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Executivo tem responsabilidade central na piora fiscal

  • Situação teve significativa deterioração a partir de 2023
  • Com desaceleração da economia será difícil evitar uma crise fiscal

Folha

Entre janeiro de 2016 e dezembro de 2019, a despesa primária do Governo Federal acumulada em 12 meses, em valores de outubro de 2025, ficou praticamente constante: uma média de R$ 1.974 bilhões, oscilando R$ 20 bilhões para cima ou para baixo.

Esse era um padrão consistente com um ajuste fiscal gradualista. A despesa não crescia em termos reais e, à medida que o PIB crescia, caía a relação despesa/PIB.

Durante a Covid, a despesa subiu muito. Mas logo caiu e estabilizou-se um pouco acima do nível pré-pandemia. Nos últimos 12 meses do governo Bolsonaro, somou R$ 2.091 bilhões, sempre a preços de outubro de 2025.

A partir do início do governo Lula 3, a despesa decolou, atingindo R$ 2.400 bilhões nos 12 meses encerrados em outubro de 2025. Um aumento real de R$ 309 bilhões desde dezembro de 2022.

A tese de que a despesa cresceu por conta de herança maldita não parece correta. Apenas duas medidas, de inteira responsabilidade do atual Poder Executivo, acrescentaram R$ 108 bilhões à despesa de 2025: a nova política do salário mínimo e a reindexação à receita das despesas com saúde e educação.

Somando o aumento de R$ 62 bilhões no Bolsa Família: chegamos a R$ 170 bilhões advindo de escolhas do atual Poder Executivo. Nada menos que 55% do aumento total (170/309) de despesas no período.

Em proporção do PIB, a despesa primária fechará 2025 em 19% do PIB em 2025, igual à média do período 2016-22, excluído o ano da pandemia. Isso cria a impressão de que não haveria problema.

Essa estatística, contudo, é enganosa, porque a expansão fiscal tem empurrado o PIB para cima, reduzindo a relação despesa/PIB. Mas não se pode manter o PIB crescendo acima do seu potencial indefinidamente por meio de estímulos fiscais.

Em algum momento vem uma crise fiscal, acompanhada de recessão. Então o PIB cai e a relação despesa/PIB sobe. Exatamente o que aconteceu em 2014, final do último ciclo de expansão fiscal do PT. Por isso, é mais realista analisar a variação da despesa em termos reais.

Há que considerar ainda que o governo aumentou a despesa financeira, que não aparece na conta do resultado primário. Em 2022, saíram do orçamento da União R$ 66 bilhões, a preços de 2025, para servirem de “funding” a empréstimos direcionados por bancos públicos. Em 2025, esse valor havia mais que dobrado em termos reais, chegando a R$ 124 bilhões.

Se não tivesse direcionado esses recursos para conceder empréstimos, o governo poderia utilizá-los para abater dívida pública. Logo, abriu mão de segurar o crescimento da dívida para expandir políticas públicas.

O governo tentou compensar o aumento de despesas aumentando receitas. De fato, comparando os 12 meses encerrados em dezembro de 2022 e em outubro de 2025, observamos um aumento da receita líquida de R$ 211 bilhões.

Não é pouca coisa, mas a receita cresceu R$ 98 bilhões a menos que a despesa primária. O que é natural, pois há todo tipo de resistência a mais tributos, o que não ocorre com o aumento da despesa, que tem muitos entusiastas.

Ademais, parte relevante do crescimento da receita vem do crescimento da economia, que se expandiu 3,6% ao ano, em média, nos últimos quatro anos. Estamos no auge cíclico. A desaceleração já começou em 2025 e se aprofundará em 2026. A trajetória da receita esfriará. Logo, não há ajuste sustentável pelo lado da arrecadação.

Fecharemos o ano com déficit primário de 0,6% do PIB, mais 1% do PIB de desembolsos financeiros. A desaceleração da economia piorará as estatísticas. Não será fácil evitar uma crise fiscal.

Link da publicação: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcos-mendes/2025/11/executivo-tem-responsabilidade-central-na-piora-fiscal.shtml

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Sobre o autor

Marcos Mendes