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Saúde mental das mães e desenvolvimento infantil

O primeiro passo para cuidar do desenvolvimento infantil é cuidar da saúde mental das jovens e adolescentes

Valor

Até pouco tempo atrás, achava-se que as políticas públicas intersetoriais para as crianças só deveriam começar quando elas entrassem na escola. Hoje em dia, sabemos que os primeiros anos da vida são os mais importantes para o desenvolvimento saudável e para o futuro produtivo das pessoas. Ao mesmo tempo, estamos observando um crescimento dos problemas de saúde mental entre as jovens, muitas das quais serão mães no futuro. Será que estes problemas de saúde mental das mães afetam o desenvolvimento infantil?

Muitas pesquisas mostram que problemas no desenvolvimento infantil diminuem o aprendizado das crianças na escola e sua produtividade no futuro. Estas lacunas no desenvolvimento tendem também a aumentar as desigualdades, pois geralmente afetam as crianças vulneráveis com maior intensidade e tendem a ter seus efeitos ampliados ao longo da vida. Este é um dos principais componentes da persistência da pobreza entre as gerações.

Para analisar o processo de desenvolvimento infantil no Brasil e seus efeitos no longo prazo, o Centro Brasileiro de Pesquisa Aplicada à Primeira Infância (CPAPI) está acompanhando cerca de 1.000 crianças nascidas no segundo semestre de 2023. É um estudo longitudinal, em que seguimos uma mesma geração ao longo do tempo, por vários anos. Fizemos coletas de dados logo após o nascimento e também quando as crianças tinham 6 e 18 meses de idade. Um dos objetivos deste projeto é entender melhor como os problemas de saúde mental das mães afetam o desenvolvimento infantil dos seus filhos.

Os dados mostram que metade das mães na nossa coorte já tinha tido algum problema sério de saúde mental antes da gravidez. Destas, 17% tiveram problemas de depressão e 33% de ansiedade. Além disto, 19% destas mães tiveram sintomas de depressão pós-parto, segundo as avaliações realizadas pela equipe do CPAPI na maternidade. Na coleta realizada quando as crianças tinham seis meses de idade, a parcela das mães com sintomas de depressão aumentou para 25% ou seja, 1 a cada 4 mães da nossa coorte tinha indícios de que poderia estar com depressão.

Além disto, os dados mostram que a dinâmica da depressão nas mães é preocupante. Mães que já tinham sido diagnosticadas com problemas de depressão antes da gravidez têm probabilidade muito maior de também apresentar sintomas de depressão após o parto. Esta probabilidade atinge 32% entre estas mães, com relação a 16% entre as que nunca tinham tido sintomas. E a depressão logo após o parto também aumenta muito o risco de depressão 6 meses após o parto, que passa de 46%, com relação a 20% entre as que não tinham tido depressão logo após o parto.

Ou seja, uma grande parcela das mães não se recupera dos sintomas de depressão pós-parto. E estas relações se mantêm mesmo após controlarmos por outras características das mães. Estes resultados demonstram claramente a importância de termos políticas públicas específicas para tratar os problemas de saúde mental das jovens e adolescentes, pois alguns destes são recorrentes. Ou seja, para cuidar das crianças na primeira infância é necessário, antes de tudo, cuidar da saúde mental das futuras mães.

Além disto, nosso estudo avaliou o desenvolvimento infantil das crianças usando vários indicadores diferentes. Um destes indicadores é o ASQ (Ages and Stages Questionnaire), bastante utilizado para identificar riscos de atrasos no desenvolvimento infantil. Este índice é composto de 5 domínios: comunicação (que avalia a produção de sons, palavras e expressão facial); coordenação motora bruta (controle dos membros, equilíbrio), coordenação motora fina (segurar e agarrar objetos), resolução de problemas (interação com o ambiente) e pessoal-social (interação social).

Os dados mostram que 11% das crianças da nossa amostra apresentam indícios de atraso de desenvolvimento em algum destes domínios. A figura abaixo mostra a relação entre os sintomas de depressão da mãe e riscos de desenvolvimento das crianças aos seis meses de idade. Os atrasos de desenvolvimento saltam de 9% quando as mães não têm sintomas de depressão, para 17% entre as que apresentam sintomas. Todos os domínios parecem ser afetados, especialmente o relacionado com as habilidades motoras gerais.

Além disto é interessante notar como as notórias desigualdades que existem no Brasil afetam a relação entre os sintomas de depressão e os riscos de atraso no desenvolvimento. Os dados mostram que a ocorrência de depressão antes da gravidez não difere muito entre as mães mais e menos escolarizadas. Porém, após o parto, os sintomas de depressão começam a ficar mais fortes entre as mães com menos educação. E, seis meses após o parto, esta diferença aumenta muito. Ou seja, as experiências negativas associados ao parto e à criação dos bebês parecem ser mais intensas nas mães menos escolarizadas. E isto também afeta o desenvolvimento dos seus filhos.

Em suma, para entender porque o aprendizado nas escolas brasileiras é tão baixo, é preciso buscar explicações também no desenvolvimento infantil que ocorre mesmo antes das crianças entrarem na escola. E um dos fatores que mais afetam o desenvolvimento infantil é a saúde mental das mães. Os nossos dados mostram que os sintomas de depressão aumentam muito seis meses após o parto e afetam mais intensamente as mães menos escolarizadas.

Além disto, estes sintomas estão associados a maiores riscos de atraso de desenvolvimento nas crianças, que poderão ter mais dificuldades para aprender quando chegarem na escola. Assim, o primeiro passo para cuidar do desenvolvimento infantil é cuidar da saúde mental das jovens e adolescentes, que parece estar sendo bastante afetada por vários fatores, inclusive pelas redes sociais.

Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/naercio-menezes-filho/coluna/saude-mental-das-maes-e-desenvolvimento-infantil.ghtml

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Sobre o autor

Naercio Menezes Filho