Sem ajuste fiscal, vem crise e aumento de inflação, diz Eduardo Giannetti

CDPP

Estadão

O discurso de posse de Eduardo Giannetti da cadeira número 2 da Academia Brasileira de Letras encerra oferecendo uma visão otimista do Brasil. Feito em agosto de 2022, ainda na pandemia e com o País dilacerado pelas milhares de mortes e muitas outras mazelas que se intensificaram naqueles anos sombrios, sua exposição de aceitação lembra que descemos “aos infernos”, com a democracia afrontada, a desigualdade agravada. Mas evocando o amor, que considera ilógico, encerra a narrativa dizendo que o Brasil “tem sede de futuro”.

Pode parecer um pronunciamento estranho a um economista, mas Giannetti é diferente - ficou apenas uma semana em um banco de investimento, não queria dedicar toda a sua vida àquilo. E, sobretudo, é um economista que sabe: seu objeto de estudo nasceu da filosofia moral e que renda per capita não é sinônimo de sociedade feliz.

Giannetti conversou com a Coluna numa quinta-feira abafada em São Paulo, minutos antes de participar de uma conversa com o rabino Nilton Bonder, ambos fizeram uma concorrida palestra no Museu Judaico de São Paulo. Essa parceria, que à primeira vista pode parecer estranha, definitivamente não é. É normal, afinal, Giannetti sabe, como todos deveriam saber, que pessoas são pessoas, não números. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

Ao longo da sua obra você aproxima a economia e a filosofia moral. Existe uma política econômica que possa ser considerada moralmente superior a outra? Em outras palavras, existe uma responsabilidade moral pelos fins, pelo aumento do bem estar coletivo, de uma política econômica?

Então, Alice, é preciso, acho que antes de mais nada, entender que a economia nasceu de um campo do conhecimento que era chamado filosofia moral. Os grandes economistas do Século 18 e 19, com exceção do David Ricardo, que era homem de negócios, todos os outros, Adam Smith, John Stuart Mill, Marx, Marshall, Keynes, Malthus, todos eles eram filósofos, ensinavam ética, ensinavam história, ensinavam lógica e economia política. Então, a economia era um ramo de uma compreensão abrangente da sociedade humana e do ser humano. O Adam Smith é autor da teoria dos sentimentos morais, além de ser autor da Riqueza das Nações. John Stuart Mill é autor do utilitarismo, além de ser autor dos princípios de economia política, Marx escreveu uma tese de doutorado sobre a diferença entre as filosofias da natureza de Demócrito e Epicuro. Filosofia grega, clássica. Depois ele enveredou para a economia política, para a crítica da economia política. Podia dar muitos exemplos. O que eu estou fazendo não tem novidade nenhuma. Eu estou só voltando, o que me parece legal, uma coisa boa, à origem da economia, que é um pensamento mais integrado, porque quando a economia se separa das outras humanidades e da filosofia, ela tenta imitar a Física e passa a tratar o ser humano como algo mecânico.

É o homos economicus que sempre responde da mesma maneira aos mesmos estímulos de preço. E essa simplificação me parece muito duvidosa. Ela permite modelagem matemática sofisticada, mas ela perde de vista as questões que para mim são relevantes, como explicação humana. Quais são os objetivos de uma existência plena? O que é uma vida bem vivida? O que constitui uma boa sociedade? A pergunta que você me faz, no fundo, é essa: o que torna uma sociedade melhor do ponto de vista ético do que outra? Certamente não é só a renda per capita. Você tem sociedades com renda per capita muito alta, em que as pessoas não são felizes, são frustradas, estão cometendo suicídio. Veja o caso dos Estados Unidos. As mortes por desespero se tornaram um problema enorme, opióides, alcoolismo, abuso de drogas e está pegando justamente a população jovem, 18 a 50 anos. Então, essa pergunta eu acho que a pergunta que vale a pena: O que torna uma vida humana? E o que torna uma sociedade boa?

Os protestos na França, e em diferentes países europeus, expõem uma tensão crescente: sociedades que demandam proteção social, estados endividados e populações que envelhecem. Como equilibrar os direitos adquiridos de uma geração com as oportunidades das próximas? E diante da necessidade de ajustes, quem faz o sacrifício?

