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O dilema do Copom

Estadão

Cenário internacional turva o ambiente de definição da Selic

Em sua última reunião, o Copom praticamente prometeu iniciar o ciclo de corte da Selic em março, “em se confirmando o cenário esperado”. À época, o mercado interpretou a frase como sinal de redução de 0,5 ponto percentual.

De lá para cá, porém, o cenário mudou. O conflito no Oriente Médio levou a elevação expressiva dos preços de petróleo e derivados: o Brent, que no final do mês passado se encontrava na casa de US$ 70/barril, atingiu US$ 100/barril no momento em que escrevo.

É bem verdade que os impactos esperados de uma alta do petróleo são muito distintos daqueles do passado. O Brasil se tornou exportador líquido de óleo cru, registrando saldo de cerca de US$ 40 bilhões nos últimos 12 meses. Petróleo mais caro, portanto, nos torna um pouco mais ricos.

Por outro lado, resta saber como irão se comportar preços de combustíveis e gás, que, de uma forma ou de outra, não podem desviar muito do preço internacional, inclusive porque, no caso destes produtos, ainda somos importadores líquidos. Em particular, o alinhamento do preço doméstico da gasolina ao internacional requereria, de acordo com nossas contas, reajuste na casa de 35-40%.

Para falar a verdade, há grande discricionariedade da Petrobras na determinação destes preços, de modo que não sabemos se tal cenário se materializará, mas, de qualquer forma, nossas estimativas sugerem que cada aumento de 10% no preço da gasolina na refinaria adiciona 0,15 ponto percentual ao IPCA.

Não é difícil entender eventuais receios do BC quanto a tais desenvolvimentos.  A inflação para 2026, hoje esperada um tanto abaixo de 4%, poderia ficar novamente próxima ao limite da meta no final do ano.

Isto dito, porém, lembremos que o BC mira agora a inflação para os 12 meses até setembro de 2027, que, em tese, não sofreria impactos diretos de um reajuste de preço de combustíveis nos próximos meses. A ameaça à projeção da inflação para este horizonte mais longo poderia vir por dois canais: um dólar mais caro, que até agora não se manifestou, ou pelo aumento das expectativas de inflação.

A pesquisa Focus ainda não sugere tal piora; já os preços de mercado mostram alguma deterioração, cuja persistência não podemos avaliar.

A se manter o cenário atual, podemos esperar que o BC inicie sim a redução da Selic na próxima reunião do Copom, cabendo ainda decidir a magnitude do corte. O BC provavelmente iniciará o ciclo com corte mais cauteloso, 0,25 ponto percentual, pavimentando o caminho para cortes mais expressivos nas demais reuniões.

Link da publicação: https://www.estadao.com.br/economia/alexandre-schwartsman/o-dilema-do-copom-cenario-internacional-turva-o-ambiente-de-definicao-da-selic/

As opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Sobre o autor

Alexandre Schwartsman