Globo
É preciso debater como as escolhas políticas serão traduzidas na economia. Essa é a arena legítima para que iluminação e política se encontrem
Um bêbado foi visto procurando suas chaves sob um poste de luz. Alguém passa e lhe pergunta: “Você tem certeza de que as perdeu aqui?”. Ele responde: “Claro que não. Mas aqui é onde a luz está”. O economista e ex-presidente do Federal Reserve americano Alan Blinder usou a anedota em sua fala em 2023, quando ganhou o prêmio Moynihan.
Criado em 2007 pela American Academy of Political and Social Science (AAPSS), o prêmio homenageia o legado de Daniel Patrick Moynihan, senador americano que teve grande influência nas políticas sociais e na utilização de ciências sociais para embasar decisões de governo.
Blinder se referia ao que ele chamou, em seu livro publicado em 2018, “The Lamppost Theory of Economic Policy”, que ilustrava a relação entre políticos e economistas. Segundo ele, há uma grande distância entre boa economia e boa política, pois políticos tendem a usar a economia como um poste, mas para se apoiar e não para iluminar.
Pedro Malan e eu usamos essa referência no artigo que escrevemos em coautoria para o livro que organizamos com Ana Paula Vescovi em homenagem a Eduardo Guardia. Repito-a aqui hoje, talvez num tom menos otimista do que o fizemos lá atrás.
Para Blinder, essa distância se explica porque economistas e políticos pertencem a civilizações diferentes. Falam linguagens distintas; definem o que é sucesso e trabalham em horizontes de tempo muito distantes. Até mesmo a lógica que utilizam difere. Mas ele vai além ao apontar três Is da distância: ignorância, ideologia e interesses. E cada um tem consequências.
A falta de conhecimento dos conceitos econômicos permite que soluções simplistas, erros conceituais ou visões superficiais sobre políticas econômicas vinguem no debate. Convicções ideológicas criam resistências mesmo diante de evidências em contrário.
Finalmente, grupos de interesse têm grande poder para influenciar decisões e moldar políticas de acordo com seus interesses particulares, mesmo que isso vá contra o bem-estar coletivo.
Para reduzir a distância e ampliar a capacidade de influenciar, Blinder sugere que economistas aprendam com a política. Isso passa por entender que a construção de políticas públicas se dá em quatro picadeiros.
Neles, substância, política, mensagens e processos interagem de forma simultânea. Nós economistas tendemos a nos limitar ao primeiro deles, onde cabem os conceitos, ou a iluminação. Pecamos miseravelmente nos demais.
No Brasil conhecemos bem isso. Há décadas, nossos melhores economistas discutem e apresentam, em particular em anos pré-eleições presidenciais, diagnósticos e propostas para enfrentarmos os problemas brasileiros.
Cabe à boa economia — fundamentada, baseada em evidências, testada e avaliada — propor soluções de políticas públicas capazes de aliviar os problemas sociais que vivemos. E temos isso em abundância.
Sabemos por que crescemos pouco, por que nossa produtividade estagnou, por que o crédito é caro, que o Estado não funciona e que insistimos em políticas sociais que se multiplicam sem avaliação, ou sem efetividade. Temos propostas concretas para todos esses problemas.
Na área fiscal não é diferente. Há anos repetimos o roteiro: gastar mais, adiar ajustes, projetar receitas incertas, flexibilizar regras, criar subterfúgios contábeis e tratar escolhas difíceis como evitáveis. Mas há convergência sobre o que precisa ser feito para reverter esse quadro. Na boa economia, mas não na política.
A saída não está em esperar que políticos virem economistas, nem que economistas decidam no lugar da política. Mas há que se construir pontes de diálogo em torno do básico: reguladores independentes e fortalecidos; um regime fiscal crível baseado em revisão de gastos e alocação de recursos condizente com nossas prioridades sociais; avaliação de políticas de forma sistemática e transparente; resgate das nossas instituições fiscais e da governança que rege a alocação de recursos públicos com base em interesses coletivos.
Estamos às portas de um ano eleitoral. Ao contrário dos últimos, em que o debate sequer tangenciou nossos problemas reais, este deveria marcar a convergência que explicite como as escolhas que faremos no campo da política serão traduzidas na economia. Essa é a arena legítima para que iluminação e política se encontrem.
Link da publicação: https://oglobo.globo.com/economia/ana-carla-abrao/coluna/2025/11/quando-a-politica-prefere-a-sombra.ghtml
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