Então, a gente viu nas últimas décadas um aumento muito grande da concentração de patrimônio e de renda no mundo. E os Estados nacionais estão com muita dificuldade de compatibilizar as demandas legítimas por educação, por saúde, por previdência, de um lado, e o envelhecimento da população, que também tem um custo de saúde muito elevado. A demografia também. Agora, a concentração de renda e de patrimônio no mundo é alguma coisa que vai ser evidentemente repensada. Eu peguei um número outro dia que me chamou a atenção. Os 400 americanos mais ricos, 400 pessoas, dá quase para saber pelo nome, detém um patrimônio líquido superior a 150 milhões de americanos, que são os 60% mais pobres da população. Tem indivíduo que sozinho tem uma riqueza maior do que muitos países do mundo. Tem alguma coisa errada. Essas pessoas não geraram valor socialmente reconhecido que justifique tal acúmulo de patrimônio.

Eu acho que é um fenômeno de financeirização da economia. Você tem períodos de liberalização dos mercados financeiros em que pessoas que são muito hábeis em multiplicar o dinheiro pela multiplicação, pela manipulação do próprio dinheiro, tornam-se excepcionalmente ricas e vão gerando um volume de ativos financeiros que ao fim e ao cabo não se sustenta. E aí você tem colapso. Em 1929, o crash da bolsa americana foi um episódio desse tipo, 2008, 2009, a crise financeira das hipotecas, foi um fenômeno desse tipo. Eu tenho impressão que a gente está chegando perto de um acontecimento, que eu espero que não seja traumático, de redução dessa massa inacreditavelmente grande de riqueza financeira, que se for exercida no mercado, não tem como atender. As empresas listadas na bolsa americana aumentaram de valor US$ 35 trilhões de 2022 para cá. Vamos pôr em magnitude o que são US$ 35 trilhões: o PIB americano é US$ 32 trilhões, o PIB brasileiro é US$ 2,8 trilhões. O aumento da riqueza financeira, só na bolsa americana, US$ 35 milhões, 55% desse aumento, dez empresas, todas ligadas, evidentemente, à high tech, inteligência artificial, chips, data center. Isso não vai continuar por muito tempo. É muito desproporcional e essas empresas dificilmente vão ter rentabilidade, retorno, que justifique essa valorização especulativa que levou a essa extravagância de US$ 35 trilhões.

John Stuart Mill defendia a liberdade individual acompanhado de responsabilidade sobre as próprias escolhas. O Brasil estaria preparado para um pacto social mais liberal, no qual direitos e responsabilidades caminham juntos? Ou a nossa formação histórica criou uma sociedade em que diferentes grupos disputam permanentemente benefícios e proteção do Estado?

Nossa, você tocou num dos autores que eu realmente estudei apaixonadamente e continuo estudando. Você citou o livro dele, On Liberty, que essa defesa muito elaborada e muito fundamentada, que é a liberdade humana. Só que ele é um economista político, como economista político, entre outras coisas, ele defendia - você vai ficar surpresa - o fim do crescimento econômico, isso em 1848. (Dizia) As sociedades europeias já criaram riqueza suficiente, o que importa agora é distribuí-las melhor em nome do que? Em nome de mais liberdade para afirmar valores no mundo, autonomia e trabalhos prazerosos em nome do respeito à natureza, para não destruir o meio ambiente. Isso está lá em 1848. Ele questiona profunda e sustentadamente o direito de herança. Por que a desigualdade acumulada em uma geração se transmite automaticamente para gerações seguintes, independentemente de contribuição, de mérito, de criação, de valor? Ele tem capítulos maravilhosos nesse livro, Princípios de Economia e Política contra o direito de Herança. É um liberal clássico, é que as pessoas não lêem, não sabem, e talvez não queiram saber. A economia de mercado não implica direito de herança. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, é uma outra instituição. É evidente que você preserva um patrimônio para que as pessoas tenham uma condição de vida inicial razoável. Mas você transferir US$ 300 bilhões, o que, aliás, muitos desses americanos muito ricos fazem, criam entidades filantrópicas, criam centros de pesquisa, bibliotecas. Acho que no Brasil está começando. Já tem uma nova geração que eu acho que está mais atenta para sua responsabilidade em relação ao futuro desse país e às gerações futuras.

