Carta ao presidente reeleito

Pedro Passos

Quem discorda de suas condutas pode ter razões que mereçam ser ouvidas

Forme equipes capazes de apresentar fatos desagradáveis e corrigir decisões

Folha

Horacio Lafer Piva, Pedro Passos e Pedro Wongtschowski

Aceite os cumprimentos pela vitória e nossos votos de êxito, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente reeleito. O sucesso de seu governo interessa a todos os brasileiros, inclusive aos que não votaram no senhor. Começa agora uma responsabilidade maior do que a de representar seus apoiadores: servir ao país inteiro. É com esse espírito que encaminhamos algumas ideias sobre a maneira de exercer o poder.

Não trataremos aqui das políticas que seu governo deverá adotar. Nosso assunto é a conduta de quem governa. A forma não é um detalhe: influencia a confiança nas instituições, a disposição para cooperar e a legitimidade das decisões. Um presidente da República mostra pelo exemplo, todos os dias, o que considera aceitável na vida pública.

Comece por reconhecer que a vitória lhe confere um mandato, não a propriedade do Estado nem um certificado de infalibilidade. O país não se divide entre brasileiros merecedores de atenção e adversários a serem castigados. Recursos, serviços e oportunidades não podem depender da preferência eleitoral de cidadãos ou ocupantes de cargos públicos. A Presidência pertence à República; seu ocupante a exerce por tempo determinado.

Respeite as minorias em toda a extensão da palavra. Isso inclui todos os grupos sujeitos a discriminação, mas também aqueles que pensam de maneira diferente da sua. A maioria autoriza o governo a decidir; não o autoriza a humilhar, silenciar ou excluir. Quem discorda pode ter razões que mereçam ser ouvidas. A oposição não precisa de sua simpatia, mas tem direito ao seu respeito.

Faça da transparência uma prática cotidiana. Divulgue agendas, despesas, critérios de nomeação e fundamentos das decisões. Não use a proteção da intimidade como pretexto para impedir o exame de atos públicos. Não imponha 50 anos de silêncio a documentos que permitam avaliar a conduta do governo.

Não procure atalhos para favorecer aliados nem pressione órgãos do Estado a perseguir adversários. As regras devem valer igualmente para amigos, familiares, colaboradores e opositores. Não peça a um servidor que faça aquilo que o senhor não poderia defender publicamente.

Cuide da liturgia do cargo. Ela exige respeito às instituições, sobriedade nas cerimônias e consciência de que a palavra presidencial tem consequências. Seja austero e não transforme entrevistas, discursos e redes sociais em prolongamentos do palanque. É possível defender convicções com firmeza e responder a críticas sem agressividade. O exemplo presidencial pode estimular contenção ou legitimar excessos em toda a administração.

Escolha pessoas pela competência e pela integridade. A confiança política importa, mas não substitui conhecimento, experiência e capacidade de gestão. Forme equipes capazes de discordar, apresentar fatos desagradáveis e corrigir decisões. Um auxiliar que só concorda pode ser confortável; dificilmente será o mais útil ao país.

Organize o governo para decidir com clareza e prestar contas. Reconheça o trabalho dos servidores e proteja a manifestação técnica de boa-fé. Ao errar, corrija o rumo e explique a mudança. Admitir um erro preserva mais a autoridade do que insistir nele para salvar as aparências.

Mantenha relações respeitosas com o Congresso Nacional, o Judiciário, a imprensa e os órgãos de controle. Divergências fazem parte de suas funções. Aceite fiscalização e não trate toda crítica como sabotagem.

Não cobre reverência pessoal de quem deve lealdade às instituições. A comunicação oficial deve informar sobre o governo, sem converter o dinheiro do contribuinte em instrumento de promoção do governante.

Por fim, aplique aos seus aliados os padrões que exigiria de seus adversários. Apure denúncias sem escolher previamente culpados ou inocentes. Dê o exemplo de civilidade e de isenção no uso do poder. Sua vitória será mais valiosa se, ao término do mandato, até quem continuou discordando de suas ideias puder reconhecer que foi tratado com justiça.

O Brasil precisa de seu sucesso.

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As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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Pedro Passos

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