Descendo a ladeira

Mario Mesquita

Relatório do FMI e de economistas independentes demonstram mais pessimismo em relação à economia brasileira em 2027

Valor

O FMI acaba de publicar mais uma revisão do cenário global (o relatório World Economic Outlook), por ocasião de sua reunião anual. Frente à edição anterior, o relatório traz poucas mudanças no agregado, mas alterações importantes nos componentes. Os economistas do Fundo esperam que o PIB global cresça 3,1% em 2026 e 3,4% em 2027 - projetavam 3% e 3,4% para 2026 e 2027, respectivamente, no relatório de julho.

Considerando as economias avançadas, o FMI revisou para cima a projeção de crescimento do PIB nos EUA em 2027 para 2,3%, antes 2,2%, e manteve para 2026 em 2,3%. O boom de investimentos associados à inteligência artificial deve continuar sustentando a atividade. O relatório enxerga crescimento um pouco mais forte na área do euro em 2026, 1,1%, antes 0,9% e manteve a projeção de crescimento em 1,2% para 2027. Já o Japão deve continuar mostrando pouco dinamismo, elevação esperada do PIB de 0,7% tanto em 2026 quanto em 2027.

 Quanto aos Brics (grupo original), a expectativa é bem heterogênea. Segundo o FMI, a economia sul-africana deve seguir com crescimento baixo (e desemprego alto), 1% em 2026 e 1,3% em 2027. As projeções para a economia russa sofreram importantes revisões negativas, para 0,9% tanto em 2026 quanto 2027 (1,1% anteriormente), como resultado dos efeitos do conflito militar e das sanções. A economia mais dinâmica do grupo, a Índia, deve crescer 7% em 2026 e 2027, segundo o Fundo. Mantido esse ritmo, a economia indiana deve praticamente duplicar de tamanho nos próximos dez anos. Trata-se obviamente de um mercado sobre o qual nossas empresas deveriam se interessar.

A China, que responde por mais de 60% do PIB do grupo, deve crescer 4,5% nesse ano, em linha com as metas do governo, e 4% no ano que vem. Essa desaceleração reflete, em parte, o impacto da elevação dos preços do petróleo. Mesmo assim, dado o tamanho da economia chinesa, essas taxas de expansão oferecem contribuição muito importante para o crescimento da economia mundial.

O Brasil, por sua vez, é, entre as principais economias (tabela 1.1 do relatório), aquela com a maior revisão negativa para 2027. A expectativa dos economistas do FMI é que nossa economia cresça 2,2% em 2026 e 1,9% em 2027, com reduções de 0,2 e 0,3 pp, em relação ao relatório anterior. A desaceleração, segundo os economistas do FMI, deve-se aos impactos da política monetária, a uma suposta redução do impacto da política fiscal (que segue expansionista) e à incerteza internacional. Cabe registrar que as projeções foram feitas antes do anúncio de novas medidas de apoio à demanda, nas últimas semanas, e que podem ser ampliadas.

Além do FMI, os economistas independentes também demonstram mais pessimismo em relação à economia brasileira em 2027. Segundo o relatório Focus, compilado pelo Banco Central, a mediana das expectativas de crescimento para 2026 e 2027 se encontra em 1,83% e 1,32%, respectivamente, em trajetória de queda. Para ficar entre os números mais otimistas do FMI, e o pessimismo do mercado, cabe trabalhar com a média, 2% em 2026 e 1,6% em 2027. Tais projeções apontam para o prolongamento do declínio da economia brasileira, que seguirá crescendo abaixo do PIB mundial - o Brasil deve seguir com uma performance fraca, em termos relativos, em 2026 e 2027.

Dado o estado da inflação, parece haver hoje espaço limitado para flexibilização monetária adicional

E o quadro pode ser pior. Dados mais recentes, referentes à atividade no mês de agosto, englobando os indicadores do IBGE para a atividade nos setores de serviços (PMS) e comércio (PMC), vieram abaixo das expectativas consensuais, e injetam um risco adicional de baixa às projeções para o ano. Indicadores de alta frequência, como o IDAT, compilado pelo Itaú a partir do comportamento dos gastos que passam pela instituição, sugerem que a desaceleração pode ter se intensificado em setembro.

Dados do Banco Central e comentários da indústria bancária e empresariado vêm apontando para a elevação da inadimplência das famílias e empresas, o que representa risco de baixa adicional para a economia. O aperto das condições financeiras globais, seja por consequência de tensões geopolíticas, seja como resultado de uma reversão do boom acionário global, adiciona risco de baixa para a atividade.

Em relatório recente sobre a economia brasileira (Artigo IV, de julho de 2026), economistas do FMI destacam a contribuição da política fiscal expansionista para manter a expansão do produto nos últimos anos. Migramos de uma postura contracíclica voltada a acelerar a retomada pós pandemia para uma de estímulo permanente, em especial via transferências. Nesse meio tempo, mesmo sem grandes choques e sem recessão, que deprimiriam o denominador, a razão dívida-PIB vem crescendo a um ritmo insustentável. O relatório do FMI sinaliza elevação da dívida bruta do governo em quase 14 pontos percentuais do PIB entre 2022 e 2026, para quase 100%. Isso significa que, independentemente da retórica oficial, o grau de apoio fiscal à atividade terá que ser reduzido à frente.

Dado o estado da inflação, e em especial de seu cenário prospectivo, parece haver, aos olhos de hoje, espaço limitado para flexibilização monetária adicional. Com isso, a economia provavelmente seguirá descendo a ladeira em 2027, só que talvez com maior rapidez.

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As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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