É que eu acho que tem uma elite que acha que é mérito ter esse dinheiro, que tem uma meritocracia nesse dinheiro que ela fez.

A gente está num país profundamente desigual. Veja, eu não me incomodo com a desigualdade na chegada, no resultado, mas eu me incomodo muito com a desigualdade na partida, no caminho. E nós estamos num país em que um contingente imenso de brasileiros já nasce condenado a não poder plenamente desfrutar do seu potencial. Porque não foi educada, porque não foi alfabetizada, porque não aprendeu a pensar logicamente, porque não teve saneamento básico. Então, essas pessoas já estão na partida, num jogo viciado. Isso é tóxico para a vida brasileira. É um tipo de distribuição que não é resultado de escolhas. Essa desigualdade tem que ser respeitada. As pessoas são diferentes. Eu trabalhei uma semana num banco de investimento, muito agressivo. Falei: não é para mim. Eu não vou sacrificar minha vida para ganhar uma fortuna, porque eu não vou jogar fora meu tempo. Eu gosto de estudar, eu gosto de ler, eu gosto de pensar, aqui não dá. Eu fui lá conhecer de perto, não é para mim. Respeito quem vai lá e passa dez, doze horas por dia maniacamente buscando ganhar dinheiro.

A economia contemporânea tornou-se extremamente sofisticada para medir eficiência, crescimento e produtividade. Mas até que ponto ela consegue responder às questões sobre justiça social e felicidade?

Eu acho que não consegue. E os sinais disso são patentes. Um grande economista americano, ganhador do Prêmio Nobel chamado Angus Deaton, escreveu um livro fantástico chamado Morte por Desespero, e ele mostra o fenômeno que é especialmente forte nos Estados Unidos, que é como está aumentando o número de mortes de jovens que não têm horizonte de vida que lhes pareça capaz de oferecer realização. Quais são as mortes por desespero? Opióides, que mata mais do que toda a violência brasileira. As pessoas não se dão conta. Tem mais gente morrendo por opióides do que toda a violência brasileira, que não é pequena. Alcoolismo, abuso de drogas, depressão, suicídio. A questão dos transtornos mentais se tornou um problema de saúde pública que causa mais danos do que qualquer patologia do corpo. É sinal que alguma coisa está errada. A própria polarização política tem muito a ver com frustração, ressentimento. Pega um americano com a renda mediana. Ele está exatamente no meio da distribuição de renda. Ele está entre os 5% mais ricos do planeta. Ele está no topo da pirâmide de renda e consumo. Esse americano mediano ele é um medíocre, ele é visto como tal. Tem alguma coisa errada porque o cara tem tudo para ter uma vida muito boa, muito plena, muito feliz. E, no entanto, ele está provavelmente recorrendo a estados alterados de consciência e está votando no (Donald) Trump, porque o Trump representa esse tipo de ressentimento, esse tipo de raiva do establishment.

Quando teve a crise de 2008, olha que coisa incrível: enquanto o sistema financeiro ganhava centenas de bilhões de dólares, ninguém tocava. É dinheiro privado, ninguém põe a mão. Recusava-se a conversar sobre uma necessidade de distribuir um pouco melhor. A hora que perde, ah não, há crise sistêmica, vamos socializar. Vira dívida pública. Socializaram as perdas financeiras de 2009. Você quer destruir a legitimidade da economia, do sistema econômico? Não há nada mais poderoso que isso. E o Trump é o herdeiro político.

Agora, no Brasil, quem seria o ministro da Economia que pudesse satisfazer esse momento histórico que a gente está vivendo?

Primeiro, ele precisa ter autonomia. Além de ter ideias corretas, ele precisa ter condições práticas de executar o que ele acredita necessário para o nosso encontro marcado com o ajuste fiscal.

Isso é possível?

