Folha
Visitei em julho a Caverna de Lascaux, que abriga um dos mais extraordinários conjuntos de pinturas rupestres já descobertos.
Na verdade, eu não estive na caverna de Lascaux, e sim em Lascaux II, uma cópia perfeita da parcela principal da caverna e suas pinturas, realizadas há cerca de 17 mil anos. A Caverna original, cuja entrada dista menos de 300 metros, está fechada desde 1963, como forma de proteger seu magnífico acervo da degradação provocada pelo fluxo diário de visitantes, principalmente através do dióxido de carbono de sua respiração.
Ao forte encanto provocado pela beleza insólita dessas manifestações primeiras do talento artístico humano somou-se a admiração pela previdência daqueles que, apenas 23 anos após a descoberta da caverna em 1940, decidiram fechá-la à visitação. Bem como, naturalmente, pelo engenho dos que imaginaram e executaram a construção de uma réplica, inaugurada em 1983. Assim milhares de pessoas podem conhecer esse Patrimônio Mundial da Unesco, sabedores de que a obra original está preservada.
"Usufruir sem destruir".
Este deveria ser o princípio norteador de toda interação do homem com a natureza. No estágio que já atingimos, há diversos casos em que deveríamos também acrescentar "restaurar" a essa divisa.
Terminada a visita, defrontei-me com o calor de 40 graus do verão francês. Poucos dias depois, começaram os incêndios na região de Bordeaux, na Espanha, na Itália e na Grécia; o Norte da África também foi atingido. Do outro lado do Atlântico, os EUA viveram em julho o mês mais quente de sua história, desde o início das medições nacionais, em 1895.
Por meio desses noticiários, aprendi sobre dois fenômenos que desconhecia. O primeiro são as nuvens pirocúmulo-nimbo, ou "nuvens de fogo", como as designou o título de um ótimo artigo de Reinaldo José Lopes, nesta Folha, cuja leitura recomendo a quem queira se aprofundar. São nuvens raras —até então inéditas na França— que retroalimentam os próprios incêndios que as criaram.
O segundo é a "sede atmosférica", como o Financial Times chamou as secas súbitas (flash droughts) provocadas pelas ondas de calor que começaram já em maio na Europa, quando o ar seco "suga" o solo mais rápido que o normal, segundo cientistas da World Weather Attribution.
Sem possuir conhecimentos científicos, associei esse fenômeno a algo cada vez mais frequente no Pantanal, sujeito a incêndios recorrentes, que a sabedoria local batizou de "quatro trintas"; o risco de fogo dispara quando ocorrem simultaneamente quatro fatores: 30 dias sem chuva, temperatura acima de 30 graus, umidade abaixo de 30% e ventos superiores a 30 km/h.
O que realmente me surpreendeu nas ondas de calor e nos incêndios europeus foi o fato de eles terem causado tanta surpresa.
Da mesma forma como o ministro da Cultura André Malraux (também escritor e autor de "A Condição Humana") teve confirmada por cientistas a advertência do zelador da caverna de que o enorme fluxo de visitantes estava ameaçando as pinturas de Lascaux, nós também, já há décadas, temos sido alertados pelo melhor conhecimento científico disponível, quanto ao aquecimento provocado pelas emissões de gases de efeito estufa (GEE) e os desastres climáticos a ele associados.
Malraux fechou Lascaux, e nós, o que fizemos?
Ninguém de bom senso pensa que a solução seja fechar a Terra e transferirmo-nos para outro planeta. As soluções tecnológicas para a redução de emissões já existem em grande parte e continuam a ser desenvolvidas com velocidade e eficácia crescentes. O que ainda nos falta é coordenação política global para acelerar a transição.
Uma articulação global para evitar esse desfecho pode parecer uma ideia utópica, mas recentemente resolvemos rapidamente um grande problema de escala global: a pandemia de Covid-19. Que fatores podem explicar a superação daquele problema em pouco mais de um ano, enquanto já há pelo menos duas décadas nos debatemos com a questão climática?
Cito os que me ocorrem como mais relevantes. As mortes da Covid-19 eram imediatas e claramente atribuíveis à doença; as do aquecimento global se distribuem ao longo de décadas, entre causas diversas —incêndios, enchentes, calor, fome.
Com a Covid-19 houve uma parada súbita da economia mundial, com prejuízos enormes e imediatos; com o clima, países e empresas são afetados gradualmente e de forma desigual, e são os mais pobres os mais atingidos.
Na pandemia, praticamente não havia ganhadores; no aquecimento, os combustíveis fósseis —principal fonte das emissões— geram lucros extraordinários para setores com recursos e poder político suficientes para retardar, quando não impedir, a redução de emissões.
E, uma vez criada uma vacina eficiente, todos os países tiveram interesse em obtê-la; no caso do clima, à maior complexidade tecnológica soma-se a resistência à adoção, pelos motivos já expostos.
Nenhum desses obstáculos é tecnicamente intransponível. Todos dependem apenas de motivação e determinação política para serem superados. A sequência de incêndios e outros desastres climáticos poderá ser um elemento importante de convencimento, mas mesmo nesses casos, vemos a atenção ser dirigida para as soluções de adaptação de curto prazo —sem dúvida necessárias— enquanto se relega a segundo plano o enfrentamento de suas causas.
Naturalmente haverá custos, mas são infinitamente inferiores ao preço da inação. Lascaux foi preservada porque alguém aceitou sacrificar um benefício imediato em prol de um bem maior e permanente. A crise climática nos pede exatamente a mesma maturidade.
Na ausência de atitudes como esta, temo que o futuro nos reserve um cenário semelhante ao delineado por uma anedota que ouvi recentemente: vários planetas e exoplanetas estavam reunidos trocando ideias, quando surge um planeta com ar doentio, olhos vermelhos, garganta seca, cachecol no pescoço e termômetro na boca.
- Mas o que te aconteceu, companheiro?
- Não sei, peguei uma moléstia brava... uma tal de humanidade.
- Xiii, essa é terrível mesmo. Mas não se preocupe, amigo; passa rápido.
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