Folha
O evento de maior impacto de 2025 foi o “Dia da Libertação”, 2 de abril, em que Trump anunciou as tarifas. É cedo para sabermos, mas possivelmente em algumas décadas a efeméride será considerada mais marcante do que 9 de novembro de 1989, a queda do Muro de Berlim. O Dia da Libertação poderá marcar o fim da paz americana e o início de um mundo multipolar.
Economicamente, o fenômeno mais saliente de 2025 foi a perda de valor da moeda americana. O índice do dólar, um indicador que mede a cotação da moeda americana em relação a uma cesta de seis moedas de países/regiões desenvolvidas, enfraqueceu-se em 9,4%. Ante o real o enfraquecimento da moeda americana foi de 11,3%.
A desvalorização da moeda americana de 9,4% em um ano não é algo excepcional. O que foi excepcional é que, em condições normais, o dólar deveria ter se valorizado em 2025. Por dois motivos. Primeiro, se há uma elevação generalizadas das tarifas de importação, em um regime de câmbio flutuante, a resposta dos mercados é valorizar a moeda. A valorização da moeda compensa o movimento inicial de encarecer as importações.
Uma das consequências de os EUA serem o grande país hegemônico é que o título de dívida emitido pelo Tesouro americano é visto como porto seguro em momentos de grande incerteza.
Quando estourou a crise financeira global, com a quebra do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008, a moeda americana, não obstante a crise ter sido produzida por uma regulação bancária ruim nos EUA, se fortaleceu. A incerteza macroeconômica, fruto da crise bancária, fez com que o índice do dólar se valorizasse em 10,8% no último trimestre de 2008.
O Dia da Libertação, com a política tarifária muito errática e conceitualmente errada de Trump, elevou muito a incerteza da economia mundial. O dólar, em condições normais de funcionalmento da economia mundial, deveria ter se valorizado.
Como vimos, a moeda se enfraqueceu, apesar dos dois motivos para que o movimento fosse na direção contrária. O mercado financeiro não tratou a economia americana como o grande país hegemônico da ordem internacional. A perda de valor do dólar, quando os fundamentos apontam na direção oposta, é fruto da piora institucional que temos visto naquela economia.
Apesar desses movimentos, o ano não terminou mal para Trump. Após desaceleração do crescimento no início de 2025 —a economia recuou 0,6% no primeiro trimestre em razão da forte desaceleração do consumo—, houve recuperação ao longo do ano, que deve ter fechado com crescimento de 2,2%, leve redução em relação ao crescimento de 2,5% em 2024.
Houve leve elevação do desemprego, de 4% para 4,4%, mas, principalmente, o choque inflacionário produzido pelas tarifas não teve, até o momento, o impacto que se imaginava. A inflação ao consumidor, que fechou 2024 a 2,9%, reduziu-se para 2,7%. O mais importante é que a desvalorização era um dos objetivos de política econômica de Trump. Ele conseguiu ambos: elevou as tarifas e a moeda se enfraqueceu!
A agenda para 2026 é sabermos se as instituições americanas irão se contrapor aos ataques trumpistas. A Suprema Corte irá considerar ilegal as alíquotas discriminatórias contra países? A sociedade americana irá impor uma derrota eleitoral a Trump nas eleições legislativas de meio de mandato?
Link da publicação: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/samuelpessoa/2026/01/fim-da-paz-americana.shtml
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