Porcentual de pessoas com trabalho aumenta continuamente com o nível educacional, chegando a 84% no caso das pessoas com ensino superior
Valor

O mercado de trabalho brasileiro está passando por mudanças significativas nos últimos tempos. As mudanças demográficas estão provocando alterações significativas na estrutura de emprego. Além disto, o trabalho por conta própria está ganhando importância, seja através de MEIs, PJs ou trabalho por aplicativos.
A renda familiar per capita, principal indicador de padrão de vida, está aumentando desde 2022, o que é uma característica dos governos do PT. A figura mostra que, após um período de estabilidade em torno de R$ 520 por pessoa entre 1999 e 2004, a renda familiar per capita mediana aumentou continuamente até atingir R$ 1.000 em 2014. Em seguida ela declinou 15% com a crise econômica do final do governo Dilma e depois com a pandemia. Mas desde 2022 a renda vem crescendo novamente, chegando a atingir R$ 1.200 em 2024, com o grande aumento no valor das transferências de renda e com o aquecimento do mercado de trabalho.
Ou seja, uma família típica de 4 pessoas hoje em dia no Brasil tem renda total de R$ 4.800. Vale destacar que a renda dos mais pobres triplicou entre 2003 e 2024. Este aumento de renda, que será ampliado com a isenção de impostos sobre a renda em 2026, pode estar impactando positivamente as intenções de voto no presidente Lula na próxima eleição presidencial.
Além disto, a taxa de desemprego está no nível mais baixo desde o início da nova série em 2012, tendo atingido 5,3% no terceiro trimestre de 2025, apesar da alta taxa de juros vigente. A taxa de participação no mercado de trabalho está no mesmo nível de 14 anos atrás, com queda apenas no grupo de jovens abaixo de 18 anos, contrabalançada por um aumento nos grupos velhos, especialmente acima de 60 anos. Além disto, o aumento da escolaridade da população tende a contribuir para um aumento da taxa de participação no mercado de trabalho.
O porcentual de pessoas com trabalho aumenta continuamente com o nível educacional, chegando a 84% no caso das pessoas com ensino superior. Frequentemente ouvimos falar que o ensino superior atual não prepara mais o jovem para o mercado de trabalho, ou que houve expansão excessiva das matrículas neste nível de ensino. Porém, estas afirmações não encontram respaldo nos dados, pois a taxa de emprego continua bem maior para quem tem ensino superior do que entre os demais níveis educacionais. Além disto, o salário médio deste grupo continua bem maior que o dos demais, mesmo após a expansão significativa de graduados que houve nas últimas décadas.
A renda familiar per capita, principal indicador de padrão de vida, está aumentando desde 2022
Em termos setoriais, a agricultura e a indústria continuaram a perder importância em termos de emprego, como resultado da transformação estrutural pela qual o Brasil está passando já há algumas décadas. Está havendo também forte declínio do emprego no setor de serviços domésticos. Por outro lado, os setores de educação, saúde, transporte, alimentação e serviços qualificados, como comunicação, informação e finanças, se expandiram. Estas tendências também estão associadas à expansão educacional e ao envelhecimento da população.
Em termos das relações de emprego, a parcela de trabalhadores que são empregados no setor privado (com ou sem carteira) ou no setor público manteve-se constante. A grande alteração que tivemos nos últimos anos foi a redução da parcela da população que se dedica aos serviços domésticos e o aumento da população trabalhando por conta própria. Os trabalhadores por conta própria passaram de 20 milhões para 26 milhões nos últimos 13 anos, um aumento substancial para um período relativamente curto. Estes movimentos sugerem que as novas gerações, cujos pais trabalhavam em serviços domésticos, está estudando mais e passando a trabalhar por conta própria, seja como MEI ou através de aplicativos.
A parcela de trabalhadores por conta própria se expandiu principalmente no setor de transportes (passando de 32% para 47% dos trabalhadores neste grupo), nos serviços qualificados (de 14% para 23%) e nos serviços em geral (de 48% para 61%). O grupo de trabalhadores em que houve mais aumento foi o de jovens adultos com ensino médio ou superior. Se antes os mais escolarizados preferiam um emprego formal, com carteira de trabalho, agora muitos preferem ser livres para decidir o seu próprio destino.
Estas estatísticas são compatíveis com um estudo recente do IBGE que mostrou que 2% das pessoas ocupadas trabalham por meio de plataformas digitais. Isso significa que cerca de 2 milhões estão trabalhando em aplicativos de transporte, entrega de comida ou de produtos. A maioria destes trabalhadores são homens, jovens adultos, brancos ou pardos, com ensino médio completo ou superior incompleto. Em termos salariais, os trabalhadores “plataformizados” com ensino médio ganham em média o mesmo que os demais trabalhadores com a mesma escolaridade, mas entre os que têm ensino superior as outras ocupações pagam mais.
O problema é que somente 35% dos trabalhadores por aplicativo contribuem para a Previdência, ao passo que entre os trabalhadores formais a taxa é de 62%. Isto significa que a crescente parcela de trabalhadores que preferem trabalhar por conta própria trará grandes problemas para financiar a Previdência no futuro. Além disto, muitos dos que fazem esta opção no início da vida poderão acabar se desiludindo, ao perceber que o trabalho formal também tem vantagens a longo prazo.
Em suma, estamos passando por mais um período de aquecimento no mercado de trabalho, que está provocando aumento da renda do trabalho e no padrão de vida dos brasileiros. Neste período, muitos dos trabalhadores jovens que adquiriram mais escolaridade do que seus pais estão optando por trabalhar por conta própria, seja por aplicativo ou abrindo uma MEI ou PJ. Isto terá implicações profundas para nossa sociedade, que estamos somente começando a descobrir.
Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/mudancas-no-mercado-de-trabalho.ghtml
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