Um dos principais desafios para o presidente eleito será estimular o crescimento de produtividade da economia brasileira
Valor
A eleição para presidente será neste final de semana. Um dos principais desafios para o presidente eleito será trazer mais dinamismo para a economia brasileira, que tem apresentado baixo crescimento de produtividade nas últimas décadas. Para isto, a relação entre o ensino superior e o mercado de trabalho é crucial. Os microdados do censo demográfico de 2022, apesar dos 4 anos de atraso, trazem informações importantes para que possamos entender melhor esta relação.
Os dados mostram, em primeiro lugar, que a escolaridade continuou a aumentar no Brasil. Pela primeira vez na nossa história, mais de metade dos adultos possui pelo menos o ensino médio. Isto representa um grande avanço, especialmente se lembrarmos que apenas 1/4 das pessoas alcançava este nível de ensino em 2001. Além disto 18% dos brasileiros tinha ensino superior completo em 2022, um crescimento expressivo em relação a 2000 (6,8%) e 2010 (11,3%)
As pessoas com faculdade ganham salários 2,5 vezes maiores do que aquelas com até o ensino médio
Um dos mitos frequentemente disseminado nas redes sociais é que não valeria mais a pena fazer ensino superior. Mas não é o que os dados mostram, pelo menos para o cidadão médio. Os diferenciais de salários associados ao ensino superior com relação ao ensino médio declinaram um pouco entre 2010 e 2022, mas ainda são muito elevados, apesar do grande aumento do número de formados. As pessoas com faculdade ganham, em média, salários duas vezes e meia maiores do que aquelas que param no ensino médio, mesmo após controlarmos por diferenças demográficas entre os grupos. Enquanto isso, o diferencial de salários por ter ensino médio completo com relação aos que têm apenas ensino fundamental completo estão estagnados ao redor de 30%.
Outra informação bastante disseminada é que a proliferação das faculdades de medicina na última década está “despejando” médicos em excesso no mercado, colocando em risco a saúde dos pacientes. Os números não parecem dar sustentabilidade a esta tese, porém. A figura (abaixo) mostra os diferenciais saláriais de alguns cursos de graduação com relação à média salarial do ensino superior nas áreas urbanas. Os médicos, que já ganhavam um salário médio maior do que o das outras formações em 2010, passaram a ganhar ainda mais 2022. Isto mostra que a necessidade de médicos por parte da sociedade parece ter aumentado mais rapidamente do que a sua disponibilidade neste período.

Outras formações também passaram a proporcionar maiores salários com relação à média. Estatística, por exemplo, que era a sexta carreira mais bem paga em 2010, passou para o segundo lugar. Os economistas também aumentaram a sua remuneração relativa, assim como os matemáticos. Por outro lado, os engenheiros perderam bastante remuneração relativa, assim como os advogados e arquitetos. Os dados parecem indicar que está havendo uma queda na demanda relativa por carreiras tradicionais, em direção às formações que sabem lidar melhor com as informações disponíveis. Será que este movimento já está capturando os efeitos da inteligência artificial? Precisamos de mais pesquisas para investigar esta hipótese.
Outra informação que circula há vários anos é que as pessoas com diploma de ensino superior acabam trabalhando em ocupações que não exigem esta formação. O caso clássico nos 1980 era o “engenheiro que virou suco”, nome de uma lanchonete em São Paulo. Até que ponto isto vem se agravando ao longo do tempo? Com os dados do censo demográfico é possível saber se os formados em determinada área do conhecimento trabalham em ocupações típicas desta área ou não(1).
Os dados mostram que 30% dos formados atuavam em ocupações de ensino superior tipicamente relacionadas com sua formação. Esta taxa foi se reduzindo ao longo do tempo, tendo passado de 44% em 1980, para 38% em 1991 e 32% em 2010. Além disto, 25% das pessoas graduadas atuavam em áreas diferente da sua formação em 2022, mas ainda em ocupações típicas de ensino superior. E os demais 45% trabalhavam em ocupações que não são típicas de quem tem ensino superior, parcela que permaneceu estável desde 2010.
Como era de se esperar, as pessoas que trabalham em ocupações típicas de ensino superior têm um salário maior do que as que estão em outras ocupações. Este diferencial salarial entre ocupações típicas e não-típicas aumentou de 27% para 45% entre 2010 e 2022. Mas mesmo as pessoas com ensino superior que trabalham em posições que não são tradicionalmente ocupadas por pessoas com ensino superior ainda ganham mais do que as que têm apenas ensino médio.
Assim, o ensino superior está associado a melhores salários mesmo para os que não trabalham em ocupações de nível superior. Estes diferenciais salariais podem estar refletindo um maior conjunto de habilidades gerais dos formados mesmo antes de entrarem na faculdade ou o desenvolvimento destas habilidades durante a graduação.
O que podemos concluir a partir de todas estas informações? Por enquanto, esta análise é apenas descritiva, sendo necessárias pesquisas mais aprofundadas com estes dados para que possamos entender melhor as tendências e derivar prescrições para políticas públicas. Mas os resultados preliminares indicam que os trabalhadores com ensino superior ganham salários maiores do que os que pararam de estudar no ensino médio por vários motivos. Além disto, a hierarquia salarial entre as formações está mudando ao longo do tempo. Precisamos analisar os dados com cuidado antes de tirarmos conclusões precipitadas sobre o papel da educação. E votar em candidatos que valorizam a educação.
1. O artigo que iniciou esta linha de pesquisa é “Instrução Superior e Mercado de Trabalho no Brasil”, de Fernandes e Narita.
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