Economista e ex-diretor do BC aponta que candidato é vago e não tem histórico sobre o tema. “Vive lua de mel, assim como viveu Lula”
Estadão
Após o principal índice de ações da bolsa, o Ibovespa, subir quase 8%, maior alta em mais de seis anos, o economista e ex-diretor do Banco Central, Alexandre Schwartsman, avalia que o mercado está muito comprado na ideia de que o senador Flávio Bolsonaro (PL) irá fazer um grande ajuste fiscal. Contudo, é cético em relação a isso. “Eu pago para ver.”
Até agora, aponta, Flávio Bolsonaro tem sido superficial sobre o tema, o que não é uma surpresa. “Ninguém vai abrir o jogo ou dar munição nesta altura da eleição, mas também é verdade que ele não tem um histórico conhecido nessa área”.
O filho de Jair Bolsonaro deu apenas declarações sobre aumentar a eficiência do governo. Mas, para o economista, o ajuste fiscal do Brasil deve ser discutido no campo da Previdência e de programas sociais. Sobre esses pontos, ressalta, o candidato do PL tem se esquivado de dar declarações.
“Se for mexer na Previdência, vai ter de enfrentar a questão do salário mínimo: ou tirar o reajuste real ou desvinculá-lo do benefício previdenciário. É difícil fazer isso. Também seria preciso rever a vinculação dos pisos de saúde e educação à evolução da receita e redesenhar o Bolsa Família”.
Veja abaixo os principais trechos da entrevista:
O senhor está cético em relação a esse ajuste fiscal?
Sou cético. A história de Flávio Bolsonaro não é edificante do ponto de vista fiscal.
O pai dele, Jair Bolsonaro, teve algum controle nas contas públicas e entregou uma despesa menor como proporção do PIB do que a que havia recebido. Mas, no fim do governo, para ganhar a eleição, não teve a menor vergonha de rasgar a fantasia e gastar muito.
Essa aposta do mercado deve perdurar?
Vai haver um período de lua de mel, imaginando que Flávio será eleito e que fará esse ajuste. Isso pode trazer juros mais baixos e dólar mais barato, o que facilita a vida do Banco Central. Já há perspectiva de corte de juros em dezembro, e o mercado está precificando parte desse movimento.
Mas isso ajuda apenas no começo. Ele vai ter de entregar. Não dá para ficar só no campo das promessas.
O mercado está dando o benefício da dúvida ao Flávio. Lula já teve sua lua de mel: o mercado comprou o arcabouço fiscal, os juros caíram e o real se apreciou. Quando houve uma fraquejada, acabou a brincadeira.
Qual é o risco?
O mercado já colocou preço em alguma coisa que espera que venha. Se não vier, vai ter problema.
O programa econômico apresentado até agora é uma coleção de obviedades. Faz mais diferença, na verdade, quem vai tomar conta da lojinha.
Há pessoas na equipe econômica que eu conheço e respeito, que entendem do negócio. Mas existe uma diferença entre a equipe entender e o candidato comprar a ideia. Alguns candidatos têm uma história que joga a favor. Este, em particular, não tem. Espero para ver.
O avanço da direita no Congresso pode facilitar um eventual ajuste fiscal a partir de 2027?
Não há uma identificação tão clara entre posição ideológica de direita e o ajuste fiscal. No fim das contas, depende muito mais do que o Executivo se propõe a fazer.
O Congresso não é exatamente um exemplo de retidão fiscal, mas, de maneira geral, não costuma se colocar à frente de um ajuste que venha do Executivo.
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