC com o mercado.
Como o senhor avalia o comunicado do Copom?
Foi uma decisão que não é clássica do Copom, na medida que falamos sobre o horizonte previsível, que seria o último trimestre de 2027. O Copom, normalmente, deveria segurar a taxa de juros e eventualmente, segundo os modelos macroeconométricos, podendo até aumentar a taxa de juros. Porém a expectativa do BC é deixar essa inflação nesse patamar ou até subindo um pouco, aguardando para que a inflação seja deflacionária para 2028.
É uma medida que tem seus riscos porque, se você deixa a inflação acima da meta por um período prolongado, você pode ter uma piora nas expectativas, como uma consolidação de uma inflação mais alta. E isso pode gerar dificuldades, exigindo mais juros lá na frente para colocar a inflação na meta.
Em relação à preocupação com inflação abaixo da meta, é evidente que haja, mas isso não é o que está acontecendo agora. E, olhando à frente, você vai a cada reunião rodando os modelos macroeconométricos e, se em algum dos cenários passar a projetar uma inflação abaixo da meta, o BC tem condições de corrigir isso com facilidade.
Agora, o Banco Central precisa se explicar. Eles vão ter que se explicar bem na ata, porque as expectativas de inflação e os juros subiram, logo, o mercado discorda dessa decisão. Vamos ver na ata como ele vai arreganhar o controle das expectativas. Ela vai precisar ser lida com muita atenção, exatamente o que ela diz.
Qual será a estratégia de ter inflação acima da meta e estar cortando juros? Não é uma postura usual. A ata precisa explicar exatamente o porquê. Só justificaria se à frente do horizonte você vencer a inflação, vê-la convergindo, mas não é o que está no horizonte previsível a partir da leitura do mercado.
Pode haver algum impacto na credibilidade do Banco Central?
Pode ocorrer, há um risco. A não ser que o BC explique algo que seja muito convincente, do porquê que ele acha que deixando a inflação acima da meta, ela vai cair. E qual é o risco de uma inflação abaixo da meta. Porque ele achava que a taxa de juros estava contracionista? Na ata, ele precisa dar explicação clara da estratégia dele aos atores.
Tivemos um estresse no mercado de juros negociados no mercado. O senhor acredita que a incerteza eleitoral impacta?
Acho que impacta um pouco, mas tem muito impacto da inflação, que está mais resiliente, porque há muita coisa indexada. Mas acho inevitável uma mudança na condução da política fiscal.
Se o governo está gastando cada vez mais, dando impulso à economia, quando a inflação está acima da meta, acima do intervalo de tolerância, e com a política fiscal expansionista, a política monetária é algo que mostra-se de menor efeito.
É negativo do ponto de vista da política econômica. Você tem a política monetária e fiscal andando em direções contrárias. O juro ainda está alto, apesar do corte. Mas não se pode esquecer que a expectativa de inflação no horizonte previsível está acima da meta.
O ciclo de queda dos juros tende a ser mais curto, menor do que aquele previsto antes do conflito do Irã. Qual será o impacto para a economia?
Será negativo. E ainda tivemos essa série de novas medidas (fiscais), todas expansionistas. Os consumidores precisarão pagar juros mais elevados. Mas, ainda assim, só tem uma coisa pior do que juros elevados, que é inflação acima da meta.
Quando o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) foi criado lá atrás, ele teve duas finalidades: controlar a inflação e maximizar o emprego. A curto prazo essas duas lições foram compatíveis, porque para controlar a inflação precisa assegurar atividade econômica. E isso pode levar a uma estabilização ou aumento do desemprego. E o Fed mudou essa previsão.
Ele interpretava que a melhor maneira de maximizar o emprego é manter a inflação na meta, permitindo um crescimento da economia com inflação controlada. Na medida que você controla a inflação, você maximiza o emprego, pois permite queda dos juros à frente.
Link da publicação: https://oglobo.globo.com/economia/financas/noticia/2026/06/23/henrique-meirelles-critica-comunicado-do-copom-que-abalou-o-mercado-nao-foi-usual.ghtml
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