Tom populista da campanha inibe o debate, principalmente sobre questão fiscal, diz Marcos Mendes

Marcos Mendes

Debate sobre o ajuste fiscal fica perdido, segundo especialista em contas públicas Marcos Mendes

Valor

O tom populista da campanha inibe a discussão das pautas econômicas, em especial o debate sobre o ajuste fiscal, segundo o especialista em contas públicas Marcos Mendes. “Em uma campanha com marca populista forte como a atual, fazer o contraponto de reformas é arriscar contrair um risco eleitoral grande, ainda mais em uma sociedade leniente com o desajuste fiscal como a nossa. Nesse sentido, Flávio soa como alguém que diz que fará uma omelete, mas não como vai quebrar os ovos.”

Em sua avaliação, as medidas citadas pelo candidato do PL na sabatina são insuficientes ou até perigosas. “Combater a corrupção não vai resolver o problema fiscal. Privatizar é mais um tema bom para se contrapor a Lula que uma resposta ao desafio econômico. Pode ajudar no curto prazo se trouxer receitas, pode até resultar em melhora da produtividade se bem feita, mas é uma receita não recorrente”, afirma. “Já a securitização de dívida eu vejo como um problema. Existe um debate longo sobre se ela é venda de ativos ou empréstimo. Então, se for mal feita, pode virar endividamento disfarçado.”

O presidente Lula, por sua vez, foi mais coerente com o discurso de campanha e de sua gestão. “A profusão de políticas novas e expansão de antigas, abertura total do cofre e drible do arcabouço, tudo tem por trás essa filosofia antiga do PT, que o presidente expressou muito claramente, de que é o governo quem faz a economia girar”, afirma. “É um diagnóstico que pode funcionar em momentos específicos, em que o país está com capacidade ociosa grande, mas em momento como o atual, em que o desemprego está na mínima histórica, esse impulso não vira quantidade, porque as empresas não conseguem produzir mais. Ele vira aumento de preços.”

Na sabatina, Lula disse que “aposta muito na microeconomia” e citou o microcrédito e o apoio ao Microempreendedor Individual (MEI). Para Mendes, tais iniciativas não guardam relação com o conceito. “Não tem nada de microeconomia no que Lula prega. A microeconomia é o estudo do consumidor e do produtor, dos incentivos a que eles respondem. O que o governo atual faz é do campo macroeconômico, de colocar dinheiro público de forma meio cega, que está gerando um problema não só fiscal, mas também de qualidade das políticas”, critica.

Desde o governo Jair Bolsonaro, quando se instituiu o valor mínimo do Bolsa Família, houve piora grande do programa. “Passou a premiar quem mente para o Cadastro Único que a família se dividiu, tirou o foco das crianças. O aumento do limite do MEI faz com que quem esteja entre os 10% mais ricos no país possa usar o regime. O Pé-de-Meia para universitários é absurdo. O programa nasceu para reduzir a taxa de abandono no ensino médio. Fizeram algum estudo para justificar a inclusão do ensino superior? Ou é só para aumentar o número de beneficiários?”

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