Para Luiz Fernando Figueiredo, é preciso criar uma trajetória de queda de gastos para que o mercado passe a acreditar no governo. Ele estima que é necessário fazer um ajuste de 3% do PIB, mas não necessariamente no primeiro ano
Globo
Se o governo reeleito do presidente Lula não der uma guinada na política econômica, o país corre o risco de entrar em recessão já em 2027, diz o ex-diretor do Banco Central, Luiz Fernando Figueiredo, sócio e conselheiro da Jubarte Capital. Sem um ajuste fiscal que chegue próximo de 3% do Produto Interno Bruto (PIB), o equivalente a cerca de R$ 380 bilhões, dificilmente o Banco Central conseguirá baixar juros.
— Aliás, o Banco Central terá que aumentar os juros diante de pressões inflacionárias com o aumento recente de gastos do governo. O presidente gastou na campanha mais R$ 350 bilhões — diz Figueiredo.
Ele deu a seguinte entrevista ao GLOBO:
Qual o principal desafio do governo reeleito?
Na área econômica, será preciso dar uma guinada de 180°, e se o governo não fizer vai ser um desastre. Estamos caminhando para um processo recessivo fortíssimo. A política fiscal já estava insustentável e, durante a campanha, foram gastos mais R$ 350 bilhões.
Os mercados não estão assim hoje (Bolsa em forte queda e dólar valorizado) porque gostavam do Flávio Bolsonaro. É porque o que o Lula fez foi absolutamente irresponsável durante a eleição. Até agora ele não fez o ajuste fiscal, fez o contrário. É uma situação muito grave.
Qual o tamanho do ajuste fiscal necessário?
A questão não é fazer um ajuste no primeiro ano. É preciso criar uma trajetória (de ajuste que leve à queda da dívida). Mas essa trajetória está no sentido oposto. Cria-se um arcabouço fiscal, mas gasta-se uma fortuna fora do arcabouço (os chamados gastos parafiscais).
“Do jeito que está, o juro vai ter que subir. Não tem jeito, o juro nunca é a causa, ele é sempre consequência de uma série de fatores”, Luiz Fernando Figueiredo, sócio da Jubarte Capital
E depois se diz: “olha eu estou cumprindo”. Mas está cumprindo o quê? Só cumpriu formalmente, sendo que na essência todo mundo sabe que não cumpriu. Ele usou, abusou e descumpriu. E agora, então, o governo vai fazer o certo? Ninguém torce pelo contrário, mas o problema é que as evidências são muito ruins.
Mas quanto o senhor estima que será preciso cortar em despesas?
Estamos falando de uns 3% do Produto Interno Bruto (PIB) (o equivalente a R$ 380 bilhões). Mas não precisa ser feito no primeiro ano. Você vai fazendo ao longo do tempo, mas, repito, é preciso criar uma trajetória de queda de gastos para as pessoas acreditarem no governo.
Onde o governo poderia cortar gastos?
Tem um monte de coisas. O governo, nos últimos quatro anos, ampliou os gastos em termos reais em 6% ao ano. Então, tem muita coisa para cortar, há muito desperdício. O Brasil não é um país que arrecada pouco. Arrecada muito, só que gasta muito mais.
Tem um leque de coisas para fazer, algumas despesas você não deveria deixar crescer mais que a inflação, por exemplo. Cortar incentivos tributários também é uma parte desse processo.
A queda dos juros depende desse ajuste?
Do jeito que está, o juro vai ter que subir. Não tem jeito, o juro nunca é causa, ele é sempre consequência de uma série de fatores. E os fatores são todos na direção oposta a se fazer uma queda de juros. A inflação fica pressionada com esses gastos e obriga o BC a aumentar os juros, que tem uma meta, que precisa minimamente cumprir.
Com esse juro elevado, a economia já vem desacelerando. O que esperar para 2027?
Eu não tenho a menor dúvida que caminhamos para uma recessão. Ainda está tudo muito novo, mas para mim o crescimento do ano que vem é negativo. Já estávamos num processo de desaceleração, que vai ser muito acentuado em 2027. Ainda, é claro, existe uma possibilidade de o governo reagir, embora ele não tenha feito isso em nenhum momento.
Qual o perfil para o Ministério da Fazenda que você acha mais indicado? Dario Durigan deveria ficar?
O Durigan fala que o problema é o juro. Mas o juro não é a causa, é a consequência. Acho que o governador do Piauí, Rafael Fonteles, apontado como principal cotado para assumir o Ministério da Fazenda, é um bom nome.
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