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Um avanço exemplar na inovação industrial

Horácio Lafer Piva, Pedro Passos e Pedro Wongtschowski

Estadão

O Brasil aprendeu, ao longo de sua história recente, que inovação não é acessória. É condição definitiva de competitividade. Pressionados por desafios tecnológicos e ambientais, países que não transformam conhecimento em produtividade e valor ficam para trás. Foi nesse contexto que nasceu, em 2013, a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), uma instituição privada, sem fins lucrativos, que trabalha com recursos públicos, tecnicamente uma Organização Social. Mais do que um simples instrumento de fomento, trata-se de um modelo que corrige uma distorção histórica: a desconexão entre a excelência científica instalada e as demandas industriais brasileiras.

Ao longo de pouco mais de uma década, a instituição consolidou uma fórmula singular e, ao mesmo tempo, poderosa. Em vez de operar com editais, burocracia e tempos incompatíveis com o ritmo do mercado, ela conecta diretamente empresas a centros de pesquisa, trabalhando com uma rede espalhada pelo País, que abriga hoje uma centena de unidades e 22 mil colaboradores. Tudo isso com compartilhamento de riscos por meio de recursos não reembolsáveis para acelerar o desenvolvimento tecnológico.

É demanda tratada com agilidade, flexibilidade e foco em resultado, características ainda raras no ambiente brasileiro. Permite que empresas inovem com mais segurança e rapidez, e que o conhecimento gerado nas instituições de pesquisa chegue, de fato, ao mercado.

Quando de sua criação, os então ministros Aloizio Mercadante e Marco Antonio Raupp, e o então presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, renunciaram à ideia de criar dezenas de unidades novas de pesquisa e desenvolvimento (como ocorreu com a Embrapa), em favor da transformação de grupos de pesquisa já existentes em unidades Embrapii, selecionados segundo critérios rigorosos de eficiência, qualidade e experiência.

Até hoje, são mais de 4 mil projetos contratados, cerca de 2,8 mil empresas atendidas e R$ 8,5 bilhões mobilizados em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I). Exemplos de projetos incluem: 1) uma nova forma de produzir combustível sustentável para aviões, que pode ser usado sem precisar modificar motores ou infraestrutura; 2) uso de tecnologias quânticas para solucionar desafios tecnológicos em telecomunicações e segurança digital; e 3) utilização do agave como fonte de biomassa para a produção de biocombustíveis, criando uma nova cadeia agroindustrial adaptada às condições do semiárido brasileiro com alta tolerância ao clima seco e potencial produtivo comparável ao da cana-de-açúcar.

Mais do que o volume ou a diversidade dos projetos, chama atenção a velocidade e consistência do crescimento, com taxas superiores a 30% ao ano em diferentes indicadores. O fato é que a empresa deixou de ser apenas uma experiência promissora para se tornar um dos principais instrumentos de transformação tecnológica da indústria brasileira. Em indicação de sua eficácia, utiliza menos de 5% de seu orçamento em atividades-meio; 95% de seus recursos são efetivamente aplicados em projetos encomendados pela indústria.

Inovação não se constrói em ciclos curtos. A experiência internacional mostra que países que conseguiram avançar de forma consistente na industrialização baseada em inovação precisam de estabilidade institucional, continuidade de financiamento, previsibilidade e visão de longo prazo.

A Embrapii foi concebida com essa lógica. O crescimento observado nos últimos anos reforça essa percepção e indica que há espaço para avançar ainda mais. Mas isso exige um passo adicional: consolidar a instituição como um instrumento permanente de política industrial e tecnológica a serviço do Brasil, garantindo estabilidade orçamentária, ampliando e diversificando fontes de financiamento, fortalecendo parcerias com ministérios, bancos de desenvolvimento e organismos internacionais.

Ao mesmo tempo, será fundamental expandir competências em áreas estratégicas emergentes. Inteligência artificial, tecnologias quânticas, fontes alternativas de energia, terapias avançadas e conectividade de nova geração são campos que definirão a competitividade industrial nas próximas décadas.

O Brasil vive um momento decisivo. Transformar todo esse potencial em concretude exige coordenação que a Embrapii e congêneres, com apoio dos ministérios da Ciência e Tecnologia; da Saúde; da Educação; do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços; do BNDES; e do Sebrae, têm desempenhado, e que cabe fortalecimento crescente.

A inovação já é o motor da nova industrialização. Esse movimento será determinante para o crescimento sustentável, a geração de empregos qualificados e a inserção competitiva do Brasil em todo o mundo. Ao tornar o modelo mais robusto, com escala e previsibilidade de orçamento, o País dará condições de ampliar o investimento privado em inovação, garantindo produtividade e competitividade à nossa indústria. É uma decisão que não se pode adiar, e mais do que isso, uma escolha sobre o tipo de país que o Brasil pretende ser nas próximas décadas.

Link da publicação: https://www.estadao.com.br/opiniao/espaco-aberto/um-avanco-exemplar-na-inovacao-industrial/

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Pedro Passos