Perfeitamente possível. Lula (PT) fez isso no primeiro mandato, em 2003. Aumentou o superávit primário que era praticado pelo governo Fernando Henrique. Quem esperou isso acontecer? Quem esperava? Ninguém. Preservou a independência do Banco Central, debelou uma inflação de dois dígitos, o real se valorizou. O Brasil virou investment grade. O que a Dilma fez com o Joaquim Levy não pode ser repetido: chamou um cara super sério e ele foi vítima de uma farsa. Ele acabou se prestando a uma farsa.

O Paulo Guedes, um pouco com o (Jair) Bolsonaro. Populista sem limites e o Paulo Guedes dando um verniz de legitimidade, de racionalidade que não tinha. Então, autonomia para valer. E a segunda: não pode subestimar a importância da equipe econômica. Não é só o ministro da Fazenda. Ele tem que ter liderança e discernimento para chamar, como (Antônio) Palocci, que nem era economista, médico, gente técnica, gente boa, gente objetiva, com compromisso de fazer acontecer. Então, tem que reunir uma equipe de primeira qualidade. O Palocci, grande parte do sucesso daquela política econômica, foi porque ele soube ouvir e encontrar pessoas qualificadas para dar consequência prática. Quem sabe a gente consegue repetir?

Por que fica a sensação de que isso não vai acontecer?

Está repetindo igualzinho 2002. Eu fui estudar isso. Quando o Lula quase ganhou no primeiro turno, em 2002, a bolsa caiu mais de 20%. Quando ele ganhou o segundo turno, a bolsa caiu mais um pouco, o real derreteu. Nós tivemos o câmbio a mais de R$ 6, a bem mais de R$ 6, lá atrás, que era muito mais do que seria hoje. Fizeram apostas monumentais contra o governo, perderam. O país estabilizou, os ativos se valorizaram, o real se valorizou, a inflação voltou para meta, o país cresceu, a bolsa recuperou muito além do que foi a perda. E quem ficou se deu bem. Quem fugiu perdeu.

A trajetória da dívida pública brasileira preocupa parte importante dos economistas, mas não o presidente Lula, que tem defendido o papel do Estado como indutor do crescimento e o crescimento como caminho para reduzir o endividamento. Como é que você avalia essas posições?

Acreditar que o crescimento é um caminho para diminuir o crescimento da dívida pública é uma fantasia inaceitável. Isso não existe. O que eu acho que dá para dizer, e eu acho que o Lula pode perfeitamente aceitar, é o seguinte: não há uma contradição entre ajuste fiscal e política social. Não há. O que há é a necessidade de fazer um pequeno sacrifício no início para colher o benefício depois, como foi feito no primeiro mandato do Lula. Aceitou um sacrifício no início. Depois pôde fazer política pública generosa, para a qual ele foi eleito, de maneira consistente. Se não fizer o ajuste fiscal, vai ter uma crise, vai ter aumento da inflação. Não há pior política social do que a da inflação. Ela vai pegar no bolso de quem menos pode arcar com essa pancada. Então, se não fizer o ajuste fiscal, vai comprometer a possibilidade de fazer a política social para a qual foi eleito. Aí vai ser o estelionato eleitoral. Agora tem que aceitar um pequeno sacrifício, algum sacrifício na entrada, para poder construir o caminho, reduzir o juro, liberar recursos para fazer a política social para a qual ele foi eleito. Não é para agradar o mercado financeiro, é para poder construir esse caminho. Mas tudo no Brasil que demanda sacrifício agora para benefício depois, é difícil. O brasileiro adora antecipar no tempo para desfrutar no presente. Abrir mão no presente para desfrutar no futuro não é a nossa especialidade, longe disso. E é muito difícil.

Mas você acha que o Lula sabe disso?

Ele já fez isso. Eu acho que ele precisa ouvir que para fazer política social tem que aceitar na entrada, logo na entrada, um aperto, um freio de arrumação. Tem uma imagem bacana de um economista austríaco, (Joseph) Schumpeter, que eu adoro. Ele diz o seguinte: é exatamente porque o carro tem freios que ele pode desenvolver maior velocidade. O que o Brasil precisa é um freio de arrumação. Vamos pôr em ordem as contas públicas para depois desenvolver maior velocidade. Dá uma freada. ganha o jogo das expectativas. Se o carro não tivesse freios, ele batia, ele vai bater, ele vai se desgovernar